8 de janeiro: democracia não se defende sozinha, diz deputado

Memória do ataque às instituições reforça mobilização popular e alerta sobre ameaças persistentes, ressalta Tadeu Veneri (PT-PR)
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“É preciso punir sem condescendência", frisou o parlamentar. Foto: Reprodução

Três anos após a tentativa explícita de golpe contra a ordem democrática, o 8 de janeiro volta a ocupar o centro da cena política brasileira como data de memória, justiça e reafirmação institucional. Em Brasília, atos oficiais marcam a reconstrução simbólica e material dos prédios do Congresso Nacional, do Supremo Tribunal Federal e do Palácio do Planalto, vandalizados por extremistas em 2023. O presidente Lula participa das cerimônias e deve vetou integralmente o Projeto de Lei da Dosimetria, aprovado pelo Congresso, que reduziria penas de envolvidos nos ataques golpistas. Leia em TVT News.

Para o deputado federal Tadeu Veneri (PT-PR), em entrevista ao Jornal TVT News Primeira Edição, o dia carrega um duplo significado. “É um dia que nos envergonha e entristece, mas também um dia que nos põe à marcha. A democracia não se defende sozinha. Não basta dizer que somos uma democracia se não trabalhamos permanentemente para defendê-la”, afirmou. Segundo ele, a derrota do golpe foi uma conquista histórica do povo brasileiro e das instituições, e não de um líder individual. “Isso não é a força do Lula, é a nossa força, a força do povo que impôs uma derrota inédita ao fascismo.”

Veneri destacou que o 8 de Janeiro não foi um episódio isolado, mas o ápice de uma sequência de tentativas de ruptura institucional, com acampamentos em quartéis, conivência de setores militares, participação de empresários e articulações políticas. “Começou muito antes, com manifestações golpistas e atos preparatórios. Houve tentativa de invasão da Polícia Federal no dia da diplomação do presidente Lula e a tentativa de explosão de um caminhão de combustível no aeroporto de Brasília. Nada disso é novidade na história da extrema direita”, ressaltou, ao traçar paralelos com estratégias usadas em décadas passadas no Brasil e no mundo.

Para o parlamentar, embora haja condenações importantes — incluindo generais e figuras centrais do bolsonarismo —, ainda falta alcançar os financiadores internos e externos do golpe. “É preciso punir sem condescendência não apenas quem executou o vandalismo, mas quem pensou, planejou e financiou o golpe. Caso contrário, repetimos o erro histórico de responsabilizar apenas quem colocou a mão na massa”, afirmou, citando exemplos de massacres e rupturas democráticas ao longo do século XX.

O veto presidencial ao PL da Dosimetria foi apontado por Veneri como um gesto de enorme peso político e simbólico. “Essa proposta é um passa-pano, uma tentativa de normalizar um ‘golpe light’. Não existe golpe leve. O veto do presidente Lula marca a fogo a história da democracia brasileira e reafirma o compromisso com as instituições”, disse. Para ele, a aprovação do projeto no Congresso expõe o caráter conservador e regressivo da atual legislatura.

Ao analisar o Parlamento, o deputado foi direto ao classificá-lo como resultado de um processo prolongado de captura por interesses empresariais e grupos de pressão. “Temos um Congresso refratário às reivindicações da maioria da população. Discutimos redução de direitos, emendas parlamentares bilionárias, retrocessos ambientais e sociais. Os poucos avanços são fruto da pressão popular e da iniciativa do Executivo”, avaliou. Segundo Veneri, a crise de representação ajuda a explicar por que setores da sociedade foram mobilizados para atos antidemocráticos. “A maioria não se vê representada, e isso abre espaço para discursos demagógicos e autoritários.”

O deputado também relacionou o 8 de Janeiro brasileiro ao cenário internacional, especialmente à ofensiva da extrema direita global e à política externa dos Estados Unidos. Para ele, a impunidade de Donald Trump após a invasão do Capitólio teve efeitos diretos no fortalecimento de projetos autoritários, inclusive na América Latina. “Se Trump tivesse sido punido como Bolsonaro foi, talvez o mundo estivesse em situação melhor. O que vemos hoje é a substituição da diplomacia pela violência”, alertou.

Por fim, Veneri enfatizou que a defesa da democracia é uma tarefa histórica que vai além de partidos. “É fundamental que as novas gerações compreendam que democracia não é um valor relativo, é absoluto. Ou nós temos, ou não temos”, afirmou. Três anos depois do ataque aos Três Poderes, o 8 de Janeiro reafirma que a democracia brasileira sobreviveu — mas segue exigindo vigilância, memória e mobilização permanente.

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