Os países da União Europeia aprovaram provisoriamente, nesta sexta-feira (9), o acordo comercial com o Mercosul, encerrando uma etapa decisiva de um processo que se arrasta desde 1999. A informação foi confirmada por diplomatas europeus ouvidos pelas agências France Presse (AFP) e Reuters e também pela Agência Brasil. A formalização da decisão ainda depende do envio das confirmações por escrito dos Estados-membros até as 17h (horário de Bruxelas), mas a sinalização política já abre caminho para a assinatura do tratado. Entenda na TVT News.
Com o aval preliminar do bloco, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, poderá assinar oficialmente o acordo na próxima segunda-feira (12), durante agenda no Paraguai. Caso seja ratificado, o tratado criará a maior área de livre comércio do mundo, reunindo a União Europeia e os países do Mercosul — Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai.
Para o Brasil, maior economia do bloco sul-americano, o acordo representa a ampliação do acesso a um mercado de cerca de 451 milhões de consumidores. Os impactos vão além do agronegócio, alcançando também setores industriais e cadeias produtivas estratégicas, com potencial de aumento das exportações e diversificação comercial.
Maioria qualificada e resistências ao acordo
Segundo a AFP, a aprovação ocorreu em reunião de embaixadores da União Europeia em Bruxelas, com o apoio da maioria dos 27 Estados-membros. Para que o acordo avançasse, era necessário o voto favorável de pelo menos 15 países que, juntos, representassem 65% da população do bloco — critério que teria sido atingido apesar da oposição de governos influentes.
França e Irlanda lideraram o grupo de países contrários ao acordo, acompanhadas por Hungria e Polônia. A resistência está concentrada, sobretudo, no setor agrícola, que teme concorrência com produtos do Mercosul considerados mais baratos e submetidos a padrões ambientais e sanitários diferentes dos exigidos na União Europeia.
Na véspera da votação, o presidente francês, Emmanuel Macron, reafirmou publicamente a posição contrária de Paris. Em comunicado, afirmou que, embora a diversificação comercial seja necessária, os benefícios econômicos do acordo UE-Mercosul seriam “limitados” para o crescimento francês e europeu.
Na Irlanda, o primeiro-ministro Simon Harris também anunciou voto contrário. “A posição do governo sobre o Mercosul sempre foi clara: não apoiamos o acordo da forma como foi apresentado”, declarou.
Itália destrava negociação
O avanço do acordo foi impulsionado, nos últimos dias, pela sinalização de apoio da Itália, considerada decisiva para a formação da maioria qualificada. A expectativa em torno da posição italiana ganhou força após indicações de que Roma votaria favoravelmente na reunião dos embaixadores da UE.
O governo da primeira-ministra Giorgia Meloni vinha condicionando o apoio ao atendimento de demandas do setor agrícola. Em dezembro, durante debates no Conselho Europeu, Meloni afirmou que qualquer aval italiano dependeria de garantias concretas aos produtores rurais.
Nesse contexto, a Comissão Europeia enviou recentemente uma comunicação propondo acelerar a liberação de 45 bilhões de euros destinados aos agricultores europeus. A iniciativa foi classificada por Meloni como um “passo positivo e significativo”. Na mesma linha, o ministro da Agricultura da Itália, Francesco Lollobrigida, destacou que a União Europeia passou a discutir o aumento — e não a redução — dos recursos para a agricultura no período de 2028 a 2034.
Próximos passos
Com a aprovação provisória, o acordo entra em sua fase final dentro da União Europeia, que ainda envolve procedimentos formais e debates políticos nos Estados-membros. Apesar das resistências persistentes, o resultado desta sexta-feira representa o avanço mais significativo em mais de duas décadas de negociações e recoloca o tratado UE-Mercosul no centro da agenda econômica e geopolítica internacional.
