Brasil registra queda no número de mortes violentas pelo 5º ano seguido

Dados oficiais mostram redução contínua de homicídios em 2025, mas feminicídios alcançam novo recorde e acendem alerta sobre violência de gênero
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Dados do Ministério da Justiça apontam 34.086 mortes violentas no país no ano passado. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

O Brasil registrou, pelo quinto ano consecutivo, queda no número absoluto de mortes violentas intencionais em 2025, consolidando uma tendência que se mantém desde 2021. Os dados compilados pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) e enviados pelas secretarias estaduais de Segurança Pública apontam um total de 34.086 mortes violentas no país no ano passado, uma redução de 11% em relação aos 38.374 casos registrados em 2024. O cálculo inclui homicídios dolosos, latrocínios, lesões corporais seguidas de morte e feminicídios, e representa uma taxa nacional de aproximadamente 16 mortes por 100 mil habitantes no ano passado, contra cerca de 18 por 100 mil em 2024. Leia em TVT News.

Queda geral, mas disparidades regionais

A diminuição das mortes violentas foi verificada em 21 das 27 unidades federativas, com destaque para reduções expressivas em estados como Amazonas (queda de 33%), Mato Grosso do Sul (-28%) e Paraná e Rio Grande do Sul (ambos com recuo de 24%).

Por regiões, todas registraram queda em 2025:

  • Sul: de 3.935 para 3.055 mortes (-22%)
  • Centro-Oeste: de 2.682 para 2.204 mortes (-18%)
  • Norte: de 4.304 para 3.829 mortes (-11%)
  • Nordeste: de 17.052 para 15.412 mortes (-10%)
  • Sudeste: de 10.401 para 9.586 mortes (-8%)

Mesmo com o recuo nacional, os números absolutos ainda revelam desigualdades profundas no país. Em 2025, os estados com maior número de mortes violentas foram Bahia (3.900), Rio de Janeiro (3.581) e Pernambuco (3.023), enquanto unidades como Acre (204) e Roraima (139) registraram os menores totais.

Quando consideradas as taxas por 100 mil habitantes — indicador essencial para comparações entre estados — as diferenças também são acentuadas: Ceará (32,6/100 mil), Pernambuco (31,6/100 mil) e Alagoas (29,4/100 mil) lideram com as maiores taxas, enquanto São Paulo (5,4/100 mil), Santa Catarina (6,4/100 mil) e o Distrito Federal (8,8/100 mil) apresentam as menores.

Feminicídio em alta e recorde histórico

No contraponto ao recuo geral da violência letal, os feminicídios bateram novo recorde em 2025, segundo os dados oficiais. Foram 1.470 casos de feminicídio no ano passado, superando os 1.464 registrados em 2024, que até então representavam a maior marca desde a tipificação do crime em 2015. Esse número equivale a pelo menos quatro mulheres assassinadas por dia em 2025.

Mesmo sem os dados de dezembro de São Paulo e Paraíba na base federal, São Paulo lidera o ranking de feminicídios com 233 casos, seguida por Minas Gerais (139) e Rio de Janeiro (104) entre os estados que já informaram seus dados completos.

A trajetória dos feminicídios no Brasil nos últimos dez anos ilustra uma escalada preocupante: em 2015, ano que marca a criação da tipificação penal específica, foram registrados 535 casos, o que representa um aumento de 316% até 2025.

Interpretações e contexto

A manutenção da tendência de queda nos homicídios nacionais tem sido associada a diferentes fatores, como mudanças na dinâmica das facções criminosas, com menor intensidade de confrontos territoriais em algumas regiões, além de políticas de segurança pública que privilegiaram ações integradas e uso de tecnologia. Especialistas também apontam variações demográficas e alcoólicas, bem como questões socioeconômicas que influenciam esses indicadores.

Contudo, a redução de homicídios não tem beneficiado igualmente todos os grupos sociais. Estudos anteriores e séries históricas do Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostram que vítimas jovens, negras e de áreas periféricas continuam com taxas de mortalidade violentas desproporcionalmente elevadas. Além disso, feminicídios — por sua natureza e contexto de ocorrência — não seguem a tendência geral de queda, o que indica que políticas públicas de enfrentamento da violência de gênero ainda não alcançam eficácia suficiente para reverter essa curva ascendente.

Limites e desafios

A própria incompletude dos dados — como a ausência de dezembro de unidades federativas como São Paulo e Paraíba — aponta para desafios na consolidação das estatísticas nacionais. Ainda assim, mesmo considerando projeções com médias mensais para esses estados, a redução conjunta de homicídios permaneceria em torno de 10,4% em 2025.

Apesar da queda geral de homicídios, a situação dos feminicídios configura um dos principais desafios de direitos humanos e segurança pública no país. O aumento constante desses crimes evidencia a necessidade de políticas intersetoriais robustas, que envolvam não apenas forças policiais, mas também redes de proteção social, serviços de atendimento à mulher e ações preventivas para enfrentar a violência de gênero de forma estruturada.

A leitura dos dados de 2025 deixa claro que, embora o Brasil tenha feito progressos na redução de mortes violentas, a violência contra as mulheres continua numa trajetória ascendente e representa um dos maiores desafios contemporâneos para a política de segurança e direitos humanos no país.

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