A ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda e o desconto progressivo para salários de até R$ 7.350 não representam apenas mais dinheiro no bolso ao fim do mês. Para especialistas em finanças, a mudança cria uma janela rara para que trabalhadores transformem um alívio imediato no orçamento em segurança financeira de longo prazo, desde que o recurso extra seja tratado com planejamento e disciplina. Leia em TVT News.
Como investir com a economia da isenção do imposto de renda
Na prática, valores que antes eram retidos na fonte passam a permanecer no orçamento familiar todos os meses. O desafio, segundo os especialistas, é evitar que esse dinheiro “desapareça” no consumo cotidiano e direcioná-lo para decisões financeiras que preservem poder de compra e construam patrimônio.
Para a especialista em finanças e investimentos Milene Dellatore, diretora da MIDE Mesa Proprietária, o ponto de partida é simples e muitas vezes ignorado. “Ganhar mais não adianta nada se esse dinheiro for mal investido”, afirma. Segundo ela, o maior erro de quem começa a investir não é perder dinheiro na Bolsa, mas “perder dinheiro por falta de conhecimento, acreditando em milagres, promessas fáceis ou deixando o dinheiro parado em opções ruins”.
Na avaliação de Milene, antes de pensar em retorno elevado, o objetivo central deve ser não perder poder de compra. Nesse sentido, ela aponta o Tesouro Direto como a porta de entrada mais segura para quem nunca investiu. “Na prática, o trabalhador empresta dinheiro para o governo e recebe juros por isso. É um investimento considerado muito seguro, porque é garantido pelo próprio governo federal”, explica.
Entre as opções, o Tesouro Selic é indicado para quem precisa de liquidez e segurança, o Tesouro IPCA protege contra a inflação e o Tesouro Prefixado oferece previsibilidade de rendimento. Mesmo com a cobrança de Imposto de Renda sobre os ganhos, Milene ressalta que “o rendimento costuma ser bem melhor do que o da poupança”.
A poupança, aliás, aparece como vilã recorrente nas análises. “Ela rende pouco e, muitas vezes, perde para a inflação, fazendo o trabalhador achar que está ganhando, quando na prática está perdendo poder de compra”, diz Milene. Para ela, a poupança pode até servir em situações muito específicas, mas não deveria ser a escolha principal.
Outra alternativa destacada é o CDB (Certificado de Depósito Bancário). “Quando você investe em um CDB, está emprestando dinheiro para um banco, que te devolve esse valor com juros”, explica. Entre as vantagens estão a rentabilidade superior à poupança, a possibilidade de liquidez diária e a proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para valores de até R$ 250 mil por instituição.
Antes de investir a isenção do IR
O economista e educador financeiro Leonardo Baldez Augusto chama atenção para um passo anterior ao investimento: a eliminação de dívidas caras. “Para quem está endividado, o melhor investimento possível costuma ser pagar dívidas com juros elevados, como cartão de crédito, cheque especial e empréstimos pessoais”, afirma. Segundo ele, quitar esse tipo de dívida gera um retorno imediato, equivalente aos juros que deixam de ser pagos, além de aliviar o fluxo de caixa e o estresse financeiro.

Sem dívidas, Leonardo recomenda transformar o valor extra da isenção em poupança estruturada. “Vale a regra de ouro: pague primeiro o investimento, não o que sobra no fim do mês”, diz. Para ele, criar o hábito de investir regularmente aumenta as chances de consistência no longo prazo.
O passo seguinte é a reserva de emergência, equivalente a três a seis meses de despesas essenciais, aplicada em produtos de baixo risco e alta liquidez. “O Brasil oferece uma vantagem relevante nesse ponto: uma das taxas de juros reais mais altas do mundo”, destaca. Isso permite preservar poder de compra sem exposição excessiva à volatilidade.
Já para objetivos maiores, como compra de carro ou imóvel, Leonardo aponta o consórcio como alternativa ao crédito caro. “Ele incentiva o hábito de poupar, não cobra juros e permite aquisição de patrimônio sem comprometer o orçamento com financiamentos onerosos”, explica.
Imposto de renda vira investimento
O mentor financonômico Anibal Teixeira reforça que o erro mais comum é tratar o dinheiro extra como algo invisível. “Some no café, no delivery, na assinatura que ninguém lembra que tem”, alerta. Para ele, valores em torno de R$ 215 por mês, comuns com a ampliação da isenção, podem parecer pequenos, mas fazem enorme diferença quando bem direcionados. “Quem investe todo mês está fazendo algo que 90% das pessoas não fazem: pensando no futuro com método”, afirma.
Anibal destaca o Tesouro Direto como o “arroz com feijão bem feito” dos investimentos e lembra que educação financeira também é um ativo. “Um trabalhador que entende minimamente de juros, inflação e risco toma decisões melhores pelo resto da vida”, diz. “Investir em conhecimento aumenta o retorno de todos os outros investimentos.”
O cenário macroeconômico também exige atenção. Segundo Giuseppe Moro, coordenador de investimentos do Bari, a renda fixa segue extremamente atrativa em 2026, impulsionada por juros elevados e prêmio real robusto. “O Brasil ocupa as primeiras posições do ranking global de juros reais, com uma taxa estimada de 9,74% ao ano”, afirma. No entanto, ele alerta que esse retorno elevado reflete fragilidades fiscais e tende a vir acompanhado de volatilidade, especialmente em ano eleitoral.

Diante desse contexto, Moro recomenda prudência. “Privilegiar títulos pós-fixados, investir em papéis indexados ao IPCA com prazos intermediários e evitar prefixados muito longos pode ser uma estratégia adequada”, afirma. Para ele, disciplina e leitura do cenário macroeconômico serão decisivas.
Em comum, todas as análises apontam para a mesma conclusão: a isenção do Imposto de Renda não deve ser encarada apenas como convite ao consumo imediato, mas como oportunidade concreta de reorganizar a vida financeira. Quem usa esse recurso com estratégia ganha mais do que dinheiro no bolso — ganha autonomia, tranquilidade e futuro.

