O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, não descartou a possibilidade de que canetas emagrecedoras — medicamentos injetáveis atualmente no centro de debate público — possam, em algum momento, ser incorporadas ao Sistema Único de Saúde (SUS), desde que cumpram critérios técnicos e científicos rigorosos. A declaração foi feita nesta quarta-feira (28), em agenda oficial no Rio de Janeiro, durante a apresentação dos novos dados do Vigitel, a pesquisa do Ministério da Saúde que monitora fatores de risco à saúde no Brasil ao longo das capitais e do Distrito Federal. Leia em TVT News.
Os números apresentados revelam um quadro preocupante de saúde pública: entre 2006 e 2024, o percentual de adultos brasileiros com diabetes subiu de 5,5% para 12,9%, um aumento de 135% em 18 anos. Nesse mesmo intervalo, a prevalência de obesidade cresceu 118%, enquanto o índice de excesso de peso saltou de 42,6% para 62,6% da população adulta.
“Tudo que tiver evidências científicas que vão se consolidando, existe uma Comissão Nacional de Incorporação, que é a Conitec, que analisa essa evidência. Se tiver evidência científica, mostrar que um determinado produto tem benefícios para a população, o SUS pode incorporar”, afirmou Padilha ao ser questionado sobre a possibilidade de inclusão desses medicamentos no sistema público de saúde.
Essa posição reafirma que não há, neste momento, uma decisão definitiva pela incorporação das chamadas canetas emagrecedoras ao SUS, mas que o caminho técnico passa por avaliação de eficácia, segurança e custo-efetividade, critérios centrais para a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec).
Obesidade, diabetes e hábitos de vida
O Vigitel 2025, divulgado pelo Ministério da Saúde, mostra uma contínua piora dos indicadores relacionados a doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs) — diabetes, hipertensão, obesidade e excesso de peso — associadas a fatores como alimentação inadequada, redução de atividade física e padrões de vida urbanos.
Segundo os dados, a hipertensão arterial em adultos subiu 31% no mesmo período, reforçando a magnitude do desafio de saúde pública.
O diagnóstico médico de diabetes, em particular, apresentou um crescimento acentuado — de 5,5% em 2006 para 12,9% em 2024 — o que representa mais do que o dobro da prevalência anterior.
Esses índices têm lugar em um contexto de mudança nos comportamentos de vida: a prática de atividade física no deslocamento caiu de 17% em 2009 para apenas 11,3% em 2024, reflexo da maior utilização de transporte motorizado.
Paralelamente, embora o consumo regular de frutas e hortaliças tenha permanecido relativamente estável ao longo dos anos, caiu o consumo de refrigerantes e sucos artificiais entre os brasileiros, o que, segundo o ministério, pode indicar alguma mudança de padrão alimentar.
Desafios da incorporação das canetas emagrecedoras
Padilha procurou relativizar o debate sobre as canetas emagrecedoras, destacando que sua potencial incorporação ao SUS não é automática nem garantida, mas condicionada aos critérios científicos e regulatórios:
“Tudo que tiver evidências científicas, o SUS pode incorporar”, reiterou o ministro, referindo-se à análise da Conitec como requisito central para qualquer inclusão de tecnologia terapêutica no sistema público.
Essa posição está em consonância com a prática regulatória do SUS, que exige comprovação robusta de eficácia e segurança, especialmente para medicamentos cuja indicação original é outra (como é o caso de fármacos originalmente voltados ao tratamento de diabetes, mas que passaram a ser usados também para redução de peso).
O debate em torno das canetas emagrecedoras também envolve questões de custo e sustentabilidade financeira. Relatórios anteriores da própria Conitec indicaram que a incorporação de agonistas de GLP-1, substâncias presentes em muitos desses medicamentos, teria alto impacto financeiro para o SUS se adotados em larga escala, o que foi motivo de rejeição prévia.
Além das avaliações sobre medicamentos, o ministro Padilha destacou que o enfrentamento da obesidade e das doenças crônicas no Brasil não pode se limitar à clínica isolada — deve, ao contrário, incluir políticas públicas firmes de promoção da saúde, prevenção e educação em alimentação e atividade física.
Em meio à apresentação dos dados do Vigitel, ele ressaltou a importância de políticas que incentivem modos de vida saudáveis e combinem ações comunitárias e de atenção primária à saúde, como parte de uma estratégia abrangente.
Esse discurso reflete um entendimento de que o combate à obesidade e à diabetes no Brasil exige ação integrada de múltiplos vetores, desde mudanças comportamentais até o fortalecimento do SUS em todos os níveis de atenção.

