Escola cívico-militar: além de obrigar a bater continência, ainda ensina errado

Reportagem da TV Vanguarda mostra militar escrevendo “descançar” e “continêcia” no quadro de uma escola estadual
escola-civico-militar-alem-de-obrigar-a-bater-continencia-ainda-ensina-errado-tvt-news
Reprodução reportagem TV Vanguarda / G1 Vale do Paraíba. No detalhe, as palavras com erros grosseios escritas na lousa.

A volta às aulas nas escolas cívico-militares tem comandos de ordem unida, típicos do ambiente militar, com erros básicos de Língua Portuguesa, em Caçapava, interior de São Paulo. Leia em TVT News.

Decançar ou descansar: monitor militar ensina errado para alunos de escola do governo Tarcísio de Freitas

Alunos da Escola Estadual Prof. Luciana Damas Bezerra, em Caçapava, no Vale do Paraíba (SP), que aderiu ao modelo cívico-militar tiveram de ver um tenente ensinar “ordem unida” com erros grosseios de Língua Portugeusa. Os erros foram flagrados pela reportagem da TV Vanguarda, afiliada da Rede Globo na região.

A reportagem mostrou uma monitoria para “ensinar” ordem unida, um comando típico do ambiente militar. A monitoria foi realizada por policiais militares aposentados que escreveram palavras como “descançar” e “continêcia” na lousa da sala.

Aparentemente, o tenente aposentado não sabia, mas descansar não se escreve com “ç”, o correto é com “s” na última sílaba. E continência, tem a letra “n” antes da letra “c”.

escola-civico-militar-alem-de-obrigar-a-bater-continencia-ainda-ensina-errado-tvt-news
No dicionário da Academia Brasileira de Letras decansar se grafa com S.

escola-civico-militar-alem-de-obrigar-a-bater-continencia-ainda-ensina-errado-tvt-news
Para o tenente ficar atento: continência tem N antes do C como mostra o dicionário da ABL

Militar foi alertado do erro, mas demorou para descobrir

A reportagem da TV Vanguarda mostrou que, depois de algum tempo, o militar, tenente Jeferson, que escrevia no quadro, foi até a porta e alguém conversou com ele. O tenente olhou o quadro, voltou e foi até uma mulher, dentro da sala. Os dois conversaram e ele arrumou a palavra descansar. Mas continência continuava errada. Em seguida, o militar voltou até a mulher e corrigiu também a palavra continência.

O que disse a Secretaria de Educação do Estado

Em Nota a Secretaria de Educação disse que “todo o conteúdo pedagógico é elaborado e aplicado pelos docentes da escola e, neste início de implementação, os monitores estão passando orientações sobre as atividades de disciplina e promoção de valores cívicos”. Disse que os monitores serão avaliados, mas não admitiu o vexame.

tarcisio-escolas-civico-militares-nao-poderao-contratar-policiais-aposentados-governo-tarcisio-nao-ia-fazer-concurso-para-implementar-escolas-civico-militar-foto-fernando-frazao-agencia-brasil-tvt-news-civico-militar
Escolas do Governo Tarcísio de Fretas: erros de língua portugesa logo no primeiro dia. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Lugar de militar não é na escola, diz Apeoesp

Em nota para comentar o caso, a professora Bebel, Deputada Estadual (PT-SP) e primeira presidenta do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), lamentou que militares estejam em um ambiente que não é o deles.

A professora Bebel também lembrou que, há tempos, a Apeoesp alerta sobre os riscos do modelo cívico-militar. “É uma tragédia”, lamentou a professora. “Não se trata apenas de grafar palavras com erro, escolas cívico-militares são inconstitucionais. Lugar de militar não é nas escolas. Quem ensina são os professores”, completa Bebel.

Leia a nota completa da Apeoesp

Alertamos muitas vezes e continuamos alertando: escolas cívico-militares destroem a educação.

Lugar de militar não é nas escolas. Quem ensina são os professores.

Vejam só que tragédia. No primeiro dia de aula de escola cívico-militar em Caçapava, militares escrevem na lousa “descançar” e “continêcia”.

Não se trata apenas de palavras grafadas com erro. Escolas cívico-militares são inconstitucionais. A Constituição Federal não prevê esse tipo de instituição, tampouco a LDB. Menos ainda com verbas da Educação pública.

Lembremos que o governador Tarcísio de Freitas cortou o equivalente a R$ 11 bilhões da Educação, em valores de 2025. E desvia outros milhões para escolas cívico-militares, empregando militares que acumularão seus proventos com gratificação, cujo valor supera o salário de uma professora ou professor.

Esse programa ilegal está pautado no Supremo Tribunal Federal. Já havíamos conquistado liminar no Tribunal de Justiça de São Paulo, que foi suspensa em função da ADIN que tramita no STF.

Civismo não é sinônimo de militarização. Civismo é diferente de militarismo. Militarização é coerção, Educação é conhecimento, é persuasão. Militarização não combina com Educação. Nós formamos cidadãos, isto é civismo. Não queremos estudantes amordaçados

Vamos combater até o fim esse projeto criminoso de Tarcísio de Freitas.

Professora Bebel, Deputada Estadual (PT-SP) e primeira presidenta da Apeoesp

Assuntos Relacionados