Pela primeira vez, quase metade dos convocados na primeira chamada do vestibular Unicamp 2026 vem de escolas estaduais e municipais: 49,5% dos 3.600 aprovados, o equivalente a 1.781 estudantes. No ano passado, esse índice era de 46%. Saiba os detalhes na TVT News.
Os dados, divulgados pela Comissão Permanente para os Vestibulares (Comvest), indicam um fortalecimento das políticas de inclusão social e da diversidade no campus, resultado da combinação de diferentes formas de ingresso, como o vestibular tradicional, o Enem-Unicamp, o ProFis, o Vestibular Indígena e as Vagas Olímpicas.
Escola pública ganha espaço
O crescimento da participação de alunos da rede pública é considerado o principal marco desta edição. Segundo o diretor da Comvest, José Alves de Freitas Neto, o avanço ainda está abaixo do potencial, já que cerca de 85% dos estudantes do ensino médio brasileiro vêm da escola pública, mas representa uma tendência consistente de ampliação do acesso.
A estratégia da universidade tem sido diversificar as portas de entrada e aproximar o vestibular da realidade desses estudantes, reduzindo desigualdades históricas.
Mais diversidade étnico-racial e cotas trans
A presença de candidatos pretos, pardos e indígenas (PPI) também cresceu levemente, passando de 35,4% para 35,7% dos convocados, totalizando 1.285 estudantes.
Outra novidade histórica é a implementação das cotas para pessoas trans, aprovadas pelo Conselho Universitário e aplicadas na modalidade Enem-Unicamp. Já na primeira chamada, 61 candidatos trans garantiram vaga em diferentes cursos, tanto vindos de escolas públicas quanto privadas.
A medida coloca a Unicamp entre as primeiras universidades do país a adotar esse tipo de política afirmativa.
Perfil socioeconômico
Os indicadores sociais mostram estabilidade no perfil de vulnerabilidade dos aprovados. Estudantes com renda familiar de até cinco salários mínimos representam 37,7% do total (1.358 pessoas). Já os candidatos isentos da taxa de inscrição, grupo com maior fragilidade econômica, somam 12% dos convocados, percentual próximo ao do ano anterior.
As mulheres correspondem a 45,7% dos aprovados, enquanto estudantes de outros estados representam 14,7% das vagas.
Preparação desde o ensino médio
A universidade também investe em ações de aproximação com a rede pública. Um dos exemplos é o projeto Cria Unicamp, que oferece aulas e palestras gratuitas aos sábados para alunos do ensino médio da região de Campinas, Limeira e Piracicaba, além de transmissões online.
Os números se traduzem em trajetórias de superação. Wesley Cassimiro, aprovado em Medicina, cresceu na periferia de São Paulo e destaca que políticas como o Programa de Ação Afirmativa e Inclusão Social (PAAIS) e os auxílios de permanência foram decisivos para que pudesse disputar a vaga em condições mais justas.
“A aprovação representa uma superação pessoal muito significativa. Ser um homem negro, vindo de um lugar periférico e sempre dependente do esforço pessoal para atingir objetivos maiores na vida é uma coisa muito difícil e conquistar essa vaga na Unicamp me torna um ilustre exemplo de que a educação sempre vence”, afirmou Wesley.
Para a pró-reitora de Graduação, Mônica Cotta, ampliar a diversidade é também fortalecer a produção de conhecimento. Já o diretor da Comvest, José Alves de Freitas Neto, defende que a convivência entre diferentes origens sociais é fundamental para reduzir desigualdades e estimular o diálogo dentro da universidade.
“Pelo vestibular, que é a principal forma de ingresso na Unicamp, nota-se que há o acesso de todos os públicos, sejam oriundos de escolas públicas ou privadas. O desenho para o qual o ingresso tem apontado é a convivência dos estudantes de vários perfis no interior da Unicamp. Não há possibilidade de sairmos de uma sociedade altamente polarizada, como a atual, se não for pelo respeito e pelo diálogo entre os diferentes. Nesse sentido, a Unicamp permite, por meio dos seus sistemas de acesso, que tenhamos uma universidade mais diversa e mais complexa e por isso mais enriquecedora para a produção de novos conhecimentos”, reforçou Freitas Neto.
Com quase metade das vagas ocupadas por egressos da rede pública, novas cotas sociais e múltiplas formas de ingresso, o processo seletivo de 2026 demonstra que a Unicamp quer continuar sendo uma instituição com mais representatividade. O desafio agora, segundo a gestão, é manter e ampliar esse movimento, garantindo não apenas o acesso, mas também a permanência dos estudantes no ensino superior.

