A divulgação de milhões de páginas ligadas aos chamados arquivos Epstein voltou a sacudir o cenário político e econômico internacional ao escancarar, mais uma vez, a relação entre poder, dinheiro e crimes sexuais. Os documentos, reunidos a partir de processos judiciais, depoimentos de vítimas, registros de viagens e investigações conduzidas ao longo de décadas, apontam o envolvimento de figuras influentes do mundo dos negócios, da política e da realeza em torno do financista Jeffrey Epstein, acusado de comandar uma vasta rede de exploração sexual de meninas adolescentes. Leia em TVT News.
No centro das revelações mais recentes está o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Segundo os documentos e denúncias retomadas pela imprensa internacional, Trump é citado em milhares de arquivos e é alvo de uma acusação específica de estupro de uma adolescente de 13 ou 14 anos, ocorrido há cerca de três décadas, em uma festa organizada por Epstein. A denúncia foi apresentada judicialmente em 2016 por uma mulher que afirmou ter sido violentada quando ainda era menor de idade, em um encontro que teria contado com a presença de Epstein e Trump. O processo acabou retirado posteriormente, mas os relatos voltaram a ganhar força com a abertura e sistematização dos arquivos.
De acordo com os documentos, a vítima relatou ter sido levada à força, ameaçada e submetida a abuso sexual, em um contexto marcado pelo poder econômico e pela intimidação. Embora Trump negue as acusações, os arquivos indicam que ele manteve contato frequente com Epstein nos anos 1990, período em que ambos circulavam nos mesmos ambientes de luxo e festas privadas na Flórida e em Nova York.
Constrangido pela repercussão internacional das novas revelações, Trump declarou recentemente que este seria o momento de “virar a página” e deixar as investigações do caso Epstein de lado. A fala provocou reação imediata de organizações de direitos humanos, juristas e movimentos de defesa das vítimas de violência sexual, que apontam tentativa de esvaziar o debate público e impedir o aprofundamento das apurações. Para críticos, o pedido de Trump reforça a percepção de que figuras poderosas seguem tentando escapar da responsabilização por crimes graves.
Os arquivos também expõem a dimensão sistêmica do escândalo. Epstein, que morreu em 2019 em uma prisão de Nova York em circunstâncias oficialmente tratadas como suicídio, construiu uma rede de proteção baseada em influência política, recursos financeiros e chantagem. Durante anos, ele teve acesso privilegiado a jovens vulneráveis, muitas delas menores de idade, que eram aliciadas, abusadas e, em alguns casos, levadas a encontros com homens poderosos.
Entre os nomes citados nos documentos está o do bilionário Bill Gates. O fundador da Microsoft teve encontros registrados com Epstein após já ser público o histórico criminal do financista. Gates afirmou que os contatos estavam ligados a discussões filantrópicas e reconheceu que foi um “erro de julgamento” manter qualquer relação com Epstein. Ainda assim, os arquivos indicam que os encontros ocorreram em residências de Epstein e levantam questionamentos sobre a real natureza dessas interações.
Outro nome de peso é o de Elon Musk, dono da Tesla, da SpaceX e da rede social X. Musk aparece citado nos arquivos como alguém que teria sido mencionado em círculos próximos a Epstein. Até o momento, não há acusações formais de abuso sexual contra o empresário, mas a simples menção reforça o alcance da rede de contatos do financista e reacende o debate sobre a proximidade entre grandes fortunas e estruturas de impunidade.
O príncipe Andrew, membro da família real britânica, é um dos casos mais emblemáticos já conhecidos do escândalo Epstein. Amigo próximo do financista, Andrew foi acusado por Virginia Giuffre de abuso sexual quando ela era adolescente. Em 2022, o príncipe chegou a um acordo milionário para encerrar o processo civil, sem admitir culpa. O caso resultou em sua retirada de funções oficiais e em um desgaste profundo da monarquia britânica.
As revelações também atingem outros países e mostram como a rede de Epstein ultrapassava fronteiras. Documentos citam viagens internacionais, contas bancárias e conexões com empresários e autoridades de diversas nacionalidades, incluindo referências ao Brasil. Especialistas apontam que a complexidade e o volume do material explicam por que, mesmo anos após a morte de Epstein, o caso continua longe de ser totalmente esclarecido.
Para organizações que acompanham o tema, o escândalo evidencia a dificuldade histórica de responsabilizar membros da elite econômica e política por crimes sexuais. Apesar da gravidade das denúncias, poucos dos homens citados nos arquivos enfrentaram consequências judiciais proporcionais. As vítimas, por outro lado, seguem lutando por reconhecimento, reparação e justiça.
O novo capítulo dos arquivos Epstein reforça que o caso não se resume a um indivíduo, mas revela um sistema de abuso sustentado por poder, silêncio e impunidade. Ao pedir para “virar a página”, Trump se soma a uma longa lista de poderosos que tentam encerrar o debate sem que todas as perguntas tenham sido respondidas. Para defensores dos direitos humanos, no entanto, a página só poderá ser virada quando houver investigação profunda, transparência e responsabilização de todos os envolvidos, independentemente de sua posição ou fortuna.
