Ramadã, Ano Novo Lunar e Quaresma em 2026 começam em sincronia e reúnem bilhões

Muçulmanos, católicos e chineses (maioria ateus) somam mais de 4,5 bilhões. Eles estão unidos pela data de 2026. Entenda
O mês sagrado do Islã em 2026 teve início oficialmente nesta quarta-feira (18) na Arábia Saudita e em outros países do Golfo após os comitês de observação da lua confirmarem o avistamento do crescente. Foto: Wikicommons
O mês sagrado do Islã em 2026 teve início oficialmente nesta quarta-feira (18) na Arábia Saudita e em outros países do Golfo após os comitês de observação da lua confirmarem o avistamento do crescente. Foto: Wikicommons

Entre terça-feira e quarta (18) de fevereiro de 2026, o calendário global registra uma convergência rara: o início do Ramadã para milhões de muçulmanos em parte do mundo, a celebração do Ano Novo Chinês,o Ano do Cavalo de Fogo, e o começo da Quaresma católica. Mais de metade da humanidade entrou, no mesmo dia, em algum tipo de rito de transição. Entenda na TVT News.

Três tradições religiosas e culturais distintas, baseadas em sistemas calendáricos diferentes, lunar islâmico, lunissolar chinês e solar cristão, cruzam-se simbolicamente na mesma data.

Ao todo, trata-se de um fenômeno que mobiliza mais da metade da população mundial: cerca de 1,9 bilhão de muçulmanos, aproximadamente 1,4 bilhão de chineses e integrantes da diáspora que celebram o Ano Novo Lunar, e mais de 1,3 bilhão de católicos ao redor do planeta.

Ramadã no mundo islâmico

O mês sagrado do Islã em 2026 teve início oficialmente nesta quarta-feira (18) na Arábia Saudita e em outros países do Golfo após os comitês de observação da lua confirmarem o avistamento do crescente na noite de terça-feira (17).

O Ramadã é determinado pelo calendário lunar islâmico (Hijri). O novo mês começa com o avistamento do fino crescente após o pôr do sol do 29º dia de Shaaban. Para que seja visível a olho nu, astrônomos oficiais dos países islâmicos observam três fatores principais:

  • Elongação: distância angular mínima de 10° a 12° em relação ao Sol;
  • Altitude: cerca de 10° acima do horizonte no pôr do sol;
  • Tempo de defasagem (lag time): ao menos 45 minutos entre o pôr do sol e o ocaso lunar.

Segundo o monitor Crescent Moon Watch, ligado ao Nautical Almanac Office do Reino Unido, a “lua nova astronômica” ocorreu em 17 de fevereiro às 15h01 no horário de Meca. Ainda assim, há divergências regionais.

Na América do Norte, entidades como o Fiqh Council of North America (FCNA) e a Islamic Society of North America (ISNA) adotam cálculos astronômicos e também confirmaram o início em 18 de fevereiro. Já na Europa, o European Council for Fatwa and Research (ECFR) declarou que o jejum começará na quinta-feira (19), assim como na Turquia, na maior parte da Ásia, na África e na Oceania.

A variação decorre das diferenças entre métodos tradicionais de observação ocular e critérios astronômicos padronizados.

O significado

O Ramadã marca o mês em que, segundo a tradição islâmica, os primeiros versos do Alcorão foram revelados ao profeta Maomé há cerca de 1.450 anos. Durante 29 ou 30 dias, os fiéis jejuam do amanhecer (oração do Fajr) ao pôr do sol (Maghrib), abstendo-se de comida, bebida, fumo e relações sexuais.

Em 2026, como ocorre no inverno do Hemisfério Norte, os jejuns serão mais curtos, entre 11,5 e 13 horas em grande parte da Europa e América do Norte. Já no Hemisfério Sul, o jejum ultrapassa 14 horas.

No Brasil, por exemplo, em Brasília, o primeiro dia terá jejum de aproximadamente 13h47, com o suhoor às 4h56 e o iftar às 18h43.

Curiosidade: como o calendário islâmico é cerca de 11 dias mais curto que o solar, o Ramadã “retrocede” a cada ano. Em 2030, ele ocorrerá duas vezes no mesmo ano civil, em janeiro e novamente em dezembro.

O ciclo de 2026 é associado ao Cavalo de Fogo, combinação que ocorre a cada 60 anos dentro do calendário tradicional chinês. Foto: Wikicommons

Ano Novo Chinês: começa o Ano do Cavalo de Fogo

Também nesta quarta-feira inicia-se o Ano Novo Lunar, celebrado principalmente na China e em diversas comunidades asiáticas pelo mundo. O ciclo de 2026 é associado ao Cavalo de Fogo, combinação que ocorre a cada 60 anos dentro do calendário tradicional chinês.

O calendário chinês é lunissolar: o ano começa na segunda lua nova após o solstício de inverno no Hemisfério Norte. A festividade é a maior migração humana anual do planeta, com centenas de milhões de deslocamentos internos na China durante o chamado Chunyun.

As autoridades chinesas esperam cerca de 9,5 bilhões de viagens internas ao longo dos 40 dias de chūnyùn em 2026, um novo recorde acima dos 9,02 bilhões registrados no ano anterior.

Durante o chūnyùn, grandes metrópoles como Beijing e Shanghai literalmente “esvaziam”, redução tão forte no trânsito que, em anos anteriores, melhora visível na qualidade do ar chegou a ser registrado nas semanas de viagem.

Simbolismo do Cavalo de Fogo

O Cavalo representa energia, movimento, independência e paixão. O elemento Fogo intensifica características como ousadia, dinamismo e imprevisibilidade. Em ciclos anteriores do Cavalo de Fogo — como 1966 — houve inclusive crenças populares de que crianças nascidas sob esse signo teriam personalidade forte e destino intenso, o que impactou estatísticas de natalidade naquele ano no Leste Asiático.

As celebrações incluem:

  • reuniões familiares;
  • entrega de envelopes vermelhos (hongbao) com dinheiro;
  • danças do dragão e do leão;
  • queima de fogos para afastar espíritos malignos.

Embora tradicionalmente vinculada à cultura chinesa, a festividade é celebrada também em países como Vietnã, Coreia, Singapura e em grandes comunidades da diáspora.

Quaresma em 2026: 40 dias até a Páscoa

Para os cristãos, especialmente os cerca de 1,3 bilhão de católicos no mundo, esta quarta-feira marca a Quarta-feira de Cinzas, início da Quaresma.

A data é móvel e calculada a partir da Páscoa, que por sua vez é definida pelo calendário lunar cristão (primeiro domingo após a primeira lua cheia depois do equinócio de primavera no Hemisfério Norte).

A Quaresma é um período de 40 dias de preparação espiritual que remete aos 40 dias de jejum de Jesus no deserto. Os fiéis são convidados à penitência, oração e caridade. Em países de tradição católica, a imposição das cinzas sobre a testa simboliza a fragilidade humana e o chamado à conversão.

Encontro de calendários

A coincidência chama atenção porque envolve três sistemas calendáricos distintos:

  • Calendário islâmico: puramente lunar (354 dias);
  • Calendário chinês: lunissolar;
  • Calendário cristão: solar, com cálculo lunar para a Páscoa.

Neste 18 de fevereiro de 2026, enquanto muçulmanos iniciam o jejum do amanhecer ao pôr do sol, chineses celebram renovação e prosperidade com fogos e festividades, e cristãos entram em recolhimento penitencial, o planeta vive simultaneamente três narrativas de tempo de diferentes tradições das maiores da história da humanidade.

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