A possibilidade de os Estados Unidos classificarem as facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas provocou reação diplomática do governo brasileiro e acendeu alertas entre especialistas em relações internacionais e segurança pública. A medida, discutida no governo do presidente Donald Trump, poderia abrir caminho para sanções financeiras, pressão política e até justificar ações militares sob o argumento de combate ao terrorismo. Leia em TVT News.
Diante desse cenário, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tenta conter ou ao menos retardar a iniciativa norte-americana. Segundo reportagens publicadas pela imprensa brasileira, o Itamaraty e o Ministério da Justiça têm atuado diplomaticamente para impedir que a classificação avance antes de uma reunião entre Lula e Trump, prevista para os próximos meses. O objetivo é ganhar tempo e reduzir o impacto político da proposta.
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O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, também entrou em campo para tentar bloquear a medida junto a autoridades dos EUA, argumentando que a equiparação das facções ao terrorismo não encontra respaldo na legislação brasileira e pode trazer consequências diplomáticas e econômicas ao país.
Diferença entre crime organizado e terrorismo

No centro do debate está a diferença conceitual entre crime organizado e terrorismo. Embora as facções brasileiras pratiquem crimes violentos e exerçam controle territorial em determinadas regiões, especialistas afirmam que sua lógica de funcionamento é distinta da de organizações terroristas.
A pesquisadora Rashmi Singh explica que grupos terroristas são movidos essencialmente por objetivos políticos ou ideológicos, enquanto organizações criminosas atuam principalmente em busca de lucro.
“Criminosos são motivados principalmente por lucros, enquanto terroristas são, em última análise, movidos por objetivos políticos, como mudança de regime ou concessões políticas”, afirma Singh.
Esse entendimento é compartilhado por autoridades brasileiras. Técnicos do Ministério da Justiça já informaram a representantes do governo norte-americano que, de acordo com a legislação do país, facções como PCC e CV devem ser tratadas como organizações criminosas, não como grupos terroristas.
A legislação brasileira estabelece critérios específicos para caracterizar terrorismo, normalmente relacionados a motivações ideológicas, religiosas ou de ódio. Já as facções operam sobretudo em atividades ilícitas voltadas ao lucro, como tráfico de drogas e lavagem de dinheiro.
Pressão geopolítica e estratégia regional
A iniciativa do governo Trump também é analisada dentro de um contexto geopolítico mais amplo. Nos últimos anos, Washington tem ampliado o uso da categoria de “narcoterrorismo” para enquadrar cartéis e organizações criminosas na América Latina.
Segundo o doutorando em Relações Internacionais pela Universidade de São Paulo Thomaz Delgado de David, essa classificação poderia ser usada para justificar medidas unilaterais dos Estados Unidos contra grupos considerados ameaças à sua segurança.
“Possivelmente, usarão isso como pretexto para justificar eventuais medidas de intervenção política e militar direta no Brasil, embora não haja respaldo legal”, afirma o pesquisador, em entrevista ao Brasil de Fato.
De acordo com ele, o direito internacional estabelece limites claros à atuação de um país dentro do território de outro. A Carta das Nações Unidas prevê a igualdade soberana entre os Estados e proíbe o uso da força sem autorização do Conselho de Segurança da ONU.
Mesmo assim, o especialista avalia que a simples inclusão das facções brasileiras na lista de organizações terroristas já representaria uma ameaça política e econômica ao país.
“Em termos concretos, representa um sério risco à soberania brasileira”, afirma.
Sanções e pressão financeira
Além de implicações militares, a classificação pode gerar efeitos no sistema financeiro internacional. Uma vez rotulado como terrorista, um grupo passa a ser alvo de sanções automáticas dentro da legislação norte-americana, o que inclui bloqueio de ativos, monitoramento de transações e restrições a instituições financeiras que tenham qualquer relação indireta com essas organizações.
Segundo analistas, isso poderia afetar bancos, empresas e até operações comerciais que envolvam suspeitas de conexão com o crime organizado brasileiro. Em casos extremos, países podem sofrer pressão diplomática para adotar políticas de segurança alinhadas à estratégia dos Estados Unidos.
Debate interno e repercussão política
O tema também ganhou dimensão política no Brasil. Parlamentares da oposição defendem a classificação das facções como terroristas, enquanto especialistas em segurança pública alertam que a mudança não resolveria o problema da violência e poderia abrir precedentes perigosos.
Para o professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC Gilberto Maringoni, a estratégia de Washington faz parte de um movimento mais amplo de reafirmação da influência dos EUA na América Latina.
Segundo ele, documentos recentes da política de defesa norte-americana indicam que o objetivo é ampliar acordos militares na região e reduzir a influência da China, principal parceiro comercial de vários países latino-americanos.
Nesse contexto, o enquadramento de facções como terrorismo poderia servir como instrumento de pressão geopolítica.
“O Estado brasileiro deve ser implacável no combate ao crime, mas de forma soberana e sem interferência externa”, afirma Maringoni, também ao Brasil de Fato. “Politizar o tema como querem os EUA significa abrir caminho para todo tipo de violações de nossa autodeterminação.”
Soberania em jogo
Embora a classificação não obrigue automaticamente o Brasil a adotar o mesmo entendimento, especialistas alertam que a decisão norte-americana poderia criar precedentes perigosos. Em outros contextos internacionais, a designação de grupos como terroristas foi usada para justificar operações militares, ataques seletivos e intervenções indiretas.
Para críticos da proposta, o risco é que o combate ao crime organizado seja instrumentalizado dentro de uma agenda geopolítica mais ampla.
Diante desse cenário, o governo brasileiro busca ganhar tempo e evitar que a iniciativa avance no curto prazo. A estratégia diplomática tenta preservar a cooperação internacional contra o crime, mas sem abrir mão da autonomia do país para definir suas próprias políticas de segurança pública.
No centro da disputa está uma questão que ultrapassa o debate jurídico: quem define o que é terrorismo e quais são os limites da atuação internacional dentro do território brasileiro.
