A fotógrafa e jornalista Gabriela Biló participa nesta manhã (14) da edição do jornal TVT 1 para comentar sobre o lançamento de sua mais nova obra, Juízo final (Fósforo/Seiva). Trata-se de um livro-reportagem que aborda um dos períodos mais conturbados da democracia brasileira: o golpe do 8 de janeiro. Leia em TVT News.
VEJA A ENTREVISTA COMPLETA NA EDIÇÃO DO JORNAL
Em entrevista à TVT, a fotógrafa e escritora Gabriela Biló detalhou os bastidores e as motivações por trás de seu novo livro, “Juízo Final”. A obra, que se propõe a ser um “fotodocumento”, reconstrói a cronologia da trama golpista que culminou nos ataques de 8 de janeiro de 2023, buscando oferecer ao leitor uma visão sistêmica de um processo que, segundo a autora, começou muito antes da invasão à Praça dos Três Poderes.
“As primeiras falas golpistas acontecem antes mesmo de Bolsonaro se tornar presidente. Quando chegamos ao 8 de janeiro, é a última tentativa, a última barreira”, explicou a autora.
Diferente de seu trabalho anterior, focado na estética da fotografia clássica, este novo volume adota um tom de memória investigativa, utilizando o dia 9 de janeiro de 2023 como o marco inicial de sua narrativa.
Para a autora, a escolha da data é estratégica: foi o momento em que a retórica política deu lugar à resposta concreta do Estado.
>> Siga o grupo da TVT News no WhatsApp
“Eu gosto de começar o livro no dia 9, o day after, que é quando as instituições começam a responder a isso. Tem o dia 8, que é a bagunça, e tem o dia 9, que é a calmaria depois da tempestade. Eu vejo o dia 8 de janeiro como um dia muito precioso, porque, se não fosse ele, os processos não teriam sido abertos e não teria sido investigada essa trama que ocorria há muito tempo”, disse Biló.

Livro de Biló reúne conjunto de evidências que condenaram golpistas
Biló utilizou uma analogia forense para explicar o conjunto de evidências, que inclui desde a fraude em cartões de vacinação até minutas de decretos e diálogos interceptados e como essas evidências apontam para Bolsonaro como o mentor intelectual.
“Quando falamos da condenação de golpistas, pensamos: ‘Tá, mas qual a prova definitiva contra Jair Bolsonaro?’. Mas, quando pensamos num crime, não precisamos necessariamente de alguém que viu ou de uma imagem de alguém colocando uma faca no coração da outra. Às vezes, temos as digitais na faca, a pessoa entrando com uma roupa e saindo ensanguentada; você tem alguém que ouviu e gravou a discussão de alguém dizendo ‘eu vou te matar agora’. Então, há todas essas provas em volta que dizem: ‘Bom, a única pessoa que poderia ter feito isso, que tem as digitais, o sangue, a motivação e não tem álibi, é Jair Bolsonaro'”, disse Biló.
O livro combina registros fotográficos com textos que organizam a cronologia dos fatos, servindo como um guia para que o leitor compreenda a complexidade dos eventos. A obra não se limita ao que aconteceu na Praça dos Três Poderes, mas mergulha nas raízes do movimento, traçando conexões que, segundo a autora, remontam ao mandato de Jair Bolsonaro.
“Decidimos fazer o livro como um livro de memórias, uma costura entre todos esses fatos”, disse Biló
Além das fotografias, a narrativa é sustentada por documentos oficiais de alto peso jurídico. Biló baseou seu texto no parecer da Procuradoria-Geral da República (PGR), relatório final da Polícia Federal e voto do ministro Alexandre de Moraes.
Para Biló, quando nós vivemos a história, vamos recebendo um bombardeio de informações dispersas e que às vezes não percebemos um acontecimento como um todo, por isso seu livro veio como uma tentativa em costurar esses fatos em uma só narrativa:
“Quando a gente acompanha as notícias e vai consumindo isso em tempo real, entende que isso é uma coisa histórica. A condenação de militares golpistas… a gente vai vivendo esses momentos, mas vai perdendo a costura”, completou.

“Eu digo que não é um fotolivro, é um fotodocumento. Temos a minuta golpista, a agenda do Heleno, os prints das conversas, o ‘Punhal Verde e Amarelo’… e é muito interessante que, no fazer deste livro, eu mesma fui descobrindo coisas que não tinha costurado. Então, vamos explicando esses detalhes no livro e coisas que a gente perde com o tempo…”
Análise do Cenário Eleitoral e o Futuro da Direita
Ao analisar a sucessão política, Biló demonstrou não estar surpresa com a força de Flávio Bolsonaro nas pesquisas atuais. Ela destacou a capacidade de organização da extrema-direita nas redes sociais e a força do sentimento antipetista.
“Mesmo com pandemia e apoio da grande imprensa e do Centrão, a diferença para o Lula foi de apenas 3 milhões de votos. Agora, sem esses fatores e com um candidato tido como ‘mais educado’, como o Flávio, será uma eleição muito difícil”, pontuou.
Projetos Futuros
Embora seu foco atual seja o registro político, a fotógrafa revelou que seu próximo lançamento será um livro de arte pela editora Cosac. No entanto, ela mantém o olhar atento ao fenômeno de mobilização da direita, citando Nikolas Ferreira como uma figura que merece atenção documental no futuro.
Biló encerrou a entrevista reforçando o papel do fotojornalismo na era da Inteligência Artificial: “Em tempos de IA, o fotojornalismo tem mais força do que nunca”, concluiu, defendendo o registro da realidade como a principal arma contra o esquecimento histórico.
A Curadoria
Com edição assinada por Fernando Barros e Silva e prefácio do escritor Marcelo Rubens Paiva, a obra busca entregar o que a jornalista chama de “conjunto de coisas”. Segundo ela, o objetivo é mostrar que as evidências não são provas isoladas, mas partes de uma engrenagem maior.
O lançamento chega ao mercado como uma peça fundamental para o entendimento do processo investigativo que transformou a percepção de uma “narrativa de esquerda” em um processo judicial robusto sobre a tentativa de golpe de Estado no Brasil.

