FMI reduz previsão de crescimento mundial, mas aumenta a do Brasil

Relatório do Fundo Monetário Internacional aponta impacto da guerra no Oriente Médio sobre a economia global, enquanto vê efeito positivo moderado para o Brasil
FMI reduz previsão de crescimento mundial, mas aumenta a do Brasil Revisão positiva se deve, principalmente, à condição do Brasil como exportador líquido de energia. Foto: André Motta/Agência Petrobras TVT News
Revisão positiva se deve, principalmente, à condição do Brasil como exportador líquido de energia. Foto: André Motta/Agência Petrobras

O mais recente relatório Perspectiva Econômica Mundial (World Economic Outlook), divulgado pelo Fundo Monetário Internacional nesta terça-feira (14), revela um cenário de desaceleração da economia global em meio à escalada do conflito no Oriente Médio, especialmente envolvendo Estados Unidos e Irã. Ao mesmo tempo, o organismo revisou para cima a previsão de crescimento do Brasil em 2026, indicando que o país pode atravessar o período de turbulência internacional com relativa resiliência. Saiba mais na TVT News.

Segundo o FMI, a economia mundial deve crescer 3,1% em 2026, abaixo dos 3,3% projetados em janeiro. Para 2027, a estimativa é de expansão de 3,2%. A revisão para baixo reflete o impacto direto e indireto da guerra na região estratégica do Golfo, que tem provocado interrupções no fluxo de comércio, especialmente de petróleo e gás natural, além de elevar a incerteza nos mercados financeiros.

O Fundo destaca que, embora a economia global tenha resistido a choques recentes — como o aumento de barreiras comerciais —, o novo cenário geopolítico representa um desafio adicional relevante. “A atividade global enfrenta agora um grande teste com o início da guerra no Oriente Médio”, afirma o relatório, que condiciona suas projeções à hipótese de que o conflito permaneça limitado em duração e alcance.

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Além da desaceleração do crescimento, a instituição também projeta uma leve alta da inflação global em 2026, antes de uma possível queda em 2027. Esse movimento deve ser mais intenso nos países emergentes e em desenvolvimento, mais vulneráveis a oscilações nos preços de commodities e à volatilidade financeira internacional.

Brasil na contramão da desaceleração

Em contraste com o cenário global, o Brasil teve sua previsão de crescimento revisada para cima. O FMI agora projeta expansão de 1,9% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2026, um aumento de 0,3 ponto percentual em relação à estimativa anterior, divulgada em janeiro. Para 2027, a expectativa é de crescimento de 2%.

A revisão positiva se deve, principalmente, à condição do país como exportador líquido de energia. Com a intensificação do conflito no Oriente Médio e possíveis restrições no Estreito de Ormuz — uma das principais rotas de transporte de petróleo do mundo —, o Brasil tende a se beneficiar do aumento dos preços internacionais da energia.

De acordo com o FMI, esse fator deve adicionar cerca de 0,2 ponto percentual ao crescimento brasileiro em 2026. Além disso, o relatório destaca que o bom desempenho da economia no segundo semestre do ano passado ainda gera efeitos positivos no curto prazo, contribuindo para sustentar a atividade econômica.

Outro ponto ressaltado é a matriz energética brasileira, que conta com forte presença de fontes renováveis. Segundo Petya Koeva Brooks, diretora-adjunta do Departamento de Pesquisa do Fundo, esse aspecto funciona como um fator adicional de proteção diante de choques externos, especialmente os relacionados ao setor energético.

Fundamentos econômicos e resiliência

O FMI também aponta que o Brasil dispõe de fundamentos macroeconômicos que ajudam a amortecer os impactos da crise internacional. Entre eles, estão o nível considerado adequado de reservas internacionais, a baixa dependência de dívida em moeda estrangeira, a existência de colchões de liquidez no governo e o regime de câmbio flexível.

Esses elementos, segundo o relatório, colocam o país em posição mais favorável para enfrentar a volatilidade externa, mesmo diante de um ambiente global mais adverso.

Ainda assim, o crescimento projetado para o Brasil em 2026 é inferior ao registrado em 2025, quando o PIB avançou 2,3%. Ou seja, apesar da revisão positiva, a economia brasileira também deve desacelerar, acompanhando, ainda que de forma mais moderada, o movimento global.

Para 2027, o cenário se torna mais desafiador. O FMI projeta uma redução no ritmo de expansão, influenciada pela desaceleração da demanda global, pelo aumento dos custos de insumos — como fertilizantes — e pelo aperto das condições financeiras internacionais. Esses fatores devem reduzir o crescimento brasileiro em cerca de 0,3 ponto percentual em relação às projeções anteriores.

Inflação e mercado de trabalho

No campo inflacionário, o FMI estima que o Brasil terá inflação de 4% em 2026, com recuo para 3,4% em 2027. Os números indicam uma trajetória de convergência, ainda que em níveis próximos ao teto da meta.

Já o mercado de trabalho deve apresentar leve deterioração. A taxa de desemprego está projetada em 6,8% em 2026, subindo para 7,4% no ano seguinte, refletindo o impacto da desaceleração econômica.

Comparações internacionais

No panorama global, o desempenho do Brasil permanece modesto em comparação com outras economias emergentes. A Índia, por exemplo, deve crescer 6,5% tanto em 2026 quanto em 2027, enquanto a China tem projeções de 4,4% e 4%, respectivamente.

Entre as economias avançadas, os Estados Unidos devem crescer 2,3% em 2026, enquanto a zona do euro deve registrar expansão de apenas 1,1%. O Japão aparece com crescimento ainda mais baixo, de 0,7%.

Na América Latina e Caribe, o FMI projeta crescimento de 2,3% em 2026 e 2,7% em 2027, o que coloca o Brasil ligeiramente abaixo da média regional.

Incerteza como variável central

O relatório enfatiza que as projeções estão cercadas de elevada incerteza, especialmente em função da imprevisibilidade do conflito no Oriente Médio. A duração, intensidade e alcance da guerra serão determinantes para os rumos da economia global nos próximos anos.

Para o Brasil, o cenário combina riscos e oportunidades. Se, por um lado, o país pode se beneficiar do aumento dos preços de energia no curto prazo, por outro, permanece exposto aos efeitos de uma eventual desaceleração mais intensa da economia mundial.

O diagnóstico do FMI, portanto, aponta para um quadro de cautela: enquanto o mundo enfrenta um ambiente mais adverso, o Brasil aparece com alguma margem de resiliência — ainda que longe de um crescimento robusto.

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