O presidente Luiz Inácio Lula da Silva divulgou nesta quarta-feira (15) um vídeo em desagravo ao papa Leão XIV, em meio à escalada de ataques do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao líder da Igreja Católica. A mensagem foi direcionada à 62ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e combina defesa da atuação histórica da Igreja com críticas indiretas ao ambiente de hostilidade política internacional. Saiba mais na TVT News.
Na gravação, Lula afirmou prestar sua “mais profunda solidariedade” ao pontífice, que, segundo ele, vem sendo alvo de ataques por defender a paz e os mais vulneráveis. O presidente brasileiro recorreu a um argumento histórico para sustentar sua posição: ao longo do tempo, figuras comprometidas com justiça social e direitos humanos teriam sido perseguidas por elites que se consideram superiores.
“Defensores da paz e dos oprimidos têm sido atacados por poderosos que se julgam divindades”, declarou Lula, sem mencionar diretamente Trump. Em seguida, o presidente citou uma máxima que sintetiza o tom moral e político de sua fala: “mais vale um coração repleto de amor ao próximo que o poder das armas e do dinheiro”.
A manifestação ocorre em um momento de tensão aberta entre o Vaticano e a Casa Branca. Nos últimos dias, Trump intensificou críticas ao papa, chamando-o de “fraco” e “péssimo em política externa”, especialmente após o pontífice defender cessar-fogos, soluções diplomáticas e criticar ações militares dos Estados Unidos e de aliados no Oriente Médio.
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O embate ganhou contornos ainda mais simbólicos após o presidente norte-americano publicar — e depois apagar — uma imagem gerada por inteligência artificial em que aparecia associado à figura de Jesus Cristo, gesto que provocou forte reação negativa e foi classificado por críticos como desrespeitoso e blasfemo.
Em resposta, Leão XIV reafirmou que não teme pressões políticas e que seguirá defendendo os princípios do Evangelho. Durante viagem à África, o pontífice enfatizou que sua missão não é política, mas moral: promover a paz, o diálogo e a reconciliação entre povos e nações. “Continuarei falando com força contra a guerra”, afirmou, destacando que a Igreja deve atuar como mediadora em um mundo marcado por conflitos e desigualdades.
A posição do papa tem repercutido internacionalmente e mobilizado lideranças políticas e religiosas. A fala de Lula se insere nesse contexto mais amplo, reforçando uma leitura de que a atuação do Vaticano, sob Leão XIV, representa uma voz crítica às guerras e ao unilateralismo nas relações internacionais.
Aproximação com religiosos
No vídeo, o presidente brasileiro também aproveitou para saudar a CNBB, destacando o papel histórico da entidade na defesa da democracia e dos direitos humanos no Brasil. Lula relembrou a atuação da conferência durante a ditadura militar, quando setores da Igreja Católica estiveram ao lado de perseguidos políticos, trabalhadores e movimentos sociais.
“A CNBB esteve na linha de frente em defesa da democracia nos momentos mais dolorosos da nossa história recente”, afirmou. Ele também ressaltou a contribuição da Igreja na formulação de políticas públicas e no apoio às populações mais vulneráveis ao longo de dois séculos de relações diplomáticas entre o Brasil e a Santa Sé.
A mensagem presidencial também dialoga com o cenário político interno. Desde o ano passado, Lula tem intensificado gestos em direção ao eleitorado religioso, especialmente católico, após pesquisas indicarem queda em sua aprovação nesse segmento. Levantamentos recentes mostram que, embora haja leve recuo na desaprovação entre católicos, os índices ainda permanecem elevados.
Nesse contexto, o discurso que combina referências à fé cristã, valorização da Igreja e defesa de pautas sociais busca reconstruir pontes com esse público, tradicionalmente relevante no debate político brasileiro. Ao mesmo tempo, a defesa do papa frente a ataques de uma liderança internacional reforça a estratégia de posicionamento do governo brasileiro em favor do multilateralismo e da resolução pacífica de conflitos.
A crise envolvendo Trump e Leão XIV é considerada o confronto mais explícito entre um presidente dos Estados Unidos e o líder da Igreja Católica nos últimos anos. As declarações do republicano — que incluem críticas diretas à postura do papa e questionamentos sobre sua legitimidade — contrastam com a resposta do pontífice, que tem insistido na necessidade de reduzir tensões e evitar escaladas bélicas.
Ao se posicionar, Lula não apenas manifesta solidariedade pessoal ao líder religioso, mas também sinaliza alinhamento com uma agenda internacional baseada na diplomacia, no diálogo e na defesa dos direitos humanos. Em um cenário global marcado por conflitos e polarização, a fala do presidente brasileiro reforça a disputa de narrativas sobre o papel das lideranças políticas e religiosas na promoção da paz.

