A greve dos servidores municipais de São Paulo ganhou força nesta semana após a categoria decidir, em assembleia realizada na terça-feira (5), pela paralisação imediata contra o Projeto de Lei 354/2026, encaminhado pelo prefeito Ricardo Nunes (MDB) à Câmara Municipal. Saiba mais na TVT News.
O texto trata da revisão geral anual dos salários do funcionalismo, mas também inclui uma série de alterações estruturais na carreira da Educação, vistas por sindicatos e parlamentares da oposição como ataques aos direitos dos trabalhadores e ao ensino público da capital.
A decisão foi tomada após mais um ato unificado do funcionalismo em frente à Câmara. Revoltados com a proposta do Executivo, servidores aprovaram nova mobilização para esta quarta-feira (6), às 13h, em frente ao Legislativo paulistano, com o objetivo de pressionar os vereadores e impedir a tramitação acelerada da matéria.
Segundo entidades representativas, o governo tenta aprovar o projeto sem debate aprofundado, encaminhando-o para leitura em plenário e posterior análise rápida na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). A pressa da base governista aumentou a indignação entre professores, coordenadores pedagógicos, diretores, agentes escolares e demais trabalhadores da rede municipal.

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Reajuste dos servidores abaixo das perdas
O principal ponto de insatisfação é a proposta salarial apresentada por Nunes. O PL prevê reajuste de apenas 2% a partir de maio de 2026 e uma segunda parcela de 1,48% somente em maio de 2027, ainda condicionada à arrecadação e à disponibilidade orçamentária. Para auxílio-refeição e vale-alimentação, o índice seria de 3,51%.
Para os sindicatos, os percentuais ficam muito abaixo das perdas acumuladas pela inflação e mantêm o arrocho salarial imposto ao funcionalismo nos últimos anos. Trabalhadores denunciam que, enquanto o custo de vida dispara na capital paulista, a Prefeitura insiste em impor reajustes insuficientes.
Nas escolas, a realidade descrita pelos profissionais é de sobrecarga, falta de servidores, salas lotadas, adoecimento e ausência de políticas efetivas de inclusão. A categoria afirma que a valorização dos educadores é condição indispensável para garantir ensino de qualidade aos estudantes.
“Jabutis” e ataques à Educação
Além da questão salarial, o projeto enviado pela Prefeitura gerou reação ainda maior por incluir mudanças profundas na legislação da Educação municipal. Entre os pontos criticados estão alterações no abono complementar dos docentes, transformação de cargos, novas etapas em concursos públicos, ampliação de contratações temporárias e mudanças relacionadas à readaptação funcional e à Jornada Especial Integral de Formação (JEIF).
A vereadora Silvia Ferraro, da Bancada Feminista do PSOL, afirmou que o texto está “cheio de jabutis” e contém medidas que fragilizam a rede pública.
Segundo ela, uma das propostas permite a transformação de cargos da Educação Infantil em cargos voltados também ao Ensino Fundamental I, o que pode esvaziar unidades de educação infantil e abrir espaço para expansão da rede conveniada.
Outro ponto criticado é a criação de uma etapa adicional nos concursos públicos, chamada curso de formação, em que candidatos receberiam bolsa correspondente a 70% da remuneração. Para a parlamentar, a medida pode funcionar como mecanismo de precarização e filtro político.
Também causou forte reação a possibilidade de elevar para até 30% o número de profissionais contratados temporariamente na rede, em detrimento da nomeação de concursados. Para movimentos sindicais, isso amplia a precarização e enfraquece o serviço público.
Resistência nas ruas
A mobilização desta quarta-feira começou pela manhã, em frente à Secretaria Municipal de Educação, com assembleia e caminhada até a Prefeitura. À tarde, o foco se volta para a Câmara Municipal, onde a categoria pretende barrar a tramitação do projeto.
Lideranças sindicais afirmam que a greve tende a crescer caso o governo mantenha a tentativa de aprovar o texto sem negociação real. O sentimento predominante entre os trabalhadores é de que a gestão municipal despreza o diálogo e aposta no desgaste do movimento.
Representantes do funcionalismo lembram que o município dispõe de orçamento robusto e poderia apresentar proposta mais justa, capaz de recompor perdas e investir na valorização dos serviços públicos.
Defesa da escola pública
Para educadores e movimentos sociais, a luta em curso ultrapassa a pauta salarial. O enfrentamento também diz respeito ao modelo de cidade e de gestão pública adotado pela Prefeitura. De um lado, servidores defendem concursos públicos, carreira estruturada e escola pública fortalecida. De outro, denunciam avanço da terceirização, sucateamento e redução de direitos.
A greve municipal ocorre em um contexto mais amplo de mobilizações na educação paulista e brasileira, com estudantes e trabalhadores de diferentes redes protestando contra privatizações e cortes de investimentos.
Na capital, a expectativa é de que a pressão popular e a presença massiva dos servidores na Câmara possam frear o projeto de Nunes e obrigar a Prefeitura a reabrir negociações. Enquanto isso, professores e demais trabalhadores mantêm a palavra de ordem que marcou a assembleia: nenhum direito a menos e valorização já para quem sustenta os serviços públicos da maior cidade do país.
