Banco de Edir Macedo repassou carteira de financiamento com carro roubado para ocultar prejuízos

Reportagem do Estadão aponta fraudes e maquiagem de R$ 480 milhões em calotes no Banco Digimais, de propriedade do bispo Edir Macedo
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Bolsonaro e Edir Macedo, dono do banco Digimais, que vem cometendo uma série de irregularidades fiscais para maquear dívidas – (São Paulo - SP, 01/09/2019) Visita ao Templo de Salomão – Foto: Alan Santos/PR

O Banco Digimais do bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal, adotou procedimentos irregulares para ocultar perdas financeiras expressivas em seus balanços patrimoniais. Entre as manobras do banco para tirar ativos podres de seus balanços, está a transferência de carteira de financiamentos veiculares que incluía carro roubados. Leia em TVT News.

Conforme os documentos obtidos e analisados pelo jornal O Estado de S. Paulo, o banco transferiu centenas de milhões de reais em créditos de difícil recuperação para fundos de investimentos, evitando registrar prejuízos diretamente em suas demonstrações contábeis oficiais.

Para encobrir balanços negativos, o banco ligado a igreja Universal utilizou transações complexas com fundos de investimento. Ao transferir centenas de milhões de reais em dívidas de difícil recuperação, a chamada “carteira podre”, a instituição evitou registrar prejuízos em suas demonstrações oficiais entregues ao Banco Central, forjando uma falsa imagem de saúde financeira.

O Banco Digimais, que operava anteriormente sob a denominação de Banco Renner, foi adquirido pela holding de Edir Macedo em 2020. A entidade não possui agências físicas ou pix, e tem como principal segmento de atuação o financiamento de veículos usados e o crédito consignado. O banco enfrenta uma crise estrutural e está em processo de negociação para venda há mais de um ano.

O escândalo dos carros de banco de Edir Macedo

A operação de financiamento de veículos usados e antigos sempre foi o principal segmento do Digimais, chegando a representar 94% de suas operações em 2021.

De olho em lucros altos, o banco aceitava financiar automóveis de baixo valor para consumidores com restrições de crédito, cobrando taxas de juros abusivas que chegaram a 2,97% ao mês (41,07% ao ano) em dezembro de 2025.

A falta de rigor na concessão dos créditos resultou em um volume crítico de processos judiciais de compradores que descobriram ter sido vítimas de fraudes graves no momento da aquisição, sem que o banco interrompesse as cobranças.

O caso do carro “dublê”

O técnico de instalação de sistemas de segurança, Rafael Cascardi, morador de São Bernardo do Campo (SP), adquiriu um modelo Celta com financiamento pelo Digimais.

Apenas 15 dias após a compra, ele foi detido pela polícia em uma abordagem. Os policiais constataram que o automóvel era “dublê”, ou seja, portava a placa de um veículo legalizado, mas o chassi e o motor pertenciam a outro carro que havia sido furtado. Cascardi acionou a Justiça e obteve a rescisão do contrato.

O caso do veículo rastreado ilegalmente

O fotógrafo Rodrigo Menezes Martins, da zona leste de São Paulo, financiou um Corsa para trabalhar como motorista de aplicativo.

O carro apresentou defeitos mecânicos consecutivos e parou de funcionar.

Na Justiça, além de pedir a quebra do contrato, Martins descobriu que vinha sendo monitorado ilegalmente por um rastreador escondido no automóvel pela revenda credenciada ao banco. Mesmo com ordem judicial suspendendo as cobranças, o Digimais continuou cobrando as parcelas por anos.

Em vez de assumir os prejuízos decorrentes desses contratos fraudados e das decisões judiciais desfavoráveis, o banco de Edir Macedo empacotou esses ativos problemáticos e os repassou adiante.

O repasse da carteira de financiamento com carro roubado

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Entenda como banco de Edir Macedo cedeu carta de financiamento com carro roubado – Fonte: Estadão

Em um dos casos envolvendo fundo de investimento veiculares, o banco de Edir Macedo repassou uma carteira que tinha reclamação por venda de carro roubado à empresa de um pastor de outra igreja. Em troca, o Digimais iria investir em negócio de venda de imóveis por meio de crédito consignado. Mas o banco parece não ter depositado cerca de R$ 30 milhões prometidos.

No dia 30 de dezembro de 2025, o Digimais transferiu os direitos de cobrança dessa carteira de financiamentos veiculares, contendo inclusive os contratos dos carros roubados e com defeito, para a Hatikvah Participações.

A empresa pertence ao empresário Tiago Gouvêa, que também atua como pastor em uma denominação evangélica sem vínculo com a Igreja Universal.

A transação foi fechada no valor nominal de R$ 255 milhões. Em troca da “carteira podre” de automóveis, a empresa de Gouvêa cedeu ao banco participações em um fundo imobiliário que investe em suas próprias incorporadoras.

Com essa manobra jurídica, o Digimais removeu os processos judiciais e os calotes de seu balanço, transferindo para a Hatikvah a obrigação de brigar nos tribunais contra os consumidores lesados.

Tiago Gouvêa afirmou ao Estadão que aceitou o negócio com o objetivo de expandir operações de crédito consignado para habitação popular.

No entanto, o pastor declarou ter tomado prejuízo, pois o Digimais descumpriu o contrato ao reter um aporte prometido de R$ 30 milhões, paralisando todo o projeto.

Entenda como funcionava a maquiagem dos prejuízos

Para compreender a irregularidade do banco de Edir Macedo apontada pela reportagem do Estadão, é preciso analisar como os bancos lidam com o dinheiro emprestado.

Entenda o esquema
Entenda o esquema

Banco Digimais transferiu operações de crédito para fundos de investimentos. Auditoria aponta alta inadimplência nos fundos e impacto no balanço.

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Banco Digimais transfere as operações de crédito para fundos de investimentos

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Digimais é o principal cotista desses fundos

Ou seja, continua sendo dono indireto dos créditos.

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Fundos apresentam alta inadimplência

Até abril deste ano, somente o fundo Tabor tinha R$ 575 milhões em créditos vencidos.

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Inadimplência dos fundos é suavizada no balanço do banco

Auditoria aponta que o balanço parece mais sólido do que realmente é.

Fonte: auditoria do Digimais referente a dez/25

Quando uma instituição financeira financia um bem, ela cria um “crédito a receber”. Se o cliente deixa de pagar as parcelas, esse crédito vira uma dívida vencida (inadimplência). Pelas regras do Banco Central, os bancos devem registrar esses calotes como perdas, o que reduz diretamente o lucro final apresentado ao mercado.

O Digimais, contudo, utilizou os chamados Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) para contornar essa regra.

Em termos práticos, a operação funcionava da seguinte forma: o banco reunia milhares de contratos de financiamento com atrasos críticos de pagamento, a chamada “carteira podre”. Em vez de assumir o prejuízo, o banco transferia esses contratos para um fundo de investimento.

Assim, para o público externo, a impressão era de que o Digimais de Edir Macedpo havia vendido as dívidas para investidores terceiros. No entanto, os documentos revelam que o próprio banco era o cotista e investidor desses fundos.

    No mercado financeiro, essa prática é denominada operação “Zé com Zé”, situação em que a instituição financeira atua nas duas pontas do balcão: é a vendedora dos créditos e a dona do fundo que os adquire.

    Através desse mecanismo, o banco retirou de seu balanço imediato pelo menos R$ 480 milhões em créditos vencidos.

    O procedimento permitiu que a instituição de Edir Macedo declarasse um lucro líquido de R$ 31 milhões ao término do exercício de 2025, omitindo o rombo real.

    Investigação da Polícia Federal

    As manobras contábeis geraram advertências formais por parte das empresas de auditoria independente contratadas para examinar a saúde financeira da instituição.

    Os auditores apontaram que a holding controladora de Edir Macedo realizou a compra de R$ 741 milhões em cotas do Fundo Hermon, que detém precatórios de alta complexidade judicial relativos a uma indenização da União que tramita desde a década de 1990, em condições que não refletiam as práticas usuais do mercado financeiro, sem remuneração compatível com a natureza da transação.

    Ademais, as auditorias pontuaram a impossibilidade de emitir pareceres conclusivos sobre um saldo de R$ 3 bilhões investidos em fundos, devido à retenção de documentos comprobatórios essenciais. O volume sem certificação equivale a 75% das aplicações do banco em fundos de investimento.

    Atualmente, a Polícia Federal conduz um inquérito investigativo para apurar as supostas fraudes financeiras na gestão da entidade ligada ao bispo Edir Macedo.

    No ano passado, houve a substituição do corpo diretivo do banco, com a nomeação de Aldemir Bendine, ex-presidente do Banco do Brasil e da Petrobras, para o cargo de presidente do Digimais. Nos últimos meses, o controle acionário do banco passou a ser negociado em caráter competitivo com o banco BTG Pactual, cuja conclusão depende de leilão e de mecanismos de socorro financeiro com o aporte do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

    Procurados formalmente pela equipe de reportagem do jornal O Estado de S. Paulo para esclarecer as irregularidades apontadas nos documentos e auditorias, a administração do Banco Digimais e a assessoria da Igreja Universal do Reino de Deus de Edir Macedo decidiram não se manifestar sobre as investigações.

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