O avanço da série “Vaza Flávio”, publicada pelo The Intercept Brasil, adicionou um novo capítulo à crise envolvendo o financiamento do filme “Dark Horse”, cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Desta vez, mensagens obtidas pelo veículo apontam que o banqueiro Daniel Vorcaro pressionou diretamente integrantes do Portal Leo Dias para remover uma reportagem sobre o longa-metragem ainda em agosto de 2025, quando a existência da produção não havia sido oficialmente divulgada. Saiba mais na TVT News.
Segundo a reportagem do Intercept, a matéria foi publicada em 1º de agosto de 2025 e retirada do ar cerca de uma hora depois, após reclamações de Vorcaro ao empresário Thiago Miranda, sócio do portal e apontado como articulador financeiro das negociações envolvendo o filme. As mensagens reforçam suspeitas sobre o grau de envolvimento do banqueiro na produção audiovisual e sugerem uma tentativa de controle sobre a divulgação pública do projeto.
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Mensagens mostram irritação de Vorcaro
De acordo com os diálogos revelados, Vorcaro enviou mensagem a Thiago Miranda às 12h07 daquele dia demonstrando incômodo com a publicação da reportagem.
“Achei que divulgar que tá fazendo o filme muito ruim, não acha?”, escreveu o banqueiro.
Miranda respondeu concordando com a crítica e afirmou que iria “entender” o que havia acontecido. Em seguida, declarou que “tinham combinado de não divulgar nada” e disse que falaria com “Mário”, numa aparente referência ao deputado federal Mario Frias, produtor-executivo e roteirista do longa.
As mensagens também indicam que o senador Flávio Bolsonaro participou das tratativas para conter a repercussão da notícia. Em um dos trechos divulgados, Thiago Miranda afirma a Vorcaro que havia conversado “com Mário e Flávio” e garante que a matéria seria apagada.

Pouco depois, Miranda confirma que o conteúdo havia sido retirado do ar. Na sequência, escreve ao banqueiro: “Flavio disse que vai te dar uma ligada também”.
A troca de mensagens reforça uma das principais linhas de apuração em torno do caso: a existência de uma articulação política, empresarial e midiática em torno do projeto cinematográfico, cuja produção vem sendo alvo de investigações da Polícia Federal, do Ministério Público e do Supremo Tribunal Federal.
Reportagem antecipava detalhes do filme
Mesmo retirada do ar, a publicação original acabou preservada por usuários em sistemas de arquivamento da internet. Segundo o Intercept, o texto trazia detalhes inéditos sobre “Dark Horse”, descrevendo o filme como uma narrativa heroica da trajetória política de Bolsonaro.
A reportagem afirmava que o ex-presidente seria retratado como “um homem corajoso e determinado”, impulsionado à política pela “decepção com os rumos do país”. Também citava nomes ligados à produção internacional do longa, como o diretor Cyrus Nowrasteh, o produtor Michael Davis e a diretora de elenco Ricki G. Maslar.
O texto ainda revelava que já havia atores escalados para interpretar os filhos de Bolsonaro — Flávio, Eduardo Bolsonaro e Carlos Bolsonaro — além da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.
Naquele momento, porém, não havia qualquer menção pública sobre os recursos milionários destinados ao projeto nem sobre a participação de Vorcaro como principal financiador.
Intercept liga Vorcaro ao financiamento do longa
As novas revelações se somam a reportagens anteriores do Intercept que apontam que Flávio Bolsonaro negociou cerca de R$ 134 milhões com Daniel Vorcaro para financiar o filme. Parte desses recursos teria sido transferida ao fundo offshore Havengate Development Fund LP, sediado no Texas e administrado por pessoas ligadas ao entorno de Eduardo Bolsonaro.
A produção do longa passou a ser investigada após a divulgação de áudios em que Flávio cobrava repasses financeiros de Vorcaro. Em uma das gravações reveladas anteriormente, o senador demonstrava preocupação com atrasos nos pagamentos relacionados ao filme.
A crise política se agravou depois que vieram à tona suspeitas de que parte dos recursos destinados à produção poderia ter sido usada para custear despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, onde ele vive desde 2025.
Flávio nega irregularidades e afirma que todo o dinheiro foi utilizado exclusivamente na produção cinematográfica.
Portal Leo Dias diz que retirou texto por “dúvidas internas”
Por meio de nota enviada ao Intercept, o Portal Leo Dias afirmou que a retirada da reportagem ocorreu por “dúvidas internas sobre a apuração”.
Segundo a manifestação atribuída à advogada Hallyne Marques, o conteúdo teria sido recebido de uma fonte, mas acabou removido porque a equipe não estava “100% convicta” das informações publicadas.
A nota informa ainda que a decisão passou por Thiago Miranda, então CEO do portal.
O veículo voltou a tratar do tema apenas em dezembro de 2025, quando imagens das gravações do filme começaram a circular nas redes sociais e a crise envolvendo o Banco Master já havia levado à primeira prisão de Vorcaro.
Caso amplia desgaste político do bolsonarismo
A nova reportagem aprofunda o desgaste político da família Bolsonaro e amplia questionamentos sobre a rede de relações empresariais, financeiras e midiáticas montada em torno do filme “Dark Horse”.
Nos bastidores do Partido Liberal, aliados já vinham demonstrando preocupação com as sucessivas contradições públicas envolvendo o caso. Integrantes do partido criticam a falta de coordenação na estratégia de comunicação adotada após os vazamentos.
Enquanto isso, a PF avalia abrir um inquérito específico para investigar o financiamento da produção cinematográfica, incluindo possíveis crimes financeiros, evasão de divisas, lavagem de dinheiro e uso de estruturas offshore para movimentação internacional de recursos.
O caso também chegou ao Tribunal de Contas da União e ao STF, onde o ministro Flávio Dino determinou apurações preliminares sobre possíveis vínculos entre emendas parlamentares e entidades relacionadas à produção do filme.
