A Polícia Federal começou, nesta terça-feira (26), a 8ª fase da Operação Compliance Zero. A ação policial apura um esquema de crimes financeiros, gestão fraudulenta e lavagem de dinheiro que resultou na transferência de aproximadamente R$ 3 bilhões em recursos públicos de aposentadoria para o conglomerado financeiro do banqueiro Daniel Vorcaro durante a gestão de Cláudio Castro (PL) no governo do Rio. O ex-governador do estado é alvo de buscas e apreensão. Leia em TVT News.
O montante bilionário desviado vinha do Rioprevidência, fundo soberano responsável pelo gerenciamento, custeio e pagamento dos benefícios de 235 mil aposentados e pensionistas da administração pública fluminense de Cláudio Castro.
Segundo o relatório preliminar das investigações conduzidas pela Polícia Federal, o patrimônio destinado ao sustento das famílias de servidores inativos foi direcionado de forma irregular por Castro para fundos de investimentos controlados pelo Banco Master, instituição financeira privada que sofreu processo de liquidação judicial.
Ao todo, os policiais federais saíram às ruas para cumprir 10 mandados criminais de busca e apreensão. As ordens de incursão foram expedidas pelo ministro André Mendonça, integrante do Supremo Tribunal Federal (STF), com raio de cumprimento concentrado em pontos estratégicos do estado do Rio de Janeiro e no Distrito Federal.
Buscas na residência de Cláudio Castro
Uma das frentes operacionais da Polícia Federal concentrou-se no endereço residencial de Cláudio Castro, localizado na cobertura de um edifício residencial de alto padrão na Península, subbairro do complexo da Barra da Tijuca, na zona sudoeste do município do Rio de Janeiro.
A equipe de agentes e peritos criminais permaneceu no imóvel por cerca de três horas, efetuando o recolhimento de provas materiais. Os policiais deixaram o condomínio portando dois aparelhos celulares pertencentes ao ex-governador, que serão submetidos à perícia técnica e extração de dados.
O advogado Carlo Luchione, responsável pela coordenação da defesa jurídica de Cláudio Castro, emitiu um comunicado formal à imprensa informando que o ex-governador acompanhou a execução dos mandados de busca e apreensão em seu domicílio com serenidade.
O recolhimento de provas representa a segunda ação de busca e apreensão realizada pela Polícia Federal contra o ex-governador em um intervalo inferior a 15 dias.
No período anterior, os agentes federais cumpriram ordens de busca na mesma residência durante a Operação Sem Refino. Aquela apuração específica apura a prática de fraudes fiscais e sonegação estruturada no âmbito da Refit, empresa petroquímica anteriormente denominada Refinaria de Manguinhos.
Histórico das fases investigativas
A fase atual da Operação Compliance Zero constitui um desdobramento direto das provas e documentos colhidos na Operação Barco de Papel.
Em janeiro, foi descoberto o repasse de R$ 970 milhões saídos dos cofres do Rioprevidência com destino ao Banco Master
A fase inicial ocorreu em janeiro e identificou os primeiros fluxos financeiros considerados atípicos e prejudiciais. O primeiro bloco de auditoria constatou o repasse pela gestão de Castro de R$ 970 milhões saídos dos cofres do Rioprevidência com destino ao Banco Master, transações efetuadas entre os meses de outubro de 2023 e julho de 2024.
Presidente da Rioprevidência foi preso em fevereiro
Como consequência direta dos indícios colhidos na Operação Barco de Papel, o então presidente da autarquia previdenciária estadual, Deivis Marcon Antunes, foi alvo de um mandado de prisão preventiva no início de fevereiro.
A captura do gestor público ocorreu em uma ação conjunta coordenada pela Polícia Federal e pela Polícia Rodoviária Federal na região do Sul Fluminense, momento em que ele já havia sido destituído do comando do órgão de previdência.

Nesta terça-feira, as equipes de captura da Polícia Federal retornaram ao endereço residencial de Deivis, situado no bairro de Botafogo, na zona sul da capital, para o cumprimento de novas ordens de busca e apreensão de documentos adicionais.
A expansão das investigações contábeis permitiu a identificação de um segundo lote de remessas financeiras a partir do segundo semestre de 2024.
Nesta terça, investigação mapeou mais R$ 2,01 bilhões desviados
De acordo com a nota oficial emitida pela corporação, a nova etapa mira aplicações complementares que perfazem o valor de R$ 2,01 bilhões, injetados em carteiras e fundos de investimentos administrados pela mesma casa bancária privada. A consolidação desses dois períodos sob análise contábil resultou no cálculo final de R$ 3 bilhões subtraídos da autarquia pública
Companhia Estadual de Águas e Esgoto do Rio de Janeiro… Deputado acusa desvio de R$ 200 milhões
O deputado Flávio Serafini denunciou ainda que a Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae), empresa pública de saneamento básico, também foi utilizada para injetar recursos na mesma instituição bancária privada, operando remessas adicionais que totalizam R$ 200 milhões.
O cálculo de R$ 3 bilhões apresentado pela Polícia Federal na data de hoje considerou estritamente os recursos originários do fundo de previdência estadual, deixando o balanço financeiro dos investimentos da Cedae fora do somatório dessa fase da operação.
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Os novos dados coletados nos computadores e telefones celulares apreendidos na residência do ex-governador Cláudio Castro e de Deivis Marcon Antunes serão integrados aos autos do processo que tramita sob a relatoria do Supremo Tribunal Federal, com o objetivo de mapear se houve pagamento de vantagens indevidas ou propinas para a facilitação do direcionamento dos recursos da previdência dos trabalhadores fluminenses.
Crimes financeiros envolvendo o Banco Master
A Polícia Federal concentra o escopo dos inquéritos criminais na verificação de práticas que configuram os delitos de gestão fraudulenta de instituição financeira, emissão e circulação de títulos e créditos falsos, além de lavagem de capitais por meio de ocultação de patrimônio público.
O Banco Master, receptor das ordens de depósitos bilionários emitidas pela gestão estadual, teve suas atividades encerradas e passou por processo de liquidação. O controlador da instituição financeira e principal operador do conglomerado empresarial, o banqueiro Daniel Vorcaro, encontra-se preso em regime fechado na cidade de Brasília (DF).
A mecânica do esquema aponta para a colocação do dinheiro dos aposentados em fundos de alto risco de mercado, desprovidos de garantias reais de liquidez ou retorno financeiro para o estado do Rio de Janeiro. A destinação do dinheiro público para o banco privado teria servido para alimentar o caixa do conglomerado financeiro de Vorcaro em diferentes momentos da gestão de Cláudio Castro.
Flávio Bolsonaro pediu R$ 134 milhões ao banco de Vorcaro
Reportagem publicada pelo The Intercept Brasil afirma que o senador Flávio Bolsonaro, que é do mesmo partido de Cláudio Castro, pediu recursos ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme “Dark Horse”, produção biográfica sobre Jair Bolsonaro. Segundo a apuração, mensagens privadas, comprovantes bancários e cronogramas de pagamento indicam uma negociação de US$ 24 milhões — valor que equivalia, à época, a cerca de R$ 134 milhões.
De acordo com o jornal The Intercept, ao menos US$ 10,6 milhões, aproximadamente R$ 61 milhões conforme a cotação do período, teriam sido transferidos entre fevereiro e maio de 2025 em seis operações destinadas ao projeto cinematográfico ligado à família Bolsonaro. Os documentos reunidos pelo site indicariam ainda cobranças por parcelas atrasadas e preocupação com a continuidade da produção.

CPI na Alerj
No parlamento fluminense, as dimensões do desvio orçamentário motivaram a articulação de blocos partidários para a fiscalização política dos atos da autarquia.
O deputado estadual Flávio Serafini, representante do PSOL na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), confirmou a coleta do número necessário de assinaturas de parlamentares para a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI).
A comissão tem como objeto a apuração da cadeia de comando que autorizou os aportes financeiros do Rioprevidência no Banco Master, mas a instalação formal do comitê de investigação ainda não ocorreu no plenário da Casa.
Os dados técnicos apresentados no âmbito das comissões da Alerj detalham a divisão dos aportes governamentais na estrutura do banco liquidado:
- Aportes diretos: R$ 970 milhões foram transferidos de forma direta para contas correntes e títulos de emissão do Banco Master.
- Fundos terceirizados: Cerca de R$ 1,6 bilhão foi aplicado em carteiras de investimentos de fundos privados cuja administração e gestão de ativos ficavam sob a responsabilidade da própria instituição financeira de Daniel Vorcaro.
Os deputados estaduais ressaltaram que uma parcela significativa dessas movimentações de capitais foi realizada de maneira deliberada pela diretoria do Rioprevidência, mesmo após a emissão de relatórios de alerta e acórdãos proibitivos lavrados pelo Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ).
O órgão de controle externo havia emitido uma determinação expressa proibindo os diretores da autarquia de efetuarem novos aportes de recursos no Banco Master, devido aos riscos de insolvência que a instituição privada já apresentava naqueles períodos.

