Lobby empresarial pressiona contra fim da escala 6×1

Presidentes da Câmara e do Senado indicam que não pretendem barrar proposta que reduz jornada para 40 horas semanais sem corte salarial
"Câmara não irá excepcionalizar para atender interesse econômico de nenhum setor”, declarou Motta. Foto: Ricardo Weber/TVT

A ofensiva do empresariado contra a PEC que acaba com a escala 6×1 e reduz a jornada semanal de trabalho de 44 para 40 horas ganhou força nesta semana em Brasília, mas encontrou resistência pública do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, e sinais de que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, não pretende travar a tramitação da proposta no Congresso Nacional. Entenda na TVT News.

A proposta, considerada prioritária pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pelos movimentos sindicais, prevê o fim da escala de seis dias de trabalho para um de descanso, garantindo dois dias de folga semanais e redução gradual da jornada máxima para 40 horas, sem redução salarial.

Nesta terça-feira (26), Alcolumbre recebeu representantes da Confederação Nacional da Indústria e da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo para discutir o texto que já avança na Câmara dos Deputados. O encontro ocorre em meio à crescente pressão do setor empresarial para alterar o cronograma da proposta e evitar que a medida entre em vigor ainda em 2026, ano eleitoral.

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O principal porta-voz da resistência patronal foi o presidente da CNI, Ricardo Alban. Em entrevista ao Canal UOL, Alban classificou como “açodada” a previsão de implementação inicial da redução da jornada em apenas 60 dias após a promulgação da PEC.

Segundo ele, o prazo impediria que empresas reorganizassem suas operações e absorvessem custos sem repassá-los aos preços. O dirigente empresarial afirmou ainda que o debate estaria “contaminado” pelo calendário eleitoral e defendeu que o Senado postergue a discussão para depois das eleições de outubro.

Os argumentos dos empresários contra o fim da escala 6×1

A posição da CNI escancara a estratégia do empresariado de esfriar o debate em um momento de forte apoio popular à redução da jornada. A entidade argumenta que pequenas e médias empresas enfrentariam dificuldades para contratar novos trabalhadores em um cenário de baixo desemprego, o que elevaria gastos com horas extras e pressionaria a inflação.

O lobby empresarial, porém, encontrou resistência explícita no comando da Câmara. Em entrevista à CNN Brasil, Hugo Motta rejeitou uma das principais demandas do setor produtivo: a criação de uma exceção para que horas trabalhadas acima do novo limite semanal, durante a transição, não fossem consideradas horas extras.

“Aquilo que for hora extra, será hora extra. Aquilo que for hora trabalhada, será hora trabalhada”, afirmou o deputado.

O presidente da Câmara endureceu ainda mais o tom ao afirmar que atender à reivindicação empresarial significaria “brincar com a inteligência da classe trabalhadora”.

“A Câmara não irá excepcionalizar para atender interesse econômico de nenhum setor”, declarou Motta, ao defender um equilíbrio entre adaptação econômica e garantia de direitos trabalhistas.

A fala representa um recado direto às entidades empresariais que vinham pressionando parlamentares para flexibilizar o texto relatado pelo deputado Leo Prates.

Pelo acordo costurado entre Hugo Motta e Lula, a proposta prevê redução imediata de duas horas da jornada semanal após 60 dias da promulgação da PEC, passando de 44 para 42 horas. Um ano depois, a jornada cairia definitivamente para 40 horas semanais. O texto também garante dois dias de folga remunerada por semana sem redução de salários.

Nos bastidores, setores empresariais ainda tentam ampliar o período de transição para vários anos. Parte dos deputados ligados ao centrão e à extrema direita chegou a apresentar emendas propondo implementação em até dez anos e até a possibilidade de jornadas superiores às atuais 44 horas semanais.

Mesmo diante da pressão empresarial, aliados de Davi Alcolumbre afirmam que o presidente do Senado não deve criar obstáculos à tramitação da proposta quando ela chegar à Casa. Segundo interlocutores ouvidos pela colunista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, Alcolumbre já teria sinalizado ao governo que não pretende se transformar em empecilho para uma pauta considerada popular e estratégica eleitoralmente.

A avaliação dentro do Senado é que barrar a proposta poderia gerar desgaste político entre parlamentares que disputarão as eleições de outubro e enxergam no fim da escala 6×1 uma bandeira com forte apelo junto à classe trabalhadora.

Ainda assim, governistas mantêm cautela. Integrantes do Planalto consideram o comportamento de Alcolumbre “imprevisível” e observam com atenção a aproximação do senador com representantes da Fiesp e de outros setores empresariais interessados em alongar o prazo de transição ou desacelerar o debate.

Enquanto isso, movimentos sindicais e centrais intensificam mobilizações em várias cidades do país para pressionar deputados e senadores. Atos em defesa do fim da escala 6×1 e da redução da jornada ocorreram no fim de semana e seguem ao longo desta semana, incluindo manifestações em São Paulo, Rio de Janeiro e em Brasília.

As organizações sindicais defendem que a pressão popular foi decisiva em votações recentes no Congresso e pode novamente influenciar parlamentares diante da resistência do empresariado. O governo Lula, por sua vez, trabalha para acelerar a tramitação da PEC ainda antes do período eleitoral, transformando a proposta em uma das principais vitrines sociais da gestão federal.

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