Vorcaro pagou uísque e bife de ouro em festa para Cláudio Castro

Rioprevidência injetou bilhões no Banco Master após mimos de luxo a Cláudio Castro em NY; PF investiga desvio de dinheiro de aposentadoria
Vorcaro convidou Cláudio Castro para degustação milionária de bebidas um dia antiges do ex-governador desviar bilhões da previdência do Rio para o Banco Master – Foto: Foto Lula Marques/Agência Brasil e reprodução

Investigações da Policia Federal (PF), que fundamentaram a oitava fase da Operação Compliance Zero, apontam uma sequência de vantagens indevidas oferecidas pelo banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, ao então governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL). Os episódios envolvem jantares luxuosos e uma degustação milionária de bebidas em Nova York, custeados pelo empresário e sucedidos por aportes bilionários do fundo de previdência estadual na instituição financeira. Leia em TVT News.

Nesta semana, a PF desarticulou um esquema de desvio de dinheiro para aposentadoria do governo de Claúdio Castro para Banco Master de Vorcaro. A ação policial resultou no cumprimento de mandados de busca e apreensão na cobertura onde Castro reside, localizada na Barra da Tijuca, Zona Sudoeste do Rio de Janeiro.

A representação enviada pela Polícia Federal ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça, detalha que os recursos do Rioprevidência, órgão responsável por gerir e pagar as aposentadorias e pensões de 237 mil servidores estaduais do Rio, foram utilizados para injetar um montante total de R$ 3,69 bilhões no Banco Master. Esse valor engloba investimentos governamentais em letras financeiras e em variados fundos estruturados pela instituição de Daniel Vorcaro.

Os investigadores apontam que as transações de dinheiro público ocorreram na esteira de encontros privados e cortesias internacionais que, segundo o relatório da corporação, evidenciam uma “relação espúria” e uma proximidade “para além da institucional” entre o chefe do Executivo e o banqueiro.

Os relatórios apontam que os aportes do fundo previdenciário foram mantidos e ampliados de forma deliberada, ignorando inclusive alertas técnicos sobre o aumento do risco financeiro atrelado àquela instituição bancária.

Degustação de uísque de R$ 5 milhões antecedeu repasse de R$ 80 milhões

De acordo com documentos e dados obtidos por meio de quebra de sigilo telefônico, o episódio de maior impacto financeiro imediato transcorreu no mês de maio de 2024.

Mensagens trocadas por meio do aplicativo WhatsApp revelam que, no dia 14 de maio daquele ano, Daniel Vorcaro acionou o então governador fluminense com um convite exclusivo para um evento restrito em Manhattan, Nova York.

Nas mensagens interceptadas pela Polícia Federal, o banqueiro escreve de forma direta para Cláudio Castro:

“Haverá um evento pequeno. Degustação de whisky”.

Prontamente, Castro responde:

“Que horas e onde?”.

“15:30. Só homens. Serão 10 pessoas apenas”, disse Vorcaro.

“Eu vou”, confirmou Castro.

A apuração policial revelou que o encontro ocorreu no The Carnegie Club, um estabelecimento de alto padrão situado na ilha de Manhattan, reunindo um grupo restrito a apenas 10 participantes. O custo total daquela noite de degustação atingiu a cifra de US$ 1,013 milhão, montante que supera a barreira dos R$ 5 milhões quando efetuada a conversão monetária para o real.

Um dia depois, Castro desvia dinheiro de aposentadoria pública para Banco Master

Os registros de movimentações financeiras do Rioprevidência comprovam que, no dia 15 de maio de 2024, exatamente o dia posterior à degustação do uísque milionário, a autarquia estadual efetuou um aporte imediato de R$ 80 milhões na modalidade de Letras Financeiras emitidas pelo Banco Master.

A investigação detectou que essa operação não foi isolada, sendo sucedida em curto espaço de tempo por mais dois investimentos sequenciais da previdência pública na banca de Vorcaro, nos valores de R$ 80 milhões e R$ 70 milhões, respectivamente.

Bifes folheados a ouro e vinhos de luxo no menu de Manhattan

A rotina de jantares custeados pelo empresário em solo norte-americano vinha sendo mapeada desde o ano anterior.

Em maio de 2023, aproveitando-se da viagem de Cláudio Castro para participar do LIDE Brazil Investment Forum em Nova York, Daniel Vorcaro organizou uma recepção para o político no restaurante Nusr-Et Steakhouse, de propriedade do chef turco Nusret Gökçe, conhecido internacionalmente pelo apelido de Salt Bae. O chef ganhou notoriedade mundial nas plataformas digitais por servir carnes nobres envoltas em folhas de ouro comestíveis e por sua forma performática de temperar os pratos.

No dia 11 de maio de 2023, as conversas indicam uma checagem de identidade por parte do político, que envia apenas o próprio nome: “Cláudio Castro”.

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Cláudio Castro é investigado por desviar R$ 3 bilhões de empresa de previdência para Banco Master. Flávio Bolsonaro e Castro em evento – Reprodução

O proprietário do Banco Master responde com a saudação “opa” e repassa o endereço do local de alta gastronomia. O cruzamento de dados feito pela PF localizou um débito de US$ 13,3 mil efetuado em um dos cartões de crédito pessoais de Daniel Vorcaro, emitido na mesma data e no mesmo estabelecimento. Na cotação cambial daquele período, o jantar custou R$ 66,1 mil aos cofres do banqueiro.

Após desfrutar do banquete, o governador do Rio de Janeiro entrou em contato com o empresário para agradecer:

Deu sim amigo. Muito obrigado”.

Na mesma noite, por volta da meia-noite, Castro reforçou os agradecimentos enviando nova mensagem:

“Amigo, foi uma experiência incrível. Muito obrigado”.

Na manhã seguinte, o político insistiu no contato escrevendo “Bom dia, amigo”, recebendo como resposta de Vorcaro: “Bom dia meu caro. Que bom que deu tudo certo ontem!”.

Os primeiros aportes financeiros do Rioprevidência decorrentes desta aproximação inicial aconteceram em novembro de 2023, somando R$ 40 milhões e, poucos dias depois, mais R$ 80 milhões.

A prática repetiu-se em maio de 2024, novamente durante a ida de Castro ao evento do LIDE em Nova York. Diálogos obtidos por investigadores expõem o banqueiro orientando seu assessor direto, Leo Serrano Giunchetti, a providenciar um tratamento diferenciado para o chefe do Executivo fluminense. O auxiliar avisa ao chefe: “O dono, Salt Bae, está lá e irá na mesa deles”. Daniel Vorcaro responde prontamente: “Show. Pede aquela carne de ouro ou alguma especial pra ele ir”.

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No mesmo diálogo, o assessor Giunchetti envia a imagem do rótulo de um vinho selecionado para a mesa do governador, avaliado no cardápio por US$ 1.250,00 (o equivalente a R$ 6.432,25 na cotação da época). Ao receber o convite formalizado e o endereço do restaurante localizado nas proximidades da Quinta Avenida, Cláudio Castro respondeu textualmente ao banqueiro:

Você não existe”. Buscando demonstrar prestígio, o ex-banqueiro acrescenta: “Bom que o Homem está lá hoje”, recebendo um “Aí sim” do governador fluminense.

A Polícia Federal apurou que o banqueiro fez questão de exigir que a reserva da mesa fosse formalizada em nome de Cláudio Castro, numa tentativa direta de bajulação institucional. O assessor, porém, pontuou que o procedimento não seria possível porque os assentos já haviam sido reservados sob a titularidade do próprio Vorcaro.

O empresário não se sentou à mesa com o político, mas os dados de conexões de redes Wi-Fi e de ERBs (Estações Rádio Base) do celular apreendido confirmam que ele estava na cidade de Nova York no mesmo quadrante geográfico. Ao final do jantar, o assessor confirmou a quitação da despesa: “Já foram. Tudo certo. Conta paga”.

Articulação nos palácios do governo

Os investigadores apuraram que a proximidade entre os personagens se dava também em território nacional, por meio de encontros longe dos olhos públicos. No intervalo entre os repasses financeiros de 2023 e de 2024, Cláudio Castro e Daniel Vorcaro se reuniram na capital paulista, em um jantar promovido na residência particular do banqueiro, situada no bairro do Itaim Bibi. As mensagens de texto recuperadas demonstram o alinhamento prévio de rotas, horários e portaria para viabilizar o encontro de caráter reservado.

Ademais, a Polícia Federal identificou agendas sem registro oficial realizadas no interior das sedes administrativas e residenciais do governo do Rio de Janeiro. Em março de 2024, encontros particulares foram promovidos no Palácio Laranjeiras, residência oficial do governador, e no Palácio Guanabara, sede administrativa do Executivo estadual.

Em um dos trechos contidos na denúncia, Vorcaro pergunta se poderia ver o governador “rapidamente” em solo carioca, obtendo como resposta de Castro uma alteração em sua grade de compromissos oficiais para abrir espaço na agenda e receber o empresário.

A permanência das aplicações de dinheiro público oriundo da previdência dos trabalhadores no Banco Master ocorreu mesmo diante de alertas técnicos formais emitidos por órgãos de fiscalização do estado.

Conforme relatório da corporação policial, a sustentação dos investimentos governamentais mantidos pelo fundo previdenciário “não tem relação com a lisura, estrutura do investimento ou confiança que o Banco Master tinha no mercado”.

A Polícia Federal indicou que a estratégia de aplicação dos ativos mudou após questionamentos formais encaminhados pelo deputado estadual Luiz Paulo junto ao Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ).

A partir da fiscalização do parlamentar, o Banco Master alterou a carteira de produtos fornecidos ao Rioprevidência, transferindo o dinheiro que estava alocado em Letras Financeiras diretamente para a composição de fundos de investimento alternativos.

A apuração também insere no centro do esquema de facilitação o nome do empresário Ricardo Siqueira Rodrigues. Ele é apontado pela Polícia Federal como o operador encarregado de intermediar os contatos e os interesses financeiros de Daniel Vorcaro junto a Cláudio Castro, tendo sido também alvo de mandados judiciais de busca e apreensão na mesma operação de conformidade.

Defesas negam favorecimento e sustentam legalidade técnica

A proximidade revelada nos arquivos eletrônicos contrapõe-se às declarações pretéritas concedidas por Cláudio Castro antes de sua renúncia ao cargo, ocorrida em março passado com o objetivo de disputar uma cadeira no Senado Federal.

O político do PL costumava afirmar que os contatos com o banqueiro limitavam-se a encontros fortuitos em eventos internacionais corporativos, negando veementemente qualquer debate técnico ou deliberação sobre a destinação das reservas do fundo de pensão dos servidores estaduais.

Por intermédio de nota pública emitida por sua assessoria jurídica após a deflagração da busca e apreensão, a defesa de Cláudio Castro negou “de forma categórica” a existência de qualquer “relação pessoal indevida” entre o ex-governador e o ex-CEO do banco.

O texto dos advogados sustenta que todas as interações e contatos mantidos entre as partes restringiram-se a “agendas oficiais e institucionais”. A defesa acrescenta que o ex-governador não praticou qualquer ato de favorecimento ou concessão de vantagens em benefício do Banco Master na gestão da máquina pública estadual.

Por sua vez, a assessoria jurídica e a direção do Banco Master emitiram comunicado oficial no qual reiteram a regularidade de suas atividades corporativas.

A instituição financeira sustenta que todas as operações captadas junto ao Rioprevidência e demais entidades de caráter público ou privado obedeceram de maneira rigorosa aos critérios estritamente técnicos, operacionais e às exigências de legalidade vigentes no mercado financeiro nacional.

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