O presidente Luiz Inácio Lula da Silva embarca na próxima semana para a França com uma missão política e diplomática de grande peso: utilizar a cúpula do G7 para reforçar a defesa do multilateralismo, ampliar a pressão internacional contra o novo tarifaço anunciado pelos Estados Unidos e fortalecer alianças com países europeus em meio ao agravamento das tensões comerciais globais. Saiba mais na TVT News.
Convidado pelo presidente francês Emmanuel Macron, anfitrião do encontro deste ano, Lula participará pela décima vez da reunião que reúne as sete maiores economias industrializadas do planeta. O evento acontece entre os dias 15 e 17 de junho, em Évian-les-Bains, e contará também com a presença do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
A viagem ocorre em um momento delicado para a economia brasileira. O governo norte-americano ameaça impor novas tarifas sobre produtos exportados pelo Brasil, elevando as sobretaxas para até 37,5% em determinados setores. Diante desse cenário, o Planalto pretende transformar a cúpula em uma oportunidade para construir uma articulação internacional contrária ao avanço do protecionismo.
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Defesa do multilateralismo no centro da agenda
Ao confirmar sua presença no encontro, Lula afirmou que decidiu participar da reunião diante do que considera um processo de enfraquecimento das instituições internacionais e da cooperação entre os países.
Segundo auxiliares do presidente, a presença frequente de Lula em fóruns multilaterais faz parte de uma estratégia de reposicionar o Brasil como ator relevante na política internacional e reforçar a imagem do país como defensor da soberania nacional e do diálogo entre as nações.
O presidente deve aproveitar os debates para criticar o que classifica como “desmonte do multilateralismo” e defender a retomada de mecanismos internacionais de cooperação econômica, ambiental e social.
Além das disputas comerciais, Lula também pretende cobrar maior compromisso dos países ricos com o financiamento de políticas de combate à fome, à pobreza e às mudanças climáticas.
O governo brasileiro avalia que os cortes promovidos por países desenvolvidos em programas de ajuda internacional, ao mesmo tempo em que ampliam seus gastos militares, representam uma ameaça aos esforços globais de desenvolvimento sustentável.
Frente internacional contra o tarifaço dos Estados Unidos
O principal objetivo político da viagem, entretanto, será a tentativa de construir uma frente internacional contra as tarifas anunciadas pela gestão Trump.
A estratégia brasileira é dialogar especialmente com França, Alemanha e Reino Unido para buscar apoio em defesa de regras comerciais mais estáveis e previsíveis. A avaliação do governo é que o avanço de medidas unilaterais compromete a segurança econômica global e afeta especialmente países emergentes.
Nos discursos que fará durante a cúpula, Lula deverá argumentar que o protecionismo adotado por Washington contribui para aumentar a instabilidade econômica internacional e enfraquece mecanismos multilaterais construídos ao longo de décadas.
O tema poderá ser inserido no debate sobre os chamados “desequilíbrios macroeconômicos globais”, pauta sugerida pela presidência francesa para discussão entre os participantes do encontro.
Além das tarifas impostas pelos Estados Unidos, o governo brasileiro também pretende abordar as barreiras comerciais recentemente adotadas pela União Europeia contra a carne brasileira. Para o Planalto, tanto as medidas norte-americanas quanto as restrições europeias revelam uma crescente fragilidade das regras internacionais de comércio.
Relação próxima com Macron fortalece posição brasileira no G7
Entre os compromissos bilaterais previstos para Lula, o encontro com Emmanuel Macron é considerado o mais importante.
O presidente francês tem sido um dos principais parceiros internacionais do governo brasileiro desde o retorno de Lula ao Palácio do Planalto. Nos últimos anos, os dois líderes aprofundaram o diálogo sobre temas como preservação ambiental, transição energética, financiamento climático e reforma da governança global.
Embora tenham registrado divergências em alguns momentos — especialmente durante as negociações do acordo entre Mercosul e União Europeia — Lula e Macron mantiveram uma relação política próxima e frequente.
A própria participação brasileira no G7 reflete essa aproximação. Desde a volta de Lula à Presidência, Macron tem insistido na presença do Brasil em grandes fóruns internacionais, defendendo maior participação dos países emergentes nos debates globais.
A expectativa é que a reunião bilateral entre os dois chefes de Estado avance em temas econômicos, ambientais e comerciais, além de reforçar a coordenação política entre Brasília e Paris em organismos multilaterais.
Reunião com Trump perde força nos bastidores
Se o encontro com Macron já está previsto na agenda presidencial, a possibilidade de uma reunião bilateral com Donald Trump parece cada vez mais distante.
Embora o governo brasileiro tenha trabalhado nas últimas semanas para abrir um canal direto de negociação com a Casa Branca, integrantes do primeiro escalão admitem que não há qualquer agenda confirmada entre os dois presidentes.
Nesta quarta-feira (10), o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, afirmou considerar pouco provável a realização de um encontro formal entre Lula e Trump durante a cúpula.
Segundo ele, o formato do evento e o tamanho reduzido da delegação brasileira dificultam a organização de uma reunião bilateral de maior duração.
O ministro da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira, também reconheceu que não existe agenda marcada, embora tenha ponderado que os dois líderes poderão se encontrar informalmente nos espaços de convivência do evento.
Nos bastidores, auxiliares do Planalto avaliam que seria necessário algum fato político novo para justificar uma conversa exclusiva entre os presidentes. A leitura é que uma reunião apenas para repetir discussões já realizadas recentemente teria baixa efetividade diplomática.
Soberania e eleições no horizonte
A participação de Lula no G7 também possui dimensão política interna.
O governo pretende utilizar a atuação internacional do presidente para reforçar o discurso de defesa da soberania nacional diante das pressões exercidas pela administração Trump.
Nos últimos meses, o Palácio do Planalto passou a relacionar diretamente as ameaças tarifárias dos Estados Unidos ao alinhamento político mantido pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com o presidente norte-americano.
A defesa dos interesses nacionais frente às medidas adotadas por Washington tornou-se uma das principais bandeiras do governo e deve ocupar papel central na estratégia de comunicação de Lula para a campanha eleitoral deste ano.
Ao chegar à França, portanto, o presidente brasileiro terá diante de si uma agenda que vai muito além das negociações comerciais. A cúpula do G7 será utilizada como palco para reafirmar a defesa do multilateralismo, buscar apoio internacional contra o protecionismo e consolidar a imagem do Brasil como voz ativa entre os países do Sul Global em um cenário de crescente instabilidade geopolítica.

