Análise da pesquisa Quaest mostra aumento da rejeição ao bolsonarismo

Confira a análise de especialistas em eleições e cientistas políticos sobre a nova pesquisa Quaest
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O presidente Lula melhora entre eleitores independentes, o fiel da balança nas eleições, na aprovação de governo e na intenção de voto no segundo turno, dizem analistas políticos. Foto: Ricardo Stuckert/PR

Os escândalos da oposição impactam o eleitorado independente, influenciando na recuperação do presidente Lula, segundo dados da pesquisa Quaest de junho 2026, publicada nesta quarta-feira, 10.

Essa é opinião de especialistas em eleições e política da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) ouvidos pela reportagem da TVT News. Confira a análise completa da pesquisa.


Os dados da pesquisa Quaest divulgada nesta quarta-feira (10/6), consolidam a liderança de Luiz Inácio Lula da Silva e o recuo de Flávio Bolsonaro nas intenções de voto, rompendo a tendência de empate técnico – Lula abriu seis pontos de vantagem no segundo turno (44% a 38%).

O impacto negativo dos escândalos da oposição sobre o eleitorado independente continua a pesar no ânimo dos eleitores, segundo o levantamento. A virada na intenção de voto, de acordo com os cientistas políticos da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo) Aldo FornazieriBeto VasquesJairo Pimentel e Hilton Fernandes, é resultado da combinação entre os primeiros resultados da atual agenda econômica do governo e as “derrapadas” dos adversários.

A deterioração dos números de Flávio Bolsonaro — cuja rejeição atingiu o pico de 56% — foi agravada pelos episódios recentes envolvendo as gravações do senador com o empresário Daniel Vorcaro.

A viagem aos Estados Unidos antes do anúncio do governo americano de aumento de tarifas para produtos brasileiros, por sua vez, teve um “efeito bumerangue” que abalou a já fragilizada candidatura de Bolsonaro. “Em vez de criar uma nuvem de fumaça sobre o áudio de Vorcaro, reforçaram a percepção de irresponsabilidade política e de custo concreto para o país”, explica Pimentel.

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Reprodução Pesquisa Quaest cenário Lula e Flávio Bolsonaro

Beto Vasques acredita que esse desgaste pode crescer ainda mais nas próximas semanas, tendo em vista que uma parcela expressiva da população ainda está alheia aos escândalos que abalaram a oposição. “Um terço dos eleitores desconhece o caso Dark Horse e quase metade, o tarifaço”, o que significa que o humor do eleitor pode flutuar conforme esses temas ganhem mais capilaridade.

Essa combinação de fatores afetou diretamente os eleitores “independentes” e a “direita não bolsonarista”, segmentos apontados pelos analistas da FESPSP como os fiéis da balança para as eleições. Esses eleitores, que não se identificam como de esquerda (lulista ou não) nem como de direita (bolsonarista ou não), explica Vasques, foram decisivos em 2022 e estão sendo chamados novamente a decidir o pleito.

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Reprodução Pesquisa Quaest

“Lula abriu uma vantagem de 13 pontos entre os eleitores independentes”, diz Fornazieri, consolidando uma migração direta desse eleitorado. Em sua visão, essa melhora está diretamente ligada à eficácia das políticas públicas do Palácio do Planalto.

“O crescimento de Lula se explica pela agenda positiva constituída por 17 medidas, entre as quais: o apoio pelo fim da jornada 6×1, o Desenrola (2.0), o subsídio aos combustíveis e o incentivo à habitação”.

Na análise de Pimentel, “o principal vetor dessa melhora parece estar mais nas derrapadas da oposição do que nas ações do governo”, ajudando Lula a avançar “mais por contraste do que por adesão plena ao governo”.

 Fernandes compartilha da visão de que os dados econômicos, embora importantes, não agem sozinhos: “Ainda que outros fatores tenham colaborado para essa mudança, como as ações do governo na economia para melhorar a percepção do eleitor, a rejeição a Flávio Bolsonaro chega a 56% em junho […] o que indica um possível desgaste na imagem do senador”.

Leia a pesquisa Quaest na íntegra
 

Confira a íntegra das análises dos cientistas políticos da FESPSP sobre a pesquisa Quaest


ALDO FORNAZIERI

Cientista político e coordenador do Curso de Pós-Graduação em Estratégia e Liderança Política da FESPSP 

A síntese da pesquisa Quaest de junho de 2026 para a disputa presidencial pode ser definida da seguinte forma: Lula, lentamente, vai construindo o seu favoritismo. Alguns indicadores sustentam essa tese:


1 – A distância entre Lula e Flávio Bolsonaro nas simulações de segundo turno subiu para 6 pontos (44% x 38%), desempatando o jogo;

2 – Lula abriu uma vantagem de 13 pontos entre os eleitores independentes, segmento que será o fiel da balança da disputa. Passou de 29% para 37% em relação à pesquisa de maio, enquanto Flávio caiu de 31% para 24%. Isso indica que eleitores que votariam em Flávio passaram a declarar intenção de voto em Lula;

3 – As linhas entre os que reprovam e os que aprovam o governo Lula praticamente se tocaram (48% x 47%), tendência que indica que, nas próximas pesquisas, a aprovação deverá ultrapassar a reprovação;

4 – A rejeição de Flávio Bolsonaro subiu dois pontos, atingindo o patamar de 56% e superando a de Lula, que é de 53%.


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Reprodução Pesquisa Quaest

Dois movimentos fundamentam essas mudanças: a queda de Flávio é imposta pelas revelações de sua relação com Daniel Vorcaro e, possivelmente, pelo novo tarifaço anunciado pelo governo Trump logo após ter recebido o candidato do PL.

O crescimento de Lula se explica pela agenda positiva constituída por 17 medidas, entre as quais: o apoio pelo fim da jornada 6×1, o Desenrola (2.0), o subsídio aos combustíveis e o incentivo à habitação.

BETO VASQUES

Analista político e coordenador do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da FESPSP

Mau sinal para Flávio Bolsonaro e boas notícias para Lula. Pelo segundo mês consecutivo, Lula oscila positivamente e Flávio cai. O movimento mais significativo ocorre entre eleitores “independentes” (que não se identificam nem como de esquerda, lulista ou não lulista, nem como de direita, bolsonarista ou não bolsonarista), que foram decisivos em 2022 e estão sendo chamados novamente a decidir as eleições.


O presidente melhora, entre esses eleitores, em sua aprovação de governo e intenção de voto no segundo turno, além de manter estável sua rejeição. Flávio Bolsonaro vê sua rejeição subir e sua intenção de votos cair nesse eleitorado, assim como entre os que se identificam como de “direita não bolsonarista”.


Na simulação de segundo turno, o cenário de empate técnico em abril, com o senador numericamente à frente (42% a 40%), migrou para uma vitória de Lula fora da margem de erro (44% a 38%), a maior diferença entre os candidatos desde fevereiro de 2026.


Má notícia também para Caiado e Zema que, sendo incapazes de marcar distância crítica do discurso de Flávio, veem como Renan dos Santos cresce como alternativa a Lula com críticas ao senador, especialmente entre os “independentes”.


A mudança na percepção do noticiário sobre o Governo Lula também é significativa, chegando ao melhor resultado da série histórica do instituto desde maio de 2025, com variação positiva nos últimos dois meses de 19% e 30% entre o total do eleitorado e os “independentes”, respectivamente.


Por outro lado, o noticiário sobre o episódio Dark Horse e o novo tarifaço dos EUA ao país se mostrou muito desfavorável ao senador. Destaque, uma vez mais, para os “independentes”, que criticam o financiamento do filme, considerando as conversas de Flávio com Vorcaro suspeitas e que indicam que ele esconde algo.

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Pesquisa Quaest investiga “Tariflávio” – Reprodução

Eles também creem que Flávio pediu novas tarifas a Trump e que as ações da Casa Branca respondem antes a uma retaliação ao PIX do que ao governo Lula. Tudo isso considerando um grau ainda elevado de desconhecimento (um terço dos eleitores desconhece o caso Dark Horse e quase metade, o tarifaço).

HILTON FERNANDES

Cientista político e professor do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da FESPSP


Os resultados da pesquisa Quaest confirmam a tendência identificada pelo Datafolha após a divulgação dos áudios entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, com impacto negativo para o candidato do PL e positivo para Lula. A movimentação pode ser vista, em especial, na intenção de voto no segundo turno, em que a diferença passou de 1 para 6 pontos percentuais a favor do atual presidente.


Ainda que outros fatores tenham colaborado para essa mudança, como as ações do governo na economia para melhorar a percepção do eleitor, a rejeição a Flávio Bolsonaro chega a 56% em junho — maior percentual registrado pela Quaest neste ano —, o que indica um possível desgaste na imagem do senador.


A movimentação mais evidente ocorreu entre os eleitores que a Quaest classifica como “independentes”, que se mostraram mais favoráveis a Lula nesta rodada da pesquisa. No entanto, vale destacar o comportamento dos eleitores classificados como “direita não bolsonarista”, que apresentaram uma pequena queda na intenção de voto em Flávio no segundo turno, apesar de terem aumentado a intenção nos demais cenários com candidatos de direita.


Além da queda de Flávio Bolsonaro, o relatório chama a atenção pela confirmação da entrada de Renan Santos no grupo de candidatos alternativos da direita, chegando à terceira posição nas intenções de primeiro turno, empatado com Ronaldo Caiado, e se aproximando do desempenho de Caiado e Romeu Zema no segundo turno.


Uma ressalva deve ser feita ao relatório divulgado pela Quaest hoje: ele mostra uma recuperação da aprovação do governo entre os evangélicos, mas não apresenta os recortes por religião e outros estratos nos resultados de intenção de voto para o segundo turno, que seriam importantes para compreender melhor o comportamento do eleitor.

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Ex-ministras de Lula lideram pesquisas para eleição ao Senado por São Paulo. Foto: Ricardo Stuckert

JAIRO PIMENTEL
Cientista político e professor do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da FESPSP


A pesquisa sugere que Lula mantém uma tendência de melhora, mas sem indicar uma virada substantiva no humor econômico. O governo começa a colher algum efeito de medidas como o Desenrola e a ampliação da isenção do Imposto de Renda, especialmente entre os segmentos de menor renda, mas esses movimentos ainda parecem insuficientes para explicar, sozinhos, a recuperação política do presidente.O principal vetor dessa melhora parece estar mais nas derrapadas da oposição do que nas ações do governo.

A visita de Flávio a Trump e o subsequente anúncio de tarifas contra o Brasil produziram um efeito contrário ao esperado: em vez de criar uma nuvem de fumaça sobre o áudio de Vorcaro, reforçaram a percepção de irresponsabilidade política e de custo concreto para o país. Entre eleitores independentes, isso tende a afastar Flávio como alternativa segura e ajuda Lula a avançar mais por contraste do que por adesão plena ao governo.

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