A Copa do Mundo 2026 já trouxe histórias emocionantes para além dos resultados em campo:. Entre as cenas de destaque estão a remada viking da torcida da Noruega; o torcedor Lumumba nos jogos da República Democrática do Congo, a festa da torcida argentina a cada gol de Messi; os tubarões azuis de Cabo Verde e as lágrimas na execução de cada hino nacional.
O que tudo isso tem em comum é que esses momentos carregam a identidade cultural de cada povo, de cada país.
Há um clichê que ganhou força nos últimos anos: “não é só futebol”. De fato, a Copa do Mundo tem passagens que ultrapassam a competição. A alegria dos caboverdianos na atuação de Vozinha e os noruegueses fazendo a remada viking nas arquibancadas e nas cidades são exemplos de como o futebol é palco da representação da identidade cultural.
Copa do Mundo e identidade cultural
A Copa do Mundo 2026 está conhecida como a Copa da Diáspora por conta do número de jogadores que optaram por defender a seleção dos ascendentes. Ou seja, apesar de nascidos na França ou Holanda, optaram por defender Costa do Marfim ou Curaçao.
Quase metade dos jogadores atuando em seleções africanas na Copa do Mundo de 2026 nasceram em países do continente europeu. A ascendência africana autoriza a dupla nacionalidade que permite a troca, mas as razões da escolha estão relacionadas também a fatores culturais, políticos e sociais.
Embora a presença de jogadores não nascidos na seleção que atuam seja mais pujante no continente africano, elencos de países de outros continentes que disputam a Copa também possuem atletas de origem diversa da nação que defendem. De acordo com dados da FIFA, mais de 250 jogadores convocados para a Copa do Mundo de 2026 jogam por países que não nasceram.
A opção por defender a seleção dos pais ou dos avós pode ser uma decisão mercadológica: o atleta entendeu que não teria espaço na seleção do país em que nasceu e, para realizar o sonho de jogar a Copa, opta por outra nacionalidade.

Mas, não deixa de ser bonito ver os jogadores como Guéla Doué defender a Costa do Marfim e Iñaki Williams com as cores de Gana. E se emocionarem com os hinos nacionais, mesmo com os irmãos nas seleções adversárias (no caso, França e Espanha, nas quais os irmãos são destaques).
Pelé dizia que até 2030, uma seleção africana seria campeã do mundo. A hipótese de Pelé quase bateu na trave com Marrocos, em 2022 e será cada vez mais provável quanto maior for esse processo de nacionalização desses craques espalhados pelo mundo, vítimas dos processos de deslocamento forçado
Histórico colonial, imperialismo, migrações e laços familiares são as principais causas da escolha por defender países que não são o de nascimento dos jogadores
Das 10 seleções africanas que disputam a Copa 2026, apenas a África do Sul não possui atletas no elenco que nasceram fora do país. República Democrática do Congo e Marrocos, por outro lado, são os times africanos com mais jogadores nascidos fora do país. Vinte atletas do Congo e 19 de Marrocos nasceram em países europeus, 31 desses jogadores vieram da França, da Espanha e da Bélgica.
Não por acaso, esses três países forneceram tantos atletas aos países africanos. A partir da segunda metade do século XIX, países europeus intensificaram um processo de expansão territorial em busca de novos mercados e de matérias primas para suas indústrias. O continente africano foi o principal alvo das nações europeias. Visando minimizar conflitos e atender as ambições coloniais, praticamente toda a África foi dividida e partilhada entre as principais potências europeias do período.
França e Espanha controlaram Marrocos de 1912 a 1956. O Congo talvez seja o exemplo mais acintoso da violência da colonização. Em 1885, o rei Leopoldo II da Bélgica tomou posse e declarou o território congolês como propriedade particular. A brutalidade do regime colonial belga cuja tortura era pratica corriqueira, foi reconhecida em 2010 pelo atual monarca belga, Felipe. A independência da República Democrática do Congo foi reconhecida em 1960.

A ascendência africana de jogadores de futebol nascidos em países europeus relaciona-se ao passado imperialista da Europa. No processo de exploração das colônias e das pessoas que lá viviam, houve fluxos e miscigenação. Com a independência dos países africanos, a partir da segunda metade do século XX, ondas migratórias mantiveram o fluxo de africanos para a Europa.
Um exemplo fora da África da influência do histórico colonial na determinação da naturalidade de jogadores pertencentes a seleções de países que foram colônias é Curaçao. O país antilhano localizado no sul do mar do Caribe, foi conquistado pela Holanda no século XVII, obtendo independência limitada apenas em 2010. Atualmente, Curaçau é parte do Reino dos Países Baixos. Todos os 26 jogadores de Curaçao nasceram na Holanda.
A remada viking
A remada viking viralizou. Literalmente. As redes sociais compartilham imagens de crianças nas escolas, enfermeiras nos hospitais, idosos e outros torcedores fazendo a remada viking.
A Remada Viking é uma comemoração coreografada criada pela torcida da Noruega. Nela, os torcedores sentam-se lado a lado, em fileiras, e movem os braços em uníssono simulando o ato de remar em um antigo navio viking, acompanhados por um tambor que acelera o ritmo progressivamente.

Origem da remada viking
O movimento é uma homenagem direta aos antigos navegadores e guerreiros nórdicos que desbravaram os mares entre os séculos VIII e XI, sendo um dos maiores símbolos históricos e culturais da Noruega.
A remada ficou mundialmente famosa e se tornou a grande sensação durante os jogos da seleção norueguesa, transbordando das arquibancadas para as ruas, calçadas, escadas rolantes e até mesmo para dentro do parlamento do país.
A quarta estrela da torcida argentina
Os argentinos são fanáticos torcedores e as canções das arquibancadas se tornaram famosas não só nas Copas, mas nos torneios continentais.
Na Copa 2026, para embalar os feitos históricos de Messi – que já se tornou o maior artilheiro da história das Copas e segue acumulando recordes – a torcida argentina trouxe a canção Cuarta Estrella, a quarta estrela, cantada a plenos pulmões nas arquibancadas e pelas ruas dos EUA.

Torcedores da Argentina cantando Cuarta Estrella
A letra tem algo muito especial: a referência ao amor pela Argentina e cita, até, a guerra das Malvinas.
Confira a letra de Cuarta Estrella
Soy hincha de la selección,
La aliento con el corazón,
Ganamos la tercera con Lionel,
Queremos ser campeones otra vez,
Y 32 años después,
La Scaloneta va a vengar,
La Copa que le robaron al diez,
La que no nos dejaron levantar,
Quiero ver la cuarta estrella,
Brillar en la camiseta,
Soy argento de la cuna hasta el cajón,
Por Malvinas,
Por el Diego,
Por la última de Leo,
Argentina quiero verte bicampeón.
Veja o clipe oficial da música da torcida argentina
Lumumba e a luta anticolonial nas arquibancadas da Copa do Mundo
A história do torcedor que se transformou em um dos maiores símbolos das arquibancadas da República Democrática do Congo une a paixão pelo futebol, a performance artística e um profundo manifesto anticolonial.
O nome dele é Michel Nkuka Mboladinga (amplamente conhecido nas redes e estádios como “Lumumba Vea”). Ele ganhou notoriedade internacional ao incorporar e homenagear o herói nacional e mártir pan-africanista Patrice Lumumba.
O torcedor estátua
O que torna Michel um ícone visual inconfundível é a sua impressionante capacidade de permanecer completamente imóvel durante os 90 minutos de jogo.
- A Pose: ele estende o braço direito para o alto e fixa o olhar, reproduzindo milimetricamente a postura da famosa estátua de Patrice Lumumba instalada em Kinshasa, capital da RD do Congo.
- Ao abdicar de pular, gritar ou comemorar, Mboladinga desloca o espaço da arquibancada do puro entretenimento para o campo da identidade e da memória histórica.
Quem foi Patrice Lumumba?
Para entender o impacto do torcedor, é preciso lembrar a figura que ele encarna. Patrice Lumumba foi um líder revolucionário e o primeiro-ministro eleito democraticamente na RD do Congo após a independência do domínio belga, em 1960.
Famoso por seu discurso histórico de independência — no qual denunciou de forma veemente as crueldades, o racismo e a exploração sangrenta impostos pela colonização da Bélgica —, Lumumba defendia o pan-africanismo e o controle absoluto das imensas riquezas minerais do país em benefício do próprio povo congolês. Alvo do contexto da Guerra Fria, ele foi deposto, preso e brutalmente assassinado em 1961, em uma operação que contou com a cumplicidade de autoridades belgas e norte-americanas.
Cabo Verde é a segunda seleção dos brasileiros na Copa 2026
Os brasileiros já escolheram a segunda seleção para torcer na Copa do Mundo: os tubarões azuis de Cabo Verde.
Com Vozinha no gol, a seleção de Cabo Verde segurou a poderosa Espanha e conquistou o primeiro ponto em mundiais. E logo na estreia. O Brasil abraçou a seleção caboverdiana e se encantou com a dedicação dos jogadores. Eles viveram um sonho e os brasileiros foram com eles.
No segundo, jogo, marcaram o primeiro (o segundo) gol em Copas e conquistaram mais um heroico ponto. E seguem no sonho.
O goleiro Vozinha se tornou herói da seleção nacional, ídolo dos brasileiros e um dos grandes nomes da Copa. Uma campanha organizada por um dos canais que transmite os jogos da Copa levou o jogador de 50 mil para mais de 15 milhões de seguidores.
Cabo Verde é uma nação que poucos brasileiros conheciam, apesar da gigante proximidade cultural. Ambos falamos a Língua Portuguesa e sofremos para conquistar nosso lugar ao sol, apesar das marcas da colonização.
Qual a história de Cabo Verde
Cabo Verde, arquipélago localizado na costa oeste da África, foi colonizado por Portugal no século XV. Com a chegada doos portugueses, o idioma se instalou desde o início como língua oficial e administrativa. Com o passar do tempo, o português se misturou às línguas e culturas africanas trazidas pelos povos escravizados, dando origem ao crioulo cabo-verdiano, uma língua própria, com base no português, mas com estrutura e sonoridade africanas.
Durante o período colonial, o português era a língua da elite e do ensino formal, enquanto o crioulo predominava nas comunidades populares. Após a independência de Cabo Verde em 1975, o país manteve o português como idioma oficial, em respeito à sua importância histórica e como símbolo de integração no espaço lusófono.

O que é diáspora
Diáspora significa a dispersão ou o deslocamento de um povo de sua terra natal para outras regiões, geralmente provocado por perseguições, guerras, crises econômicas ou tragédias.
O termo tem origem no grego diasporá (que significa “dispersão” ou “semeadura”) e é usado para descrever os seguintes fenômenos históricos:
- Diáspora Africana: A migração forçada de milhões de africanos durante o período do tráfico de escravizados, que espalhou sua cultura, religião e costumes pelo mundo, com forte impacto no Brasil. [1, 2]
- Diásporas Modernas: Outros grandes fluxos migratórios motivados por razões geopolíticas, como as diásporas síria, armênia, chinesa ou a brasileira (emigração para outros países por motivos econômicos).
O que é identidade cultural
A identidade cultural é o conjunto de valores, tradições, crenças, símbolos, linguagem e comportamentos que formam o senso de pertencimento de um indivíduo ou grupo a uma sociedade. É a “lente” através da qual a pessoa enxerga o mundo e constrói sua autoimagem.
Elementos que compõem a identidade cultural
- Tradições e rituais: festas, culinária, vestuário e ritos religiosos passados de geração em geração.
- História: o passado histórico de um povo e a sua ligação com um território.
- Etnia e território: características étnicas e a relação com o espaço geográfico
- Idioma e dialeto: a forma como a língua é falada e os sotaques locais.
Línguas mais faladas na Copa do Mundo 2026: espanhol, árabe e inglês lideram
As línguas mais faladas na Copa do Mundo 2026 revelam a diversidade dos 48 países classificados para o torneio disputado nos Estados Unidos, México e Canadá.
A lista de seleções reúne idiomas de quatro continentes — do guarani indígena do Paraguai ao uzbeque da Ásia Central — em um mapa linguístico que marcam a identidade e da história das 48 nações.
A liderança de idiomas de origem europeia, como inglês, francês e espanhol é sinal dos processos de colonização e imperialismo de Espanha, Inglaterra e Portugal (o português está presente em países de 3 continentes na Copa do Mundo).
Por outro lado, também mostra a expansão do império árabe, que da península arábica, chegou até o norte da África.
Línguas Mais Faladas na Copa do Mundo 2026
O domínio do Inglês, Espanhol, Francês e Árabe
O Inglês lidera o ranking de forma isolada, sendo a língua oficial ou principal de comunicação em 9 dos 48 países participantes. Nações de continentes distintos, como Austrália, Gana, Estados Unidos e África do Sul, compartilham o idioma.
Logo na sequência, três gigantes dividem a segunda posição. O Espanhol, impulsionado pela forte presença na América Latina, o Francês, resultado da colonização francesa na América Latina e na A´frica, e o Árabe, representando a força do mundo árabe que se expandiu do Oriente Médio para o norte da África, marcam presença em 8 países cada.
O Português está representado em três continentes diferentes: na América do Sul com o Brasil, na Europa com Portugal e na África com Cabo Verde.
Ranking das Línguas Mais Faladas na Copa
Considerando o status de língua oficial ou o idioma majoritário de comunicação de cada nação classificada, este é o ranking dos idiomas mais presentes na Copa do Mundo da FIFA 2026:
| Posição | Idioma | Número de Países | Países Representantes |
| 1º | Inglês | 9 | África do Sul, Canadá, Escócia, Estados Unidos, Austrália, Curaçao, Nova Zelândia, Inglaterra, Gana |
| 2º | Espanhol | 8 | México, Paraguai, Equador, Espanha, Uruguai, Argentina, Colômbia, Panamá |
| 2º | Francês | 8 | Canadá, Suíça, Haiti, Costa do Marfim, Bélgica, França, Senegal, RD Congo |
| 2º | Árabe | 8 | Catar, Marrocos, Tunísia, Egito, Arábia Saudita, Iraque, Argélia, Jordânia |
| 5º | Alemão | 4 | Suíça, Alemanha, Bélgica, Áustria |
| 6º | Holandês | 3 | Curaçao, Holanda, Bélgica |
| 6º | Português | 3 | Brasil, Cabo Verde, Portugal |
| 8º | Croata | 2 | Bósnia, Croácia |
Em países com mais de um idioma oficial, foi considerado o idioma predominante na comunicação nacional.
** Com colaboração do estagiário Rafael Sampaio, sob supervisão de Alexandre Barbosa

