Eutanásia: parlamento da França aprova lei sobre morte assistida

"Em 2022, assumi o compromisso de abrir esse caminho com os franceses", escreveu Macron após o Parlamento aprovar a lei da eutanásia
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O deputado Frédéric Valletoux, do partido Horizons & Independentes e presidente da Comissão de Assuntos Sociais, chega para discursar aos parlamentares durante a sessão de votação do projeto de lei sobre a morte assistida na Assembleia Nacional, a Câmara Baixa do Parlamento francês, em Paris, em 15 de julho de 2026 – STEPHANE DE SAKUTIN / AFP

A França deu nesta quarta-feira mais um passo para integrar o grupo de países que garantem o direito à morte assistida para adultos que sofrem de doenças incuráveis, a eutanásia, medida defendida pelo presidente Emmanuel Macron. Leia em TVT News.

Macron havia prometido aprovar a eutanásia em uma legislação desse tipo ao ser reeleito para um segundo mandato, em 2022. A iniciativa é considerada uma das reformas sociais mais importantes desde a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo, em 2012.

Se o Conselho Constitucional — a mais alta autoridade constitucional do país — validar a legislação, a França se juntará a Holanda, Bélgica, Suíça e Canadá, que já legalizaram a eutanásia.

“Em 2022, assumi o compromisso de abrir esse caminho com os franceses”, escreveu Macron na rede X.

“Com seriedade, humildade e pleno respeito à nossa democracia, esse compromisso foi cumprido.”

A nova lei estabelece o direito à morte assistida para alguns adultos com doenças incuráveis.

Para ter acesso ao procedimento de eutanásia, o paciente deve:

  • ser capaz de manifestar sua vontade de forma livre e esclarecida;
  • sofrer dores físicas;
  • ter dores que não respondam aos tratamentos disponíveis ou que sejam consideradas insuportáveis pelo próprio paciente, desde que ele tenha decidido não iniciar ou interromper o tratamento.

Um médico será responsável por verificar se o paciente atende aos critérios legais. Em seguida, um grupo de especialistas avaliará o caso.

A decisão final caberá ao médico, e o paciente poderá retirar seu consentimento a qualquer momento.

Como regra, o próprio paciente administrará a substância letal. Exceções serão permitidas quando ele não tiver condições físicas para fazê-lo, podendo receber auxílio de um profissional de saúde.

Eutanásia legalizada na França: “Momento histórico”

Jonathan Denis, da Associação pelo Direito de Morrer com Dignidade, afirmou que ainda há outras batalhas a serem travadas, mas classificou a aprovação da eutanásia como “um momento histórico“.

Os parlamentares aplaudiram o autor da proposta, Olivier Falorni — ex-deputado e atual prefeito —, após anos de debates no Parlamento.

“Muitos pacientes morreram antes de terem acesso a esse direito. Meus pensamentos estão com eles, seus entes queridos e suas famílias”, declarou Falorni à Assembleia Nacional.

Embora o projeto da eutanásia tenha sido aprovado com facilidade na Câmara Baixa, ele havia sido rejeitado pelo Senado. Com base na Constituição, o governo decidiu conceder a palavra final à Assembleia Nacional, sem necessidade da aprovação dos senadores.

O primeiro-ministro Sébastien Lecornu solicitou ao Conselho Constitucional que analise a nova legislação.

Segundo seu gabinete, o pedido foi feito porque a ausência de um debate aprofundado no Senado, de maioria conservadora, fez com que o texto final não atendesse plenamente às expectativas dos defensores da proposta nem às preocupações de seus críticos.

As decisões do Conselho Constitucional são definitivas e vinculantes. Em casos extremos, o órgão pode declarar toda a lei inconstitucional ou impor restrições a determinados dispositivos.

Importantes lideranças do partido conservador Republicanos, que domina o Senado, como seu presidente Gérard Larcher e o ex-ministro do Interior Bruno Retailleau, se opuseram firmemente à proposta.

Eutanásia: “Diabólica”

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Manifestantes participam de um ato contra a eutanásia e a morte assistida nas proximidades da Assembleia Nacional da França, em Paris, em 15 de julho de 2026 – Foto por DIMITAR DILKOFF / AFP

Brigitte Liso, deputada do partido centrista Renascimento, de Macron, afirmou sentir orgulho por participar da aprovação da lei.

“Tenho orgulho porque um dia poderei dizer aos meus netos: ‘Eu estava lá'”, declarou.

Já a deputada conservadora Justine Gruet afirmou que a data ficará marcada como “o dia em que o Parlamento francês decidiu que uma vida humana poderia ser encerrada legalmente“.

“A história nos julgará”, acrescentou.

Depois de legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo em 2012, a França tornou-se, em 2024, o primeiro país do mundo a incluir o direito ao aborto em sua Constituição.

Do lado de fora do Parlamento, Emmanuel Delhoume, sacerdote da Igreja Ortodoxa, participou dos protestos contra a proposta.

“Não posso aprovar nem o aborto, nem o casamento para todos, nem a eutanásia”, declarou à AFP.

“É uma cadeia diabólica de acontecimentos.”

Igreja da França lamenta “grave ruptura na história do país”

A aprovação da lei da ajuda para morrer, a eutanásia, representa “uma grave ruptura na história do nosso país“, lamentaram nesta quarta-feira representantes da Igreja Católica da França, entre eles o presidente da Conferência dos Bispos da França, Jean-Marc Aveline.

“Os efeitos de uma legislação como essa ainda não podem ser plenamente medidos, mas já começam a se desenhar. Nossa relação com a vulnerabilidade, a velhice, a deficiência e a doença mudará”, afirmaram em nota divulgada logo após a aprovação do texto pelos deputados”.

* Com informações da AFP

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