Poucos cineastas contemporâneos teriam condições de assumir o desafio de adaptar A Odisseia, um dos textos fundadores da literatura ocidental. Menos ainda conseguiriam fazê-lo sem reduzir a epopeia de Homero a um simples espetáculo de efeitos especiais ou a um blockbuster de fantasia. Christopher Nolan, vencedor do Oscar por Oppenheimer, demonstra que pertence a esse grupo raro. Saiba mais na TVT News.
Seu novo longa-metragem, que estreou nesta quinta-feira (16) nos cinemas brasileiros, é ao mesmo tempo uma superprodução de aproximadamente US$ 250 milhões e uma reflexão profundamente humana sobre guerra, culpa, memória, poder e sobrevivência.
O filme acompanha a longa jornada de Odisseu (Ulisses, na tradição latina), interpretado por Matt Damon, tentando retornar ao reino de Ítaca após dez anos lutando na Guerra de Troia. Entre monstros, deuses, tempestades, sereias, ciclopes e feiticeiras, Nolan preserva aquilo que tornou o poema imortal: a aventura exterior é também uma viagem interior.
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Para o jornalista e crítico de cinema Luiz Zanin, que comentou o lançamento no Jornal TVT News Primeira Edição, trata-se de uma das maiores experiências cinematográficas dos últimos anos.
Zanin lembra que Nolan já vinha de uma sequência impressionante de obras como Dunkirk e Oppenheimer, nas quais demonstrou domínio absoluto da linguagem cinematográfica. Segundo ele, a adaptação de A Odisseia leva essa maturidade artística ao limite.
“O filme convoca toda a potencialidade do cinema”, afirmou o crítico, destacando o uso das câmeras IMAX de 70 mm, a fotografia monumental, o desenho de som e a trilha composta por Ludwig Göransson como elementos fundamentais da experiência.
Por que ‘A Odisseia’ continua atual quase três mil anos depois
Mais do que um filme para ser visto, A Odisseia é um filme para ser vivido dentro da sala de cinema.
Essa talvez seja sua maior qualidade.
Nolan entende que determinadas histórias exigem escala. Sua adaptação jamais seria a mesma em uma televisão ou em uma plataforma de streaming. O impacto da fotografia assinada por Hoyte van Hoytema, os enquadramentos gigantescos, o uso integral da película IMAX e o desenho sonoro transformam cada batalha, cada tempestade e cada encontro sobrenatural em uma experiência física.

Ao contrário de muitas superproduções recentes, Nolan prefere locações reais, embarcações construídas em tamanho natural e efeitos práticos sempre que possível. Essa escolha produz uma sensação rara de autenticidade, mesmo quando a narrativa mergulha completamente na mitologia.
Mas reduzir A Odisseia à excelência técnica seria cometer uma injustiça.
O verdadeiro mérito do filme está na maneira como ele compreende o espírito do poema atribuído a Homero. Como lembram historiadores e especialistas em literatura clássica, a obra atravessou cerca de 2.700 anos justamente porque nunca deixou de ser reinterpretada. Nolan compreende essa tradição e realiza uma adaptação que respeita o texto original sem transformá-lo em peça de museu.
Crítica: fotografia em IMAX, som e direção fazem do filme uma experiência única
O aspecto técnico impressiona desde os primeiros minutos. Filmado integralmente com câmeras IMAX, em um processo inédito para um longa dessa dimensão, o filme leva às últimas consequências a busca de Nolan por imagens de enorme definição e profundidade.
A fotografia de Hoyte van Hoytema transforma paisagens da Grécia, Marrocos, Itália, Escócia e Islândia em cenários de beleza monumental. A trilha sonora de Ludwig Göransson amplia a sensação épica sem sufocar os momentos de introspecção do protagonista.
O desenho de som merece destaque especial. As tempestades, o rugido do mar, os urros do ciclope Polifemo e o inquietante canto das sereias produzem uma imersão que dificilmente pode ser reproduzida fora da sala de cinema.
Como observou Luiz Zanin, trata-se de um filme pensado para a tela grande. Mesmo quem não conseguir assisti-lo em uma sala IMAX encontrará uma experiência audiovisual rara na produção hollywoodiana contemporânea.
Odisseu é um herói imperfeito, inteligente e marcado pela culpa

Odisseu jamais foi um herói convencional.
Sua principal arma nunca foi a força física, mas a inteligência.
Foi ele quem idealizou o famoso Cavalo de Troia. É ele quem derrota o ciclope Polifemo usando a astúcia. É ele quem ordena que seus marinheiros tampem os ouvidos com cera enquanto pede para ser amarrado ao mastro apenas para ouvir o irresistível canto das sereias sem sucumbir à tentação.
Como destacou Luiz Zanin, trata-se de um personagem profundamente humano: curioso, contraditório, imperfeito e permanentemente dividido entre prudência e desejo.
Nolan amplia ainda mais essa dimensão psicológica ao apresentar um Odisseu traumatizado pelo massacre cometido em Troia.
A vitória dos gregos deixa de ser glorificada para tornar-se um peso moral.
O protagonista carrega a culpa pelo extermínio de homens, mulheres e crianças, transformando sua viagem de retorno também em uma busca por redenção.
Filme estabelece paralelos entre Guerra de Troia, genocídio e mundo contemporâneo
É justamente nesse ponto que A Odisseia ultrapassa o entretenimento.
Durante sua participação na TVT News, Luiz Zanin chamou atenção para a dimensão política da adaptação.
Segundo ele, Nolan evidencia que a destruição de Troia configura um verdadeiro genocídio. Não se trata apenas da conquista militar de uma cidade, mas da eliminação sistemática de um povo inteiro.
Essa culpa acompanha Odisseu durante toda a narrativa.
O paralelo com conflitos contemporâneos surge naturalmente.
O filme convida o espectador a refletir sobre guerras, massacres de civis, deslocamentos populacionais e violência contra povos inteiros.
Outro elemento ressaltado por Zanin é a lei da hospitalidade de Zeus. Na tradição grega, receber o estrangeiro era um dever sagrado. Hostilizá-lo significava romper a ordem moral.
Em um mundo marcado pelo crescimento da xenofobia, pela perseguição a migrantes e pela crise global dos refugiados, Nolan recupera um princípio ético formulado há quase três mil anos e demonstra sua impressionante atualidade.
As personagens femininas moldam toda a jornada de Odisseu
Embora a epopeia acompanhe o retorno de Odisseu, são as mulheres que frequentemente determinam os rumos da narrativa.
Penélope (Anne Hathaway) deixa de ser apenas a esposa que espera o marido e aparece como uma figura politicamente habilidosa, capaz de preservar o reino durante anos utilizando inteligência e estratégia.
Atena (Zendaya) atua como a grande conselheira do herói, simbolizando sabedoria e racionalidade.
Circe (Samantha Morton), Calipso (Charlize Theron) e as sereias representam diferentes formas de sedução, conhecimento e poder. Elas desafiam Odisseu constantemente, obrigando-o a enfrentar tanto monstros exteriores quanto seus próprios limites.
Nolan preserva essa riqueza simbólica sem reduzir essas personagens a simples interesses românticos ou obstáculos narrativos.
Adaptação respeita Homero sem abrir mão da linguagem contemporânea
Antes mesmo da estreia, o filme foi alvo de críticas nas redes sociais por escolhas de elenco, figurino e representação dos personagens mitológicos.
Essas discussões ignoram um aspecto essencial das grandes adaptações literárias.
Nenhuma obra atravessa quase três mil anos permanecendo inalterada.
Especialistas em adaptação lembram que fidelidade absoluta é impossível. O verdadeiro desafio consiste em preservar o espírito da obra original enquanto ela dialoga com o público de seu tempo.
Nolan compreende perfeitamente esse princípio.
Sua A Odisseia permanece profundamente homérica sem abrir mão de sua identidade autoral.
Vale a pena assistir ‘A Odisseia’?
Naturalmente, existem pequenas limitações.
Matt Damon entrega uma atuação segura, embora sua personalidade cinematográfica permaneça bastante reconhecível. Alguns diálogos assumem um tom excessivamente teatral e o grande número de estrelas às vezes dificulta uma imersão ainda maior.
Por outro lado, Robert Pattinson oferece uma das melhores interpretações do filme como Antínoo, enquanto Tom Holland surpreende ao construir um Telêmaco emocionalmente complexo e muito mais maduro do que aparenta à primeira vista.
No conjunto, porém, as qualidades superam amplamente quaisquer pequenas ressalvas.
Fotografia, montagem, direção de arte, desenho de som e trilha sonora alcançam um nível raramente visto no cinema comercial contemporâneo.
Não por acaso, A Odisseia estreou com aprovação quase unânime da crítica internacional e já figura entre os filmes mais elogiados da carreira de Christopher Nolan.
Mais importante, porém, é perceber que Nolan realiza algo extremamente raro: transforma um dos maiores monumentos da literatura mundial em uma obra cinematográfica grandiosa sem abrir mão de sua densidade ética, filosófica e política.
Como sintetizou Luiz Zanin, trata-se da “aventura das aventuras”. Mas é também uma reflexão sobre culpa, guerra, inteligência, hospitalidade, poder e humanidade.
Três mil anos depois de Homero, a viagem de Odisseu continua perguntando às sociedades contemporâneas que tipo de vitória realmente merece ser celebrada. E Christopher Nolan responde com um filme que honra a tradição do épico sem perder de vista os dilemas do presente.

