Demissão de maestro do Theatro Municipal gera indignação

Maestro Daniel Cornejo é demitido do Theatro Municipal; segundo o GGN, caso amplia denúncias de perseguição e precarização
Maestro Daniel Cornejo, regente da Orquestra Sinfônica Infantojuvenil (OSIJ) da Escola Municipal de Música de São Paulo (EMM), com seus alunos. Foto: Divulgação

A demissão do maestro chileno Daniel Cornejo do comando da Orquestra Sinfônica Infantojuvenil (OSIJ), ligada à Escola Municipal de Música (EMM), desencadeou uma nova onda de críticas à gestão da Fundação Theatro Municipal de São Paulo. Leia em TVT News.

Segundo apurou Tatiane Correia do GGN, a dispensa ocorreu por e-mail, sem aviso prévio e sem apresentação de justificativa técnica, reacendendo denúncias de perseguição política, censura, precarização das relações de trabalho e problemas administrativos na instituição.

Cornejo é considerado um dos principais nomes da formação musical voltada para crianças e adolescentes em São Paulo. Com mais de três décadas de atuação como músico e duas décadas dedicadas à regência, construiu uma trajetória ligada ao ensino coletivo e à formação de jovens instrumentistas. Sua saída mobilizou estudantes, famílias, professores e especialistas em educação musical, que passaram a questionar os critérios adotados pela administração do Theatro Municipal.

Desgaste entre trabalhadores do Theatro Municipal e a direção

Integrantes da comunidade artística enxergam a demissão como mais um episódio de um processo de desgaste entre trabalhadores da instituição e a direção da Fundação Theatro Municipal, presidida por Abraão Mafra de Oliveira Lopes. A avaliação é de que o desligamento ultrapassa uma decisão administrativa e está inserido em um ambiente marcado por conflitos internos e denúncias envolvendo liberdade de expressão e relações de trabalho.

Os indícios de perseguição política no Theatro Municipal são associados ao histórico de atuação de Daniel Cornejo dentro da Escola Municipal de Música. Em 2019, quando a Secretaria Municipal de Cultura apresentou um edital que previa mudanças na estrutura da escola, incluindo cortes que poderiam levar ao encerramento da Orquestra Sinfônica Infantojuvenil, alterações no curso de Cravo e restrições para ingresso de novos alunos, o maestro participou da mobilização de pais, estudantes e professores contra as medidas.

A articulação conseguiu barrar parte das propostas, preservando projetos considerados importantes para a formação musical pública da capital paulista. Desde então, segundo relatos reunidos pelo GGN, Cornejo passou a ser identificado como uma liderança entre os profissionais da instituição.

Luna Zarattini vai ao MP denunciar contratos de trabalho da Fundação Theatro Municipal

Em abril de 2026, a vereadora Luna Zarattini (PT) encaminhou as denúncias ao Ministério Público do Trabalho (MPT). O documento questiona cláusulas inseridas nos contratos firmados pela Fundação Theatro Municipal que proibiriam professores, assistentes e oficineiros de promover reuniões presenciais ou virtuais para discutir assuntos administrativos, pedagógicos ou institucionais.

Segundo a denúncia, a chamada cláusula 6.11 prevê sanções aos trabalhadores que participarem desse tipo de encontro, sendo apontada como uma restrição à liberdade de organização e manifestação dos profissionais da escola.

A inclusão dessa cláusula teria ocorrido mesmo após um acordo firmado entre a Fundação e o Ministério Público do Trabalho em 2024. Na ocasião, o órgão havia determinado alterações na redação por entender que o texto contrariava garantias previstas na Constituição Federal relacionadas à liberdade de expressão, organização sindical e manifestação coletiva.

Ambiente de intimidação contra trabalhadores

Para críticos da atual gestão do Theatro Municipal, a manutenção da regra reforça a percepção de um ambiente de intimidação contra trabalhadores que questionam decisões administrativas ou participam de mobilizações internas.

Outro ponto destacado pelas denúncias envolve o tratamento dado a manifestações consideradas de caráter político. Enquanto eventos foram cancelados sob o argumento de apresentarem conteúdo político, opositores da administração afirmam que outros atos com viés semelhante receberam autorização para utilização do espaço público, o que alimenta acusações de tratamento desigual.

A situação de Cornejo também reacendeu discussões sobre a forma de contratação de profissionais ligados ao complexo cultural. Segundo apurou o GGN, grande parte dos músicos, professores e técnicos atua há muitos anos sob contratos de prestação de serviços, mesmo exercendo atividades permanentes e subordinadas à instituição.

Especialistas ouvidos pelo portal afirmam que esse modelo reduz a proteção trabalhista, já que muitos profissionais permanecem sem garantias como Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), estabilidade e outros direitos assegurados pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Na avaliação dos denunciantes, essa estrutura amplia a vulnerabilidade dos trabalhadores diante de desligamentos considerados arbitrários.

No caso de Daniel Cornejo, a demissão por e-mail tornou-se um símbolo desse debate. Após décadas dedicadas à formação musical pública, o maestro deixou a função sem negociação prévia, situação que provocou forte reação entre alunos, ex-alunos e integrantes da comunidade artística.

Além das críticas à condução administrativa, a saída do regente também levanta preocupações sobre o futuro da Orquestra Sinfônica Infantojuvenil, considerada referência na formação de jovens músicos e responsável por revelar instrumentistas que hoje atuam em importantes grupos musicais no Brasil e no exterior.

Outros episódios de pressão, constrangimento e desligamentos de trabalhadores do Theatro Municipal

Um dos casos polêmicos de demissão do Theatro Municipal envolve Kika Cristiano de Souza, ex-assistente de direção da Escola de Dança de São Paulo.

Com quase 20 anos de atuação na instituição, ela afirma ter sido convocada para uma reunião inesperada em março deste ano, na qual teria sido pressionada a aceitar uma demissão amigável sob a alegação de supostos desvios de figurinos ocorridos meses antes.

Segundo os relatos publicados pelo GGN, nenhuma prova foi apresentada e, diante da recusa em assinar o desligamento, a trabalhadora teria sido ameaçada com a abertura de um processo administrativo que poderia comprometer sua carreira.

Após o episódio, Kika relata que foi impedida de se despedir da equipe e que seus pertences foram retirados do local. O processo disciplinar mencionado durante a reunião jamais foi instaurado.

Outro episódio citado envolve a pedagoga e artista visual Fabiana Aparecida da Silva. Depois de quase seis anos de atuação na Escola de Dança de São Paulo (EDASP), ela afirma ter sido dispensada após denunciar à Ouvidoria suposto monitoramento indevido de conversas entre funcionários. Fabiana sustenta que, após formalizar a denúncia, passou a sofrer retaliações até ser desligada da instituição.

O relato também menciona problemas estruturais na Praça das Artes, como elevadores fora de funcionamento e dificuldades na organização de eventos que, segundo a denúncia, teriam exposto trabalhadores, alunos e servidores a situações de insegurança.

Contratos irregulares

As denúncias também alcançam a forma de contratação utilizada pela Fundação Theatro Municipal. Muitos profissionais permanecem por anos atuando como pessoas físicas ou prestadores de serviço, apesar de exercerem funções permanentes e subordinadas. Para os denunciantes, esse modelo caracteriza precarização das relações de trabalho e reduz a proteção legal dos trabalhadores.

Segundo relatos enviados à TVT, muitos trabalhadores estão no Theatro Municipal há anos sem contrato de CLT ou sequer de PJ.

Na avaliação dos críticos, a ausência de vínculos empregatícios formais facilita desligamentos sem garantias trabalhistas, deixando professores, músicos, técnicos e demais profissionais sujeitos a decisões administrativas sem mecanismos adequados de proteção.

O Tribunal de Contas do Município (TCM) determinou, em fevereiro deste ano, a suspensão do edital destinado à escolha da nova Organização Social responsável pela administração do complexo cultural. O tribunal apontou possíveis falhas relacionadas aos critérios utilizados, à justificativa dos valores previstos e ao risco de favorecimento.

Em 21 de julho de 2026, a Fundação Theatro Municipal de São Paulo declarou:

A Fundação Theatro Municipal de São Paulo esclarece que não houve demissão do Maestro Daniel Cornejo. O que ocorreu foi o encerramento do contrato de prestação de serviços de natureza artística, cuja vigência chegou ao fim. A decisão está inserida no âmbito da gestão e da organização das atividades artísticas e pedagógicas da instituição, que permanentemente avalia suas equipes, projetos e modelos de atuação, sempre tendo como prioridade a qualidade da formação oferecida aos seus alunos.

A Fundação reafirma seu compromisso permanente com a excelência do ensino, da formação artística e da difusão das artes. Mudanças e processos de renovação fazem parte da dinâmica natural de qualquer instituição de ensino e cultura e são, muitas vezes, necessários para seu aprimoramento e modernização. Essas transformações são conduzidas com responsabilidade e com o objetivo de fortalecer as escolas e ampliar as oportunidades oferecidas aos estudantes.

A Fundação Theatro Municipal é uma instituição plural, democrática, apartidária e aberta ao diálogo, comprometida com a educação, o ensino artístico e a formação de novas gerações de artistas. Não há, portanto, qualquer orientação institucional de perseguição, retaliação ou restrição à liberdade de manifestação de professores, alunos ou colaboradores.

As decisões administrativas e operacionais da Fundação são tomadas com base em critérios institucionais, pedagógicos, artísticos e de gestão, e não têm como fundamento retaliações a posicionamentos individuais, manifestações ou eventuais lideranças. A instituição respeita a liberdade de expressão e o direito à manifestação, sem prejuízo da observância das normas administrativas e contratuais que regem seu funcionamento.

No que se refere à modalidade de contratação dos profissionais de natureza artística, a Fundação esclarece que os vínculos são estabelecidos de acordo com a legislação aplicável e com as modalidades legalmente previstas para a contratação de serviços dessa natureza. Não há, portanto, qualquer fundamento para afirmar a existência de ilegalidade na modalidadecontratual adotada, cuja regularidade está submetida aos mecanismos de controle e fiscalização competentes.

Também não procede qualquer afirmação de que estaria em curso um processo de desmonte das escolas. Ao contrário, os últimos anos foram marcados por importantes avanços e investimentos na formação artística, com iniciativas concretas voltadas à melhoria das condições oferecidas aos estudantes e à ampliação do acesso à educação artística.

Entre essas ações, destacam-se a concessão de uniformes aos alunos, a aquisição, manutenção e reforma de instrumentos musicais, a ampliação e diversificação dos espaços e palcos destinados às apresentações dos estudantes e o estabelecimento de parcerias e intercâmbios internacionais, que contribuem para a ampliação das experiências formativas e para a inserção dos alunos em diferentes contextos artísticos e culturais.

Destaca-se, ainda, a criação do programa FTM Expandida, que atualmente atende mais de 600 alunos em diferentes regiões da periferia da cidade de São Paulo, ampliando o alcance territorial das ações de formação artística da Fundação. O programa oferece atividades de flauta doce, violino, violoncelo, violão, dança contemporânea, balé e danças brasileiras, com atuação nos CEUs Três Pontões, no Jardim Pantanal, na região do extremo leste; CEU Parelheiros, no extremo sul; e CEU Jardim Paulistano, na zona norte.

Como parte desse processo de expansão, está prevista para agosto deste ano a inauguração de uma nova unidade no CEU Uirapuru, na região do extremo oeste da cidade, com a oferta de cursos de piano, flauta doce, dança contemporânea e balé. Trata-se de uma política concreta de democratização do acesso à formação artística, levando o ensino de música e dança a territórios historicamente menos atendidos por esse tipo de iniciativa.

Quanto à não continuidade do contrato com a Sra. Cristiana de Souza, a decisão decorreu de uma avaliação relacionada ao aprimoramento da gestão e à reorganização das atividades da escola, processo natural e necessário em qualquer organização que busca permanentemente aperfeiçoar seus procedimentos, equipes e resultados. A Fundação entende que decisões dessa natureza fazem parte da responsabilidade de gestão e não devem ser interpretadas como atos de perseguição ou retaliação.

Em relação aos demais episódios mencionados, a Fundação opta por não comentar manifestações de caráter especulativo ou afirmações que não estejam acompanhadas de elementos objetivos que permitam sua adequada apuração. A instituição permanece, contudo, à disposição para prestar os esclarecimentos necessários sobre fatos concretos e devidamente fundamentados.

No caso específico da Sra. Fabiana, a Fundação esclarece que a comunicação acerca da não renovação de seu contrato ocorreu em razão de decisão administrativa relacionada a um episódio de conduta ético-profissional inadequada, testemunhada por diversas pessoas. A medida adotada decorreu de circunstâncias objetivas relacionadas à preservação da ordem administrativa e do adequado funcionamento institucional.

A tentativa de associar decisões administrativas dessa natureza a supostas relações pessoais entre dirigentes e profissionais, sem qualquer elemento concreto que sustente tal alegação, não contribui para o debate público qualificado e acaba por desviar a discussão dos fatos efetivamente ocorridos. A Fundação reitera que seus dirigentes atuam com profissionalismo, responsabilidade e observância dos princípios que orientam a administração pública e a gestão institucional.

A Fundação compreende que decisões relacionadas ao encerramento ou à não renovação de vínculos profissionais podem naturalmente gerar insatisfação ou divergências. Isso, contudo, não autoriza a atribuição leviana de acusações ou a divulgação de afirmações sem fundamento factual.

A instituição reafirma seu compromisso com a transparência, o diálogo e o respeito à comunidade artística e educacional, mantendo abertos os canais institucionais para o esclarecimento de dúvidas e para o recebimento de manifestações. Ao mesmo tempo, reserva-se o direito de adotar as medidas cabíveis diante de afirmações falsas ou acusações desprovidas de fundamento, sempre nos termos da legislação aplicável.

Por fim, a Fundação Theatro Municipal de São Paulo reafirma que sua prioridade é e continuará sendo a formação de excelência, a democratização do acesso à cultura e a construção de uma instituição cada vez mais moderna e alinhada às necessidades de seus alunos e da sociedade paulistana.

Assuntos Relacionados