Negros morrem 3,5 vezes mais que brancos no Brasil

Mesmo com a queda histórica das mortes violentas em 2025, população negra continua concentrando quase 80% das vítimas de homicídios e letalidade policial
Taxa de mortes violentas entre pessoas negras alcançou 39,5 vítimas por 100 mil habitantes. Foto: Fernando Frazão Agência Brasil

A redução de 8,2% nas mortes violentas intencionais (MVI) registrada no Brasil em 2025 representa um marco histórico para a segurança pública, mas esconde uma realidade que permanece praticamente inalterada há décadas: a violência letal continua atingindo de forma desproporcional os negros. Dados do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta quinta-feira (23), mostram que pessoas negras seguem sendo as principais vítimas de assassinatos no país, com uma taxa de mortalidade 3,5 vezes superior à registrada entre pessoas brancas. Saiba mais na TVT News.

O levantamento revela que 79,7% das vítimas de mortes violentas intencionais em 2025 eram negras, reforçando o caráter racial da violência brasileira. Os dados também mostram que 90,8% das vítimas eram homens e 41,6% tinham entre 18 e 29 anos, indicando que jovens negros continuam concentrando o maior risco de morrer de forma violenta no país.

Em termos de incidência, a diferença é ainda mais expressiva. A taxa de mortes violentas entre pessoas negras alcançou 39,5 vítimas por 100 mil habitantes, enquanto entre pessoas brancas ficou em aproximadamente 11 por 100 mil habitantes. Na prática, isso significa que um brasileiro negro tem três vezes e meia mais chances de ser vítima de homicídio ou de outra morte violenta intencional do que um brasileiro branco.

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Os números aparecem justamente no ano em que o país atingiu o menor índice de mortes violentas desde o início da série histórica do Anuário. Em 2025, foram registradas 40.775 mortes violentas intencionais, contra 44.127 em 2024, fazendo a taxa nacional cair para 19,1 mortes por 100 mil habitantes, a primeira vez que o indicador ficou abaixo de 20 desde que passou a ser monitorado.

Apesar desse avanço, o próprio Fórum Brasileiro de Segurança Pública alerta que a melhora não alcança todos os segmentos da população da mesma maneira. Na apresentação do Anuário, os pesquisadores destacam que o Brasil antecipou em dois anos a meta nacional de redução dos homicídios prevista pela Política Nacional de Segurança Pública e Defesa Social, mas ressaltam que permanecem em crescimento justamente duas modalidades que atingem grupos específicos: os feminicídios e as mortes decorrentes de intervenção policial. Segundo o documento, isso demonstra que “a redução geral da violência letal não beneficia igualmente todos os grupos sociais”.

Polícia nunca matou tanto; negros são alvo

O relatório chama atenção, especialmente, para o avanço da letalidade policial. Segundo o Fórum, 2025 registrou o maior número de mortes decorrentes de intervenção policial da série histórica, transformando esse fenômeno em um dos principais desafios da segurança pública brasileira. A análise afirma que o problema deixou de ser apenas operacional e passou a envolver mecanismos de controle institucional, transparência, responsabilização e prevenção da captura das instituições públicas pelo crime organizado.

Embora a publicação destaque que o Brasil reduziu significativamente os homicídios dolosos, os latrocínios e as lesões corporais seguidas de morte, a permanência da desigualdade racial evidencia que a violência segue concentrada sobre determinados grupos sociais. O perfil das vítimas permanece praticamente inalterado ao longo da série histórica, indicando que fatores como raça, idade, gênero e território continuam determinando quem está mais exposto ao risco de morrer de forma violenta.

Os pesquisadores observam ainda que a preocupação da população com a segurança voltou ao centro do debate público brasileiro. Na introdução do Anuário, o Fórum afirma que a violência tornou-se novamente a principal preocupação dos brasileiros, superando temas como economia e saúde e ganhando protagonismo no cenário eleitoral de 2026. Ao mesmo tempo, critica a polarização política em torno do tema e sustenta que o debate público frequentemente se afasta das evidências produzidas por pesquisas e estatísticas.

Para os autores, os dados mostram que o Brasil vive um momento contraditório. De um lado, alcançou resultados importantes na redução da violência letal e antecipou metas nacionais de diminuição dos homicídios. De outro, persistem problemas estruturais que impedem uma redução igualitária da violência, como o crescimento da letalidade policial, dos feminicídios e das desigualdades raciais que marcam historicamente a segurança pública brasileira.

Nesse contexto, o Anuário conclui que o desafio das políticas públicas não é apenas manter a trajetória de queda dos homicídios, mas garantir que essa redução alcance toda a população. Para isso, defende ações baseadas em evidências, fortalecimento dos mecanismos de controle das forças de segurança, prevenção da violência e enfrentamento das desigualdades que continuam colocando jovens negros entre as principais vítimas da violência letal no Brasil.

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