Amazon compra e destrói livros raros para treinar inteligência artificial

Investigação aponta que livros antigos e fora de catálogo foram comprados em grandes quantidades, digitalizados e posteriormente destruídos em instalação da empresa nos Estados Unidos; processos judiciais indicam que outras Big Techs podem ter realizado a mesma prática
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Investigação aponta que livros antigos e fora de catálogo foram comprados em grandes quantidades, digitalizados e posteriormente destruídos em instalação da empresa nos Estados Unidos; processos judiciais indicam que outras Big Techs podem ter realizado a mesma prática. Foto: Pexels/Mavluda Tashbaeva

Uma investigação publicada pelo site 404 Media revelou uma operação da Amazon envolvendo a compra de livros raros e antigos, que são enviados para uma instalação da empresa em Las Vegas, nos Estados Unidos, onde passam por digitalização em larga escala. Após o processo, os exemplares físicos são destruídos. A apuração aponta que o material é utilizado na obtenção de dados para sistemas de inteligência artificial (IA). Leia em TVT News.

A operação chama atenção principalmente pela inclusão de obras raras, antigas e fora de catálogo. Segundo a investigação, livreiros já vinham percebendo um aumento incomum na procura por determinados exemplares físicos por empresas ligadas ao desenvolvimento de IA.

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Descoberta levanta alerta sobre destruição de patrimônio cultural

Além da discussão sobre direitos autorais e desenvolvimento de inteligência artificial, o caso levanta alerta sobre a preservação de obras que podem ser difíceis de substituir.

Livros antigos e fora de catálogo podem ter valor histórico, cultural ou acadêmico mesmo quando possuem pouca demanda comercial.

A destruição dos exemplares depois da digitalização significa que o conteúdo textual pode ser preservado em formato digital, mas características físicas da obra, como capa, encadernação, ilustrações, anotações e estado de conservação, podem ser perdidas. Além disso, o processo pode criar agravar problemas de acesso ao conteúdo em questão.

O episódio ocorre em meio à corrida das grandes empresas de tecnologia por grandes volumes de dados para desenvolver modelos de IA cada vez mais sofisticados. A busca por materiais exclusivos ou pouco disponíveis digitalmente amplia a disputa não apenas por capacidade computacional, mas também pelo acesso ao conhecimento utilizado para alimentar esses sistemas.

A situação também ganhou relevância porque processos judiciais envolvendo empresas de IA já expuseram operações semelhantes. Documentos relacionados a uma ação contra a Anthropic, responsável pelo Claude, revelaram o chamado Projeto Panamá, no qual milhões de livros foram comprados, digitalizados e posteriormente destruídos.

Livro raro foi rastreado até instalação da Amazon

Para acompanhar o destino das obras, a 404 Media trabalhou com um vendedor de livros raros que recebeu um pedido de quase mil exemplares. Um dos livros foi equipado com um dispositivo de rastreamento antes de ser enviado.

O rastreador indicou que o livro chegou a uma instalação da Amazon em Las Vegas identificada como VGT3. No local, segundo a reportagem, há uma equipe dedicada à preparação e digitalização dos livros. O processo inclui a retirada das lombadas para permitir que as páginas sejam digitalizadas em alta velocidade.

Depois da digitalização, os livros são destruídos. A prática já havia sido associada a empresas de inteligência artificial que buscam ampliar seus bancos de dados com materiais que não estão disponíveis facilmente em formato digital.

Por que comprar livros físicos para desenvolver IA?

A utilização de livros físicos pode estar relacionada a dois fatores: acesso a conteúdos difíceis de encontrar digitalmente e questões jurídicas envolvendo direitos autorais.

Empresas de IA precisam de grandes volumes de textos para treinar modelos de linguagem. Obras antigas e fora de catálogo podem oferecer informações que não aparecem em bases digitais comuns ou que são pouco representadas nos conjuntos de dados utilizados para treinamento.

Além disso, a utilização de cópias físicas adquiridas legalmente pode oferecer às empresas uma alternativa diante das disputas envolvendo o uso de conteúdos protegidos por direitos autorais. A estratégia, porém, não elimina as controvérsias sobre a utilização do conteúdo das obras para treinamento de sistemas de IA.

Amazon não confirma uso dos livros no treinamento de IA

Questionada sobre a investigação, a Amazon não respondeu diretamente se os livros comprados são utilizados para treinar modelos de inteligência artificial. A empresa afirmou apenas que compra livros por canais comerciais para ajudar no desenvolvimento e aprimoramento de produtos e serviços oferecidos aos clientes.

A companhia, portanto, não confirmou publicamente que a operação descrita pela 404 Media tenha como finalidade específica o treinamento de seus modelos de IA.

A investigação também aponta que outras empresas do setor adotam posições diferentes. Anthropic e xAI afirmaram que não utilizam livros raros ou antigos para treinar seus modelos, segundo reportagens sobre o caso.

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