Repasse de Vorcaro a fundo ligado a Eduardo Bolsonaro ocorreu antes de contrato de “Dark Horse”

Laudo da defesa da produtora Go Up registra contrato em 24 de fevereiro de 2025, enquanto documentos bancários apontam transferência de US$ 2 milhões 11 dias antes
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Flávio Bolsonaro – Foto: Vittor Sales/Divulgação

Uma perícia apresentada pela defesa da produtora Go Up Entertainment aponta uma inconsistência na cronologia do financiamento de Dark Horse, filme que retrata a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. Leia em TVT News.

Segundo documentos analisados no laudo, o fundo Havengate, ligado ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro, formalizou o investimento na produção em 24 de fevereiro de 2025, mas recebeu a primeira transferência relacionada à operação 11 dias antes, em 13 de fevereiro.

O caso foi revelado pelo ICL Notícias a partir da análise do laudo pericial e de documentos obtidos anteriormente pelo The Intercept Brasil. As informações acrescentam novos elementos às apurações sobre a origem dos recursos utilizados na produção do filme e sobre a atuação do senador Flávio Bolsonaro nas negociações para financiar a obra.

De acordo com os documentos, a primeira transferência foi de US$ 2 milhões, enviada pela Entre Investimentos e Participações, empresa ligada ao banqueiro Daniel Vorcaro, para o Havengate, fundo sediado nos Estados Unidos. No dia seguinte, 14 de fevereiro, Fabiano Zettel encaminhou o comprovante da operação a Vorcaro com a mensagem “Filme!”.

O contrato entre o Havengate e a Go Up Entertainment, responsável pela execução do longa, só seria assinado em 24 de fevereiro. O laudo não aponta, ao descrever a relação contratual entre as partes, a existência de um documento anterior que explicasse a vinculação daquela primeira transferência ao projeto cinematográfico.

Cerca de US$ 13,4 milhões foram destinados à produção

A perícia informa que o financiamento utilizado para a produção de Dark Horse chegou a US$ 13,39 milhões, valor equivalente a cerca de R$ 69 milhões na cotação indicada no material. Desse total, aproximadamente US$ 3,7 milhões foram destinados a despesas de produção no Brasil, enquanto US$ 9,66 milhões foram gastos em atividades relacionadas à produção nos Estados Unidos.

O valor também aparece no balanço apresentado posteriormente pela Go Up. Segundo o laudo privado contratado pela defesa da produtora, o filme teria custado cerca de R$ 75,2 milhões até o momento da análise.

A perícia afirma que os recursos foram classificados como investimentos privados e não encontrou, nos documentos examinados, indícios de utilização de verbas públicas de outros contratos, emendas parlamentares ou recursos da Lei Rouanet.

O material, entretanto, não apresenta informações detalhadas sobre os financiadores, contratos, notas fiscais e despesas individualizadas da produção, como pagamentos de profissionais, elenco, hospedagem, alimentação e logística.

Mensagens mostram cobrança de Flávio Bolsonaro

A relação financeira envolvendo o filme já havia entrado no radar público após a divulgação, pelo The Intercept Brasil, de mensagens trocadas entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro.

Nas conversas, o senador aparece solicitando repasses para custear a produção da cinebiografia do pai. O cronograma mencionado nos documentos previa quase US$ 24 milhões em transferências ao Havengate.

A programação indicava dois pagamentos de US$ 2 milhões em janeiro de 2025 e, posteriormente, parcelas mensais de US$ 1,66 milhão entre março de 2025 e janeiro de 2026. Os documentos indicam que os pagamentos foram realizados, embora algumas das primeiras parcelas tenham ocorrido com atraso.

As tratativas entre Vorcaro e pessoas envolvidas no projeto teriam começado ainda em 2024. Em dezembro daquele ano, o banqueiro conversou com o empresário Thiago Miranda sobre o financiamento e afirmou que tinha uma reunião marcada com Flávio Bolsonaro em Brasília para discutir o assunto.

Depois que a crise envolvendo o Banco Master se agravou, Flávio voltou a cobrar Vorcaro sobre a continuidade dos repasses. Em 15 de novembro de 2025, um dia antes da prisão do banqueiro pela Polícia Federal, o senador enviou uma mensagem pedindo informações sobre os pagamentos.

Investigação também analisa recursos destinados à produtora

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Mendonça manda Vorcaro para Papudinha após delação ser rejeitada pela segunda vez. Foto: Divulgacao

O financiamento de Dark Horse passou a ser observado em meio a outras investigações envolvendo a Go Up Entertainment. A produtora pertence a Karina Ferreira da Gama, que também preside o Instituto Conhecer Brasil.

A Polícia Civil de São Paulo investiga a destinação de recursos relacionados a contratos da prefeitura e possíveis irregularidades envolvendo a produtora. O caso também passou a ser acompanhado pelo Supremo Tribunal Federal.

Em 24 de agosto, o ministro Flávio Dino autorizou que a Polícia Federal tivesse acesso às provas reunidas pela Polícia Civil paulista. O material poderá ser utilizado na investigação conduzida no STF sobre a destinação de emendas parlamentares à empresa.

Flávio Bolsonaro havia afirmado, em maio, que pediria uma prestação de contas sobre os recursos empregados na produção do filme. Segundo ele, a produtora e o fundo deveriam apresentar informações sobre as despesas relacionadas ao investimento.

A campanha do senador posteriormente afirmou que a Go Up havia realizado a prestação de contas. O documento, porém, não foi disponibilizado publicamente de forma integral e não esclareceu todos os detalhes sobre os financiadores e os pagamentos realizados.

O laudo utilizado pela defesa da produtora passou a ser uma das principais peças para reconstruir a movimentação financeira do filme. A nova informação sobre a transferência de US$ 2 milhões antes da assinatura do contrato acrescenta um ponto à cronologia que está sendo analisada pelas investigações.

Até o momento, os documentos divulgados não estabelecem, por si só, que a transferência anterior à assinatura do contrato tenha sido irregular. A questão central apontada pela reportagem do ICL é a diferença entre as datas: o primeiro repasse ocorreu em 13 de fevereiro de 2025, enquanto o contrato formal de investimento do Havengate com a Go Up foi firmado somente em 24 de fevereiro.

Mais de 70% dos recursos foram gastos nos Estados Unidos

A perícia contratada pela própria Go Up Entertainment também detalhou a distribuição dos recursos utilizados na produção de Dark Horse. Dos cerca de R$ 75 milhões contabilizados no relatório, mais de R$ 54 milhões foram gastos nos Estados Unidos, o equivalente a aproximadamente 72% do custo total. No Brasil, as despesas chegaram a R$ 20,92 milhões.

De acordo com o laudo, os gastos realizados nos Estados Unidos incluíram US$ 383,1 mil na etapa de desenvolvimento do projeto, US$ 2,66 milhões em pré-produção, US$ 1,97 milhão nas filmagens e US$ 1,95 milhão na pós-produção, além de outras despesas relacionadas à realização do longa.

O documento afirma que 100% dos recursos destinados à produção vieram do Havengate Development Fund LP, mas não identifica nominalmente os investidores responsáveis pelo aporte. A ausência dessas informações mantém sem esclarecimento público a composição dos financiadores do fundo que recebeu os recursos inicialmente repassados por uma empresa ligada a Daniel Vorcaro.

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