Redes sociais ligadas à Argentina e a influenciadores da direita espalham uma campanha sobre uma suposta “invasão” de imigrantes marroquinos em Santa Catarina. A narrativa partiu do portal argentino La Derecha Diario, que tinha entre seus proprietários o consultor Fernando Cerimedo, conhecido por sua proximidade com o clã Bolsonaro e por disseminar alegações falsas sobre as eleições brasileiras.
O conteúdo atribui ao governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) uma suposta política de incentivo à imigração marroquina. Segundo levantamento do Observatório Lupa, a campanha acumulou 13,4 mil menções entre sexta-feira (21) e quinta-feira (27), com publicações que chegaram a 475 mil visualizações.
Cerimedo e a atuação junto à direita brasileira
Fernando Cerimedo era dono de 50% do La Derecha Diario até a semana passada. O consultor argentino ganhou projeção no Brasil após as eleições de 2022, quando passou a publicar e transmitir conteúdos afirmando, sem apresentar provas, que o resultado eleitoral havia sido fraudado.
Cerimedo é próximo da família Bolsonaro e, no fim de julho, participou de uma transmissão ao vivo com Eduardo Bolsonaro, na qual voltaram a levantar suspeitas sobre a integridade do sistema eleitoral brasileiro. O argentino também foi indiciado pela Polícia Federal no inquérito que apura a tentativa de golpe, mas não foi incluído na denúncia da Procuradoria-Geral da República.
Ele deixou a sociedade do portal pouco depois de ser preso na Bolívia, acusado de ter ordenado o assassinato de sua ex-companheira, Nadia Beller, que está grávida. Cerimedo nega envolvimento no crime.
A nova campanha surgiu a partir de uma publicação do La Derecha Diario que afirmava que a imigração de marroquinos havia “disparado” no Brasil. O texto tinha como base a informação de que 50 marroquinos haviam solicitado refúgio em Santa Catarina nos três meses anteriores.
Números não indicam ‘invasão’
Dados do ObMigra e do Conare mostram que 57 marroquinos solicitaram refúgio em Santa Catarina em 2026 até julho. Eles representam 1,86% dos 3.059 pedidos registrados no estado.
Os principais países de origem dos solicitantes foram Cuba, com 1.707 pedidos; Haiti, com 543; Venezuela, com 227; e Argentina, com 61. Em todo o Brasil, foram 40.961 solicitações de refúgio no período, sendo 24.008 de cubanos, 6.880 de venezuelanos e 835 de marroquinos.
A campanha também utiliza imagens da crise migratória ocorrida em Ceuta, na Espanha, em maio, quando milhares de marroquinos chegaram ao enclave vindos do país vizinho. As imagens foram associadas às publicações sobre Santa Catarina, embora não tenham relação com os pedidos de refúgio registrados no estado.
O influenciador argentino Christopher Marchesini, conhecido como “Mate con Mote”, também reproduziu a narrativa. Ele chegou a publicar que Lula estaria impulsionando a imigração marroquina e ameaçando a fronteira da Argentina. Marchesini foi recebido em maio pelo presidente argentino Javier Milei na residência oficial da Presidência.
Para o Observatório Lupa, o caso combina informações verdadeiras sobre imigração com dados retirados de contexto e alegações sem provas para criar a impressão de uma crise migratória. A organização também aponta a Argentina como um novo ator em operações de influência na América Latina.