Vorcaro pagou propina para Tarcísio, Kassab e Bolsonaro, afirma UOL

Doações de R$ 5 milhões a Bolsonaro e Tarcísio estavam ligadas à continuidade do Credcesta em São Paulo, mostra UOL
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Daniel Vorcaro, Gilberto Kassab, Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas. Fotos: Master/Divulgação/Marcelo Camargo/Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil/Ministério da Infraestrutura

O ex-banqueiro Daniel Vorcaro afirmou, em suas propostas de delação premiada, que R$ 5 milhões destinados às campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas em 2022 tiveram origem em uma negociação de propina envolvendo Gilberto Kassab. As informações foram publicadas nesta quinta-feira (3) pelos colunistas do UOL Fabio Serapião, Natália Portinari, Artur Rodrigues e Cézar Feitoza.

Segundo o relato apresentado por Vorcaro às autoridades, os valores teriam sido pagos como contrapartida para garantir a continuidade da operação do cartão de crédito consignado Credcesta no governo de São Paulo. Do total, R$ 3 milhões foram destinados à campanha de Bolsonaro e R$ 2 milhões à campanha de Tarcísio.

As acusações integraram as três versões de uma proposta de colaboração apresentada por Vorcaro, que, no entanto, foram rejeitadas pela Polícia Federal (PF) e a Procuradoria-Geral da República (PGR) sob o argumento de inexistência de fatos novos ou elementos suficientes de corroboração.

Propina de Vocaro para Bolsonaro e Tarcísio teria sido negociada com Kassab

De acordo com a reportagem do UOL, Augusto Lima, sócio e responsável pela operação do Credcesta dentro do grupo, teria procurado Kassab durante a campanha eleitoral de 2022 para assegurar a continuidade do negócio em uma eventual gestão de Tarcísio.

Na época, Kassab apoiava a candidatura de Tarcísio e posteriormente assumiu a Secretaria de Governo de São Paulo. Atualmente, Kassab é candidato a vice-presidente na chapa de Ronaldo Caiado.

Ainda segundo a reportagem, Vorcaro teria dito que o suposto acordo previa o repasse de 5% do resultado líquido da operação do Credcesta em São Paulo, além de contribuições para campanhas políticas do PSD e de partidos aliados.

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Ronaldo Caiado e Gilberto Kassab concorrem à Presidência. Foto: Antonio Cruz/ Agência Brasil

Como foi a negociação entre Vorcaro e Augusto Lima com Gilberto Kassab

Na delação, obtida pela reportagem do UOL, Vorcaro relatou que teria sido informado por Augusto Lima sobre um “ajuste indevido” com Kassab. O ex-banqueiro afirma que, dentro desse entendimento, foram solicitadas contribuições eleitorais para políticos e partidos.

A proposta de delação citada pelo UOL aponta duas modalidades de pagamentos. A primeira seria composta pelas doações oficiais de R$ 5 milhões, divididas entre as campanhas de Tarcísio e Bolsonaro.

Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e um dos investigados na Operação Compliance Zero, teria realizado os repasses. Foram R$ 2 milhões para a campanha de Tarcísio e R$ 3 milhões para a campanha de Bolsonaro.

A segunda frente mencionada na proposta envolveria cerca de R$ 10 milhões em pagamentos em espécie, que, segundo Vorcaro, seriam destinados informalmente a pessoas indicadas por Kassab por meio de Thiago Botelho, o “Papel”. O ex-banqueiro afirma que os recursos seriam destinados a campanhas do PSD.

O que é o Credcesta

O Credcesta é um cartão de crédito consignado destinado a servidores públicos. O produto era operado pela PKL One Participações, empresa associada ao grupo de Vorcaro.

Segundo o UOL, o governo de São Paulo autorizou, em março de 2022, empresas como a PKL a oferecer crédito consignado aos servidores públicos estaduais, ainda durante a gestão de João Dória (então no PSDB). O Credcesta começou a operar no estado em julho daquele ano, durante o governo Rodrigo Garcia.

Segundo Vorcaro, a entrada do Credcesta em novos governos ou estados exigia pagamento de valores a políticoos e operadores locais.

Delação foi rejeitada por “não ter fatos novos”

As acusações sobre as doações a Bolsonaro e Tarcísio aparecem nas três versões da proposta de delação apresentada por Daniel Vorcaro.

Segundo o UOL, a PF e a PGR recusaram as propostas por considerarem que os relatos não apresentavam ineditismo nem elementos de corroboração suficientes.

Na semana passada, Vorcaro pediu para prestar depoimento ao gabinete do ministro André Mendonça, relator da Operação Compliance Zero no Supremo Tribunal Federal (STF). Durante a audiência, voltou a manifestar interesse em colaborar com as investigações, mas a PGR manteve a negativa à proposta de delação por considerar que não havia fatos novos.

As informações sobre as supostas irregularidades, portanto, permanecem como declarações atribuídas a Vorcaro e não representam, até o momento, uma conclusão das autoridades sobre a ocorrência dos crimes mencionados.

O que dizem os citados

A reportagem do UOL procurou os citados na suposta delação, confira as respostas.

Nota de Tarcísio de Freitas

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, se manifestou por meio de nota oficial. O texto afirma que a campanha de 2022 contou com mais de 600 doadores e foi conduzida em estrita observância à legislação eleitoral.

“O governador não possui qualquer vínculo ou relação com o doador citado e não tinha conhecimento prévio de eventuais condutas alheias à campanha. A prestação de contas da campanha foi regularmente apresentada e aprovada pela Justiça Eleitoral.”

A nota também esclarece que a participação de instituições no sistema estadual de consignações ocorre por meio de credenciamento público, regulamentado há mais de dez anos pelo Decreto nº 60.435/2014 e outras normas correlatas. Ela afirma que atualmente, mais de uma centena de instituições estão habilitadas a operar esse serviço no Estado.

Sobre a PKL One Participações, responsável pelo Credcesta, o governo informa que o credenciamento ocorreu em maio de 2022, portanto na gestão anterior, e conforme as regras vigentes. O texto ressalta que o credenciamento não constitui contrato com o Estado e não envolve repasse de recursos públicos, se tratando exclusivamente de uma habilitação que permite aos servidores escolherem livremente entre as instituições autorizadas.

O que diz Gilberto Kassab

Em nota, Gilberto Kassab classificou o relato de Vorcaro como “absolutamente fantasioso” e afirmou que a acusação não tem “qualquer sustentação factual”. Kassab admitiu conhecer Augusto Lima, mas negou veementemente qualquer tratativa sobre doações ou sobre o Credcesta:

“Nunca tratei de doações com Augusto Lima ou Daniel Vorcaro. Aliás, não tenho qualquer relação com Daniel Vorcaro, nunca falei com ele, pessoalmente ou por telefone. Conheço Augusto Lima e Thiago Botelho, mas nunca tratei sobre o Credcesta. Não participei ou recebi nenhuma doação de Vorcaro, de Lima, ou Botelho. Nunca recebi valores em espécie. São relatos que desconheço a origem e que não têm qualquer sustentação factual.”

A defesa de Augusto Lima também foi procurada, mas afirmou que não comentaria o caso, classificando as informações como “absurdas”.

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