Qual a análise do último Datafolha de 3 de setembro

Estabilidade na dianteira da disputa e crescimento de terceira via aumentam poder decisório de três grupos de eleitores
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O que dizem as pesquisas eleitorais de intenção de voto. Fotos: Ricardo Stuckert e Agência Brasil

Os dados da pesquisa Datafolha da quinta-feira (03/09) apontam, por trás da aparente estabilidade na liderança, um cenário de estagnação marcado principalmente pela incapacidade de as campanhas dos candidatos do PT e do PL romperem com a alta rejeição de Lula (45%) e Flávio Bolsonaro (47%).

A conjuntura abre espaço para a largada de Augusto Cury como uma terceira via, valorizando seu apoio como moeda de troca na migração de votos para o segundo turno.

Nesse cenário, o desfecho das eleições de outubro se mostra cada vez mais dependente de três grupos de eleitores, cujos comportamentos de voto são altamente vulneráveis ao noticiário factual nas próximas semanas. Esta é a avaliação dos cientistas políticos Beto Vasques, Hilton Fernandes e Jairo Pimentel, integrantes do Labop (Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais) da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo).

O último Datafolha mostra Lula com 46% das intenções de voto contra 44% de Flávio Bolsonaro em uma eventual disputa de segundo turno na corrida presidencial. Registrada no TSE sob o número BR-03669/2026, a pesquisa ouviu 2.002 pessoas de 16 anos ou mais, entre os dias 1º e 3 de setembro. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos, e o nível de confiança é de 95%.

Grupos que podem decidir as eleições: indecisos, voláteis e abstenções passam a ditar o ritmo da disputa rumo ao segundo turno

Confirmando os resultados da Quaest desta semana (2/9), o Datafolha desenha uma disputa ainda relativamente estável nos votos, mas com sinais importantes fora da intenção eleitoral direta, avalia o cientista político Jairo Pimentel. Lula mantém 38% das intenções de voto no primeiro turno, porém sua avaliação positiva recuou para 31%, a negativa chegou a 42% e a aprovação caiu de 48% para 45%. “Ao mesmo tempo, Augusto Cury salta de 2% para 8%, indicando uma redistribuição relevante no primeiro turno”.

Para Hilton Fernandes, o crescimento de Augusto Cury na terceira colocação se deve menos a uma preferência ideológica do eleitor e mais ao desgaste da imagem do atual mandatário. O fenômeno é impulsionado também pela baixa avaliação do governo (45% de aprovação contra 51% de desaprovação) e pelo alto teto de rejeição de Lula (45%) e Flávio Bolsonaro (47%). “Se as oscilações dentro da margem de erro persistirem, elas parecerão decorrer muito mais das dificuldades na comunicação petista ou da fadiga na imagem de Lula”, pontua o cientista político.

Último Datafolha: quem são os eleitores que podem definir o vencedor

Diante da estagnação das forças majoritárias, o favoritismo da eleição passa a ser disputado em margens estreitas e voláteis. O analista político Beto Vasques adverte que é exatamente dentro deste cenário de disputa extremamente acirrada que três grupos de eleitores passam a desempenhar um papel fundamental e decisivo.

Segundo ele, o primeiro bloco se constitui da soma de abstenções, votos brancos e nulos; o segundo é o da migração de votos, ou seja, eleitores de candidatos “nanicos” que transferirão suas escolhas no segundo turno; e o terceiro grupo é o do eleitor pendular, composto por aqueles que oscilam constantemente entre as duas principais candidaturas.

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Como estão Lula, Flávio Bolsonaro e Augusto Cury nas intenções de voto para presidente – Fotos: Flickr e Instagram campanhas

Pelo fato de esses segmentos não possuírem amarras ideológicas consolidadas, o resultado das urnas será moldado diretamente pela agenda do dia a dia.”Como esses públicos são altamente sensíveis à agenda factual, as notícias veiculadas nas semanas decisivas, tanto no primeiro quanto em um eventual segundo turno, podem beneficiar ou prejudicar um candidato, definindo o favoritismo”, explica Vasques.

Nesse sentido, o último Datafolha, adverte Pimentel, fica a dever em sua capacidade de repercutir no ânimo desses eleitores as recentes turbulências na vida política do país, envolvendo o “Caso Master” e os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça, entre outras. “A pesquisa permanece válida como fotografia dos dias 1º e 3, mas pode ter sido publicada já diante de um ambiente político substancialmente alterado pelo Caso Master, cujo eventual efeito eleitoral só poderá ser observado nas próximas rodadas”, pondera.

O campo da pesquisa, finalizado em 3 de setembro, também não captou a notícia da tarde desta quinta-feira sobre a proposta de delação de Daniel Vorcaro, na qual ele atribui a um suposto acordo envolvendo Gilberto Kassab doações de R$ 5 milhões às campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas em 2022.

Confira as análises do Datafolha na íntegra

BETO VASQUES


Analista político e coordenador do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da FESPSP

A pesquisa Datafolha desta quinta-feira (03/09) confirma o cenário apresentado pela pesquisa Quaest de ontem (02/09). Os dados apontam oscilações que, embora muitas vezes favoráveis a Flávio Bolsonaro, aproximando-o do presidente, permanecem dentro da margem de erro. Lula, por sua vez, mantém uma “pequena gordura”, também dentro da margem de erro, o que reflete o panorama padrão dos últimos sete meses. Essa fotografia do momento, no entanto, é instável.

O Datafolha de hoje não conseguiu mensurar acontecimentos políticos de grande repercussão ocorridos nos últimos dois dias envolvendo, no chamado “Caso Master”, os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça, além de Flávio e Jair Bolsonaro, Tarcísio de Freitas, Gilberto Kassab e Nikolas Ferreira. Mesmo assim, os números continuam a mostrar uma disputa extremamente acirrada, na qual três grupos de eleitores passam a desempenhar um papel fundamental e decisivo. O primeiro deles se constitui da soma de abstenções, votos brancos e nulos.

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Conflito entre Moraes e Mendonça ocorre em um momento de crescente pressão sobre o Supremo. Foto: STF

O segundo é o da migração de votos, ou seja, eleitores de candidatos “nanicos” que transferirão suas escolhas no segundo turno. O terceiro grupo é o do eleitor pendular, composto por aqueles que oscilam constantemente entre um lado e outro. Como esses públicos são altamente sensíveis à agenda factual, as notícias veiculadas nas semanas decisivas, tanto no primeiro quanto em um eventual segundo turno, podem beneficiar ou prejudicar um candidato, definindo o favoritismo. Exemplos claros disso incluem as repercussões sobre o “Lulinha”, que tendem a favorecer Bolsonaro, ou sobre o “Dark Horse”, que favorecem Lula.

HILTON FERNANDES


Cientista político e professor do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da FESPSP

A pesquisa Datafolha confirma os resultados apresentados pela Quaest ao mostrar o crescimento de Augusto Cury, que agora ocupa o terceiro lugar nas intenções de voto no primeiro turno, passando de 2% para 8%. Por outro lado, a estabilidade de Lula e Flávio, mesmo após o início do horário eleitoral gratuito e dos programas de rádio e TV, parece refletir mais uma estagnação do que uma consolidação de seus eleitorados.

Embora Flávio se mostre mais competitivo ao se aproximar de Lula no cenário de segundo turno, com 44% contra 46% do presidente, essa aproximação não decorre de mudanças na preferência dos eleitores, que mantêm alta a rejeição aos dois principais candidatos. Pelo contrário, se as oscilações dentro da margem de erro persistirem, elas parecerão ser muito mais em razão das dificuldades na comunicação petista ou da fadiga na imagem de Lula, que viu a avaliação do governo piorar apesar do início das inserções partidárias, as quais normalmente impactam de forma positiva.

JAIRO PIMENTEL


Cientista político e professor do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da FESPSP

O Datafolha mostra uma disputa ainda relativamente estável no voto, mas com sinais importantes fora da intenção eleitoral: Lula mantém 38%, porém sua avaliação positiva recua para 31%, a negativa chega a 42% e a aprovação cai de 48% para 45%. Na série de 2022, o Datafolha registrava, naquele período, uma trajetória de crescimento da avaliação positiva de Jair Bolsonaro. Ao mesmo tempo, Augusto Cury salta de 2% para 8%, indicando uma redistribuição relevante no primeiro turno.

Há, ainda, uma ressalva decisiva: o campo terminou hoje, 3 de setembro, antes da notícia desta quinta-feira sobre a proposta de delação de Daniel Vorcaro, na qual ele atribui a um suposto acordo envolvendo Gilberto Kassab doações de R$ 5 milhões às campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio em 2022, segundo o que foi noticiado pelo portal UOL. Tarcísio e Kassab negam as acusações, e as versões apresentadas por Vorcaro foram recusadas pela PF e pela PGR por falta de elementos novos e de corroboração.

Portanto, a pesquisa permanece válida como fotografia dos dias 1º e 3, mas pode ter sido publicada já diante de um ambiente político substancialmente alterado pelo caso Master, cujo eventual efeito eleitoral só poderá ser observado nas próximas rodadas.

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