Em um 7 de setembro de 1956, enquanto o Brasil celebrava o Dia da Independência, um adolescente de apenas 15 anos começava, em Santo André, uma história que atravessaria gerações e transformaria definitivamente o futebol mundial. Leia em TVT News.
Naquele dia, Edson Arantes do Nascimento entrou em campo pela primeira vez como jogador profissional do Santos Futebol Clube e marcou um gol na vitória por 7 a 1 sobre o Corinthians de Santo André.
Setenta anos depois, a data ocupa um lugar especial na memória do futebol brasileiro. O garoto que entrou em campo usando a camisa 15, o mesmo número de sua idade, ainda era conhecido por muitos como Gasolina, apelido recebido por causa da velocidade e do forte arranque.
Mais tarde, Pelé se transformaria em Rei e passaria a ser reconhecido mundialmente como um dos maiores nomes da história do esporte.
A estreia aconteceu no Estádio Américo Guazzelli, em Santo André, durante um amistoso organizado pela prefeitura da cidade em homenagem ao Dia da Independência. A partida também valia o Troféu Independência, considerado o primeiro título conquistado por Pelé com a camisa santista.
No segundo tempo, o jovem substituiu Del Vecchio. Aos 15 anos, entrou para participar de uma partida que, naquele momento, parecia apenas mais um amistoso do calendário. Mas a presença do adolescente mudaria o significado daquele 7 de setembro.
Pelé marcou o sexto gol da vitória do Santos por 7 a 1. Era o primeiro de 1.091 gols que faria pelo clube, segundo os registros apresentados pelo Santos. Começava ali uma trajetória que levaria o jovem de Bauru aos maiores palcos do futebol mundial.
De Bauru para a Vila Belmiro
Pelé havia chegado ao Santos poucos meses antes, em julho de 1956. Vindo de Bauru, foi levado ao clube por indicação de Waldemar de Brito, ex-jogador que reconheceu cedo o talento do adolescente.
Aos 15 anos e 10 meses, Edson já treinava com os profissionais e despertava atenção dentro da Vila Belmiro. Fora do ambiente do clube, porém, ainda era pouco conhecido.
Pelé treinava entre os jogadores profissionais e começava a se destacar, mas o adversário daquela tarde em Santo André ainda não conhecia plenamente o garoto que estava prestes a iniciar uma das carreiras mais marcantes da história do futebol.
O apelido Gasolina também fazia parte daquele período. Entre os companheiros, a velocidade e a arrancada do jovem chamavam atenção. Pelé, no entanto, já era um nome pelo qual Edson era conhecido desde os tempos em Bauru.
Naquele 7 de setembro, os dois nomes ainda pertenciam ao mesmo garoto que começava a dar seus primeiros passos no futebol profissional.
O primeiro gol e os registros confusos
O primeiro gol de Pelé pelo Santos não foi imediatamente registrado de forma correta por todos os responsáveis pela cobertura da partida. A pouca projeção do jovem naquele momento contribuiu para a confusão.
O mesário Nelson Cerchiari, responsável pelas anotações dos acontecimentos em campo, atribuiu inicialmente o sexto gol santista a outro jogador. Já o jornal O Estado de S. Paulo, ao publicar a notícia da partida no dia seguinte, chamou o autor do gol de “Telé”.
Com o passar dos anos, os registros foram revisados e o gol passou a ser oficialmente reconhecido como o primeiro de Pelé pelo Santos.
Falta de imagens
A falta de imagens do lance também fez com que diferentes versões sobre a jogada surgissem ao longo das décadas.
Segundo o Centro de Memória do Santos, o gol nasceu após um cruzamento de Tite pelo lado esquerdo, com Pelé completando a jogada para as redes.
A ficha da partida publicada pelo jornal A Tribuna apresentou outra descrição. De acordo com o relato, Raimundinho e Tite participaram da construção da jogada antes de Pelé receber a bola, dominá-la e finalizar por baixo do goleiro Zaluar.
Há ainda a versão contada por jogadores do Corinthians de Santo André que estavam em campo. O defensor Antônio Schank e o goleiro Zaluar relataram uma jogada mais elaborada, na qual Pelé teria driblado adversários antes de tocar na saída do goleiro.
A ausência de imagens impede que uma reconstrução visual definitiva do lance seja feita. Mas todas as versões conduzem ao mesmo ponto: a bola entrou, o Santos chegou ao sexto gol e o adolescente que marcava pela primeira vez iniciava uma carreira que entraria para a história.
O próprio Zaluar transformou aquele momento em parte de sua identidade. Depois da projeção mundial alcançada por Pelé, o goleiro passou a usar em seus cartões de visita uma referência ao episódio, identificando-se como o goleiro do “Gol Rei Pelé – 001”.
Onde tudo começou
O cenário da primeira partida profissional e do primeiro gol de Pelé também mudou completamente ao longo das décadas.
O Estádio Américo Guazzelli, onde Santos e Corinthians de Santo André se enfrentaram em 1956, foi demolido em 1984 pela diretoria do clube do ABC Paulista.
Atualmente, a área abriga outras estruturas, como um parque aquático, instalações com vestiários e refeitórios e campos menores. Da antiga meta onde Pelé marcou pela primeira vez, nenhuma estrutura foi preservada.
No ponto onde ocorreu aquele episódio histórico, existe hoje apenas um pequeno portão amarelo utilizado para acessar um dos campos de grama sintética.
A memória, no entanto, ganhou uma nova referência física em 2024. Uma estátua de Pelé foi instalada no Parque Antônio Fláquer, na Vila Alzira, próximo ao local onde ficava o estádio.
A obra tem 2,73 metros de altura com a base e foi posicionada de forma a apontar para a região onde começou a trajetória profissional do jogador.
Setenta anos depois, o 7 de setembro de 1956 permanece como uma data que une a história do Brasil e a memória do futebol. Naquele Dia da Independência, um garoto de 15 anos entrou no segundo tempo de um amistoso usando a camisa 15 e marcou seu primeiro gol pelo Santos.
Gasolina passou a ser Pelé. Pelé se tornou Rei. E aquele primeiro gol, registrado depois de confusões e diferentes relatos sobre a jogada, ficou como o ponto inicial de uma trajetória que fez do futebol brasileiro uma referência mundial.