A Polícia Federal aponta que Roberto Campos Neto, então presidente do Banco Central, foi informado sobre a venda de uma fazenda pertencente a um ex-diretor de Fiscalização da instituição para Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Leia em TVT News.
A propriedade, localizada em Guaxupé (MG), foi negociada por R$ 4,5 milhões em janeiro de 2020. Segundo documentação interna do Banco Central, o então diretor de Fiscalização Paulo Sérgio Neves de Souza havia comunicado a negociação à direção da autarquia durante a gestão de Campos Neto.
O caso consta em documentos do Banco Central incluídos nos relatórios do processo sobre o Banco Master que foram tornados públicos na quinta-feira (10) pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), após determinação do presidente da Corte, Edson Fachin.
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Ex-diretor afirma que não sabia da ligação de comprador com Vorcaro
Segundo o documento, Paulo Sérgio relatou que havia manifestado interesse em vender o imóvel em 2019, inicialmente com a intenção de desenvolver um projeto de loteamento. A venda para Zettel foi concluída no ano seguinte.
O ex-diretor afirmou que só tomou conhecimento- cerca de um ano depois da negociação, no momento da escrituração, de que o comprador era cunhado de Daniel Vorcaro. Ele também declarou que, na época da venda, desconhecia essa relação e considerava o preço compatível com o valor de mercado.
O pagamento de R$ 4,5 milhões foi realizado em cinco parcelas, depositadas em uma conta conjunta mantida por Paulo Sérgio e seu irmão. De acordo com o relato, o comprador posteriormente desistiu do projeto de loteamento.
Ainda segundo o depoimento, o irmão de Paulo Sérgio passou a arrendar o imóvel para cultivar café depois que houve valorização do produto. O ex-diretor declarou também que registrou a negociação em suas declarações anuais de Imposto de Renda.
Ao final da documentação, o atual diretor de Fiscalização do BC, Ailton de Aquino, e o procurador-geral da instituição, Cristiano Cozer, encaminharam o relato ao presidente do Banco Central e à corregedoria para conhecimento e adoção das medidas consideradas cabíveis.
PF investiga atuação de ex-servidores do Banco Central
Paulo Sérgio havia ocupado, antes da diretoria de Fiscalização, o comando do Departamento de Supervisão Bancária (Desup). Segundo a Polícia Federal, ele e Belline Santana, que também chefiou o departamento, são suspeitos de terem atuado em favor de Vorcaro, orientando o ex-banqueiro sobre fiscalizações e reuniões.
Os dois são servidores de carreira e permanecem afastados do Banco Central, além de cumprirem medidas cautelares que incluem o uso de tornozeleira eletrônica.
A documentação também registra outro caso envolvendo Belline Santana. Segundo o relato apresentado ao Banco Central, ele teria recebido pagamentos relacionados a um projeto de inclusão de jovens na indústria financeira.
Santana afirmou ter sido procurado em 2023 por Leonardo Palhares, que teria oferecido remuneração de R$ 2 milhões pelo desenvolvimento do projeto ou pelo uso de seu nome e imagem. O ex-diretor disse ter recebido duas parcelas de R$ 500 mil naquele ano.
Posteriormente, segundo o depoimento, Santana criou uma empresa chamada “Inspiração” e retomou sua participação no projeto em 2025, passando a receber R$ 100 mil mensais até atingir o valor total acordado.
Questionado sobre uma eventual participação do Banco Master nos pagamentos, Santana negou que soubesse dessa possibilidade e afirmou possuir contrato referente à operação. Também declarou que os valores haviam sido informados em suas declarações de Imposto de Renda.
Campos Neto e Galípolo foram chamados pela PF
Roberto Campos Neto e Gabriel Galípolo foram intimados pela Polícia Federal para prestar depoimento como testemunhas no inquérito que investiga suspeitas de cooptação de servidores do Banco Central por Daniel Vorcaro e pessoas ligadas a ele.
O processo também envolve o empresário André Esteves, presidente do BTG Pactual, que foi chamado a depor na mesma condição.