Qual a ligação de Flávio Bolsonaro com o bispo que pediu o fim de Nossa Senhora Aparecida como padroeira

Ligação dos Bolsonaros com JB Carvalho fundamenta polêmica sobre projeto para retirar título de Nossa Senhora Aparecida
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Família Bolsonaro é ligada à denominação evangélica Comunidade das Nações, fundada por JB Carvalho, autor do livro que critica o culto à Nossa Senhora Aparecida - Foto: Site oficial da Comunidade das Nações

O candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL), seu pai, Jair Bolsonaro, e Michelle Bolsonaro, candidata ao Senado, mantêm relação próxima com a Comunidade das Nações, igreja fundada pelo bispo JB Carvalho. Apoiador do ex-presidente nas eleições de 2022, JB Carvalho defendeu em seu livro que Nossa Senhora Aparecida deixasse de ser reconhecida como padroeira do Brasil. Entenda a relação entre Flávio Bolsonaro e a ideia do fim da santa padroeira com a TVT News.

A relação entre a família Bolsonaro e JB Carvalho voltou ao centro do debate depois que ganhou força nas redes sociais a informação de que haveria um movimento para retirar o título de padroeira de Nossa Senhora Aparecida.

A apuração de veículos de imprensa, como a Folha de S.Paulo e Estado de Minas, mostra que a proximidade entre Flávio Bolsonaro e JB Carvalho é real. Flávio e sua mulher, Fernanda Bolsonaro, foram batizados na Comunidade das Nações em 2024, enquanto Michelle também mantém relação próxima com a igreja.

Entenda a ligação entre os Bolsonaros e o bispo JB Carvalho

  • Flávio Bolsonaro e a família têm ligação com bispo que pediu o fim de Nossa Senhora como padroeira do Brasil. Flávio e sua mulher, Fernanda Bolsonaro, foram batizados na Comunidade das Nações, em Brasília, em janeiro de 2024. Michelle Bolsonaro frequenta a igreja e é próxima de Dirce Carvalho, mulher do bispo.
  • O candidato à Presidência do PL fez na igreja sua primeira aparição pública depois de anunciar sua pré-candidatura ao Palácio do Planalto.
  • Ligação dos Bolsonaros com JB Carvalho mostra que a dúvida sobre projeto para acabar com Nossa Senhora como padroeira do Brasil não era fake news. O livro “A Bomba: A verdade pode ser explosiva”, de 2001, traz a defesa explícita do fim do título de padroeira, o que fundamenta a informação que circulou na imprensa e nas redes sociais.
  • O que fala o livro “A Bomba”. No capítulo “A Rainha dos Céus no Brasil”, JB Carvalho associa a devoção católica à santa ao culto da “Rainha dos Céus”, condenado no Antigo Testamento, e escreve que “Deus odeia o culto à Rainha dos Céus”. O bispo questiona a legalidade do feriado de 12 de outubro e defende que Aparecida deixe de ser padroeira nacional.
  • Quem é JB Carvalho e o que ele defende. João Batista Araújo Carvalho Lima é teólogo, escritor e fundador da Comunidade das Nações, com mais de 50 unidades no Brasil, Estados Unidos e Portugal. Com 32 anos de ministério e autor de 23 livros, ele preside a Editora Chara, a Faculdade das Nações e outras instituições. O bispo prega a chamada “estratégia das Sete Montanhas”, que busca influência cristã na política, economia, mídia, educação e outras áreas.

Flávio Bolsonaro tem relações próximas com evangélico que pede o fim de Nossa Senhora como padroeira do Brasil

A proximidade entre Flávio Bolsonaro e JB Carvalho não começou durante a atual campanha. Segundo a Folha de S.Paulo, Flávio e Fernanda Bolsonaro foram batizados na Comunidade das Nações em 2024. Em dezembro de 2025, pouco depois de anunciar sua pré-candidatura à Presidência, Flávio escolheu a mesma igreja para fazer sua primeira aparição pública como pré-candidato.

Michelle Bolsonaro também mantém relação com a instituição. Durante a campanha presidencial de 2022, ela participou de eventos da Comunidade das Nações e foi ungida por JB Carvalho. Jair Bolsonaro esteve em uma conferência promovida pela igreja em julho daquele ano.

A atuação política de JB Carvalho em 2022 também foi registrada pela imprensa. Na noite da vitória de Lula, o bispo fez uma pregação para os fiéis e afirmou que “nada está perdido”, após o resultado que confirmou a derrota de Jair Bolsonaro. Esses registros ajudam a explicar por que o nome de Carvalho reapareceu no debate sobre Nossa Senhora Aparecida. A existência da relação entre o bispo e a família Bolsonaro é documentada

Assessor de Bolsonaro volta a defender tirar o título de Nossa Senhora como padroeira do Brasil

O ex-deputado federal e ex-assessor de Bolsonaro, Victório Galli, voltou a defender o projeto de sua autoria que propunha retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. Galli afirmou não ver problema em levar o assunto ao debate no Congresso.

Quem é JB Carvalho e o que ele diz sobre Nossa Senhora Aparecida e os católicos

O bispo JB Carvalho é o fundador e líder da igreja Comunidade das Nações. Ele ganhou notoriedade política ao se tornar um dos principais conselheiros e apoiadores religiosos do bolsonarismo. No entanto, é o conteúdo de suas pregações e publicações que tem gerado ações judiciais e repúdio.

Em seu livro intitulado A Bomba, o religioso ataca diretamente a figura de Nossa Senhora Aparecida. Organizações ligadas ao movimento negro e entidades de defesa da tolerância religiosa acionaram a Justiça exigindo a retirada da obra de circulação, apontando ofensas discriminatórias.

Além dos ataques à padroeira, JB Carvalho também associa tragédias políticas à Igreja Católica, chegando a afirmar que a morte do ex-presidente Tancredo Neves teria relação com uma bênção concedida pelo Papa.

O que fala o livro A Bomba, de JB Carvalho

A posição de JB Carvalho sobre Nossa Senhora Aparecida aparece no livro A Bomba: A verdade pode ser explosiva, publicado em 2001.

No livro A Bomba, JB Carvalho apresenta críticas à devoção católica a Nossa Senhora Aparecida.

No capítulo intitulado “A Rainha dos Céus no Brasil”, o autor questiona a devoção católica a Maria e associa a veneração à chamada “Rainha dos Céus”, culto condenado no Antigo Testamento.

Carvalho também questiona a legislação relacionada ao feriado de 12 de outubro e defende que Nossa Senhora Aparecida deixe de ser reconhecida como padroeira do Brasil.

Trechos da obra voltaram a circular em setembro de 2026 e levaram a uma reação da Associação Protetora dos Desvalidos, informa o site Alma Preta. A entidade entrou na Justiça Federal contra a divulgação do e-book e argumentou que determinados trechos poderiam caracterizar incitação à discriminação religiosa.

Flávio Bolsonaro levou livro de JB Carvalho para o pai na prisão

Três dias após Jair Bolsonaro ser preso em uma cela da Polícia Federal, em novembro de 2025, Flávio Bolsonaro visitou o pai na Superintendência da PF, em Brasília. Levava em mãos um dos livros de JB Carvalho: “Metanoia — A Chave Está em Sua Mente”.

De acordo com a revista Fórum, no capítulo “Guerra Cultural”, o bispo ataca frontalmente os santos católicos, classificados como “disfarces” de antigos deuses cultuados no paganismo. Ele afirma que “o paganismo vencido procurou sincretizar-se ao cristianismo mediante o culto dos deuses pagãos disfarçados de santos católicos”.

Michelle Bolsonaro também visitou o marido levando obras de Carvalho. Em 9 de dezembro de 2025, levou “A Batalha de Todas as Gerações — Um Chamado à Reconciliação”, sobre guerra espiritual e reconciliação.

Em 6 de janeiro de 2026, Michelle chegou à Polícia Federal com “A Jornada — De Meninos a Homens”, livro em que o bispo aborda a formação masculina sob uma perspectiva cristã.

CNBB tem relatório que aponta perseguição desde 2019

Um relatório produzido pela Comissão Brasileira de Justiça e Paz (CBJP), organismo ligado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), reuniu 58 episódios de ataques contra católicos e instituições ligadas à Igreja e foi obtido pelo jornal Brasil de Fato.

O documento registra, entre outros casos, ataques à CNBB e a seus dirigentes, acusações de associação da entidade ao PT e ao “comunismo” e críticas à Campanha da Fraternidade.

A partir de 2019, o relatório registra ataques direcionados ao então presidente da CNBB, dom Walmor Oliveira de Azevedo. Também são citadas manifestações de Eduardo Bolsonaro contra a entidade.

Segundo o Brasil de Fato, o documento procura organizar episódios ocorridos ao longo de anos para mostrar a recorrência dos ataques contra a entidade católica.

É esse relatório que embasa a desconfiança da Igreja Católica no Brasil, junto com o projeto de Victório Galli, que aumentou a desconfiança sobre ações contra Nossa Senhora Aparecida.

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Bispo Dom Roberto Francisco Ferreira Paz afirma que candidato precisa explicar como pretende aplicar declaração de que, quando for presidente, “um de seus primeiros atos” seria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. Foto: Dom Roberto Francisco/Reprodução/Instragram

Não era fake news: a relação com JB Carvalho ajuda a entender a desconfiança

Quando as primeiras informações sobre movimentações políticas para retirar o título de padroeira de Nossa Senhora Aparecida vieram a público, aliados da extrema direita rapidamente tentaram classificar o caso como uma inverdade.

A informação, trazida inicialmente pela jornalista Maria Cristina Fernandes, possui fundamento e expõe a base real de um projeto que circula nos bastidores entre os aliados religiosos da família. Além do relatório recebido pela CNBB, a desconfiança ganhou força porque Flávio Bolsonaro mantém uma relação próxima com o bispo JB Carvalho, fundador da Comunidade das Nações.

O ponto central é que JB Carvalho não apenas é próximo da família Bolsonaro: ele já defendeu publicamente a retirada de Nossa Senhora Aparecida da condição de padroeira do Brasil.

Dino manda PF investigar ataques à Nossa Senhora Aparecida

A decisão de Flávio Dino foi proferida no âmbito da Reclamação 95.295, que tramita no STF. No documento, o ministro afirma que, após seu despacho de domingo (27) sobre liberdade religiosa, chegaram ao seu gabinete, por vários meios, notícias de várias partes do Brasil demonstrando uma “aparente onda de ataques nos últimos meses contra imagens religiosas”. Uma das informações foi encaminhada pelo decano do STF, ministro Gilmar Mendes.

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Decisão de Flávio Dino ocorre em meio à polêmica sobre suposta retirada do título de padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida e recorda ataques anteriores à devoção católica – Imagens: composição com reprodução TV/Wikipedia e foto de Lula Marques/ Agência Brasil

Dino transcreveu em sua decisão uma série de reportagens que compõem esse quadro. Entre os casos citados estão:

  • a vandalização da imagem de Nossa Senhora Aparecida localizada junto à Cruz do Chilão, em Cuiabá (MT) e que foi encontrada sem cabeça;
  • a destruição da imagem de Nossa Senhora das Graças no adro da Paróquia Senhor Bom Jesus dos Milagres, em Salvador (BA);
  • o vandalismo contra imagens de santos em uma loja de artigos religiosos em Londrina (PR), que ocorreu por três vezes;
  • a destruição de imagens sacras na Catedral de São Pedro, em Rio Grande (RS);
  • o ataque à imagem de Nossa Senhora das Graças na Jatiúca, em Maceió (AL);
  • a destruição de imagens de orixás em um terreiro de umbanda em Esmeraldas (MG);
  • a destruição da imagem de Santa Dulce dos Pobres em uma igreja de Salvador (BA);
  • o caso do homem que quebrou uma imagem de Nossa Senhora Aparecida com um machado em uma capela em Jauru (MT);
  • a destruição de um assentamento de Exu em um terreiro em Santo Amaro (BA);
  • e o incêndio criminoso que destruiu completamente uma imagem de Nossa Senhora Aparecida às margens da BR-163, em Novo Progresso (PA).

O ministro classificou a situação como “um quadro bastante grave, em que existem indícios de crimes variados, tais como: ultraje a culto, na modalidade vilipêndio; preconceito religioso; violência contra práticas religiosas; injúria qualificada por elemento religioso; ameaça, furto, dano, incêndio e violação de domicílio”

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