Mônica Zarattini revisita infância marcada pela ditadura em livro sobre o pai

Fotolivro reúne imagens, documentos e 22 capítulos sobre a infância e a adolescência da autora, marcadas pela perseguição política, pelo exílio e pela clandestinidade
Imagem do livro "Meu pai é viajante" da Mônica Zarattini – Foto: Divulgação

A fotojornalista Mônica Zarattini do coletivo Fotógrafas e Fotógrafos pela Democracia lança o livro “Meu pai é viajante”, obra que reúne fotografias, documentos e relatos pessoais para reconstruir as memórias de sua infância e adolescência durante a ditadura militar brasileira. Leia em TVT News.

Publicado pela editora Lovely House, o trabalho recupera a trajetória do pai, perseguido político que foi preso, banido do país e viveu no exílio entre 1969 e 1979.

Em entrevista à TVT, a autora destacou a dificuldade de revisitar as lembranças de um período marcado pela repressão, pelos silêncios familiares e pela ausência paterna.

“Esse lugar de revisitação, realmente, (…) da minha infância, foi bem dolorido pra mim fazer essa volta”, afirmou.

Aos sete anos, Mônica visitou o pai na prisão, em Recife. Em 1969, ele foi banido do Brasil e enviado ao México, depois passou por Cuba e pelo Chile, onde a família chegou a visitá-lo durante o governo de Salvador Allende.

A história também passa pela Argentina e pelo reencontro entre pai e filha em São Paulo, quando ele vivia na clandestinidade. O retorno ao país ocorreu no contexto da anistia, em 1979.

A obra percorre essas experiências a partir das lembranças de Mônica, que tinha entre sete e 17 anos no período retratado. A autora também aborda a vida cotidiana na capital paulista, as greves do ABC e as dificuldades enfrentadas por famílias atingidas pela perseguição política.

“Pessoas que nasceram no Brasil redemocratizado não sabem o que é uma clandestinidade, o que é você ter um encontro com o pai na clandestinidade”, disse à TVT. Para ela, compartilhar essas memórias contribui para que as novas gerações conheçam os efeitos da ditadura sobre a vida das pessoas.

Fotografias, documentos e memórias familiares

Imagem do livro “Meu pai é viajante” da Mônica Zarattini – Foto: Divulgação
Imagem do livro “Meu pai é viajante” da Mônica Zarattini – Foto: Divulgação
Imagem do livro “Meu pai é viajante” da Mônica Zarattini – Foto: Divulgação

O livro é composto por duas partes complementares: um fotolivro e um volume de textos dividido em 22 capítulos. A proposta é permitir que o público percorra as imagens e, em outro momento, leia os relatos, sem que as fotografias funcionem apenas como ilustrações do texto.

O material reúne imagens de álbuns familiares, fotografias feitas pela própria autora, cartas, desenhos e documentos históricos. Para reconstruir a trajetória do pai, Mônica pesquisou arquivos do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), além de acervos de memória no Brasil e na Argentina.

“Eu fui nos álbuns de fotografia da minha família e fui pegando esses instantes e associando à minha memória”, explicou. Segundo a fotojornalista, a fotografia registra momentos que ajudam a recuperar experiências que, durante anos, permaneceram fragmentadas.

A estrutura editorial foi pensada para que as duas linguagens mantenham autonomia e, ao mesmo tempo, estabeleçam relações entre si. “Eu queria um livro que fosse assim, não queria um texto ilustrado. Eu queria que o texto conversasse com a fotografia, mas de forma separada”, afirmou.

A publicação também traz uma dimensão pessoal sobre a experiência da autora durante a adolescência. No livro, ela relata ter sofrido violência sexual aos 15 anos, episódio que permaneceu em segredo durante décadas. Aos 64 anos, decidiu incluir o relato na obra, relacionando o silêncio vivido por ela ao medo e à repressão que marcaram aquele período.

“Eu acho que é importante que eu tenha falado disso, que eu tenha conseguido colocar isso para fora também”, disse à TVT.

Memória e defesa da democracia

Para Mônica, recuperar a história da ditadura tem relevância diante dos debates políticos atuais. A autora defende que as novas gerações conheçam as restrições à liberdade e os efeitos da repressão sobre a sociedade brasileira.

“É importante que jovens saibam que eu não quero que eles vivam o que eu vivi. Esse cerceamento, essa falta de liberdade”, afirmou.

A fotojornalista também relaciona a memória familiar à história dos movimentos sociais e das lutas dos trabalhadores. A presença das greves do ABC na narrativa aproxima as experiências pessoais de acontecimentos políticos que marcaram o processo de redemocratização.

Doutora em Artes e mestre em Comunicações pela Universidade de São Paulo (USP), Mônica Zarattini trabalhou durante 26 anos como repórter fotográfica e editora no Estadão e no Jornal da Tarde. Sua trajetória profissional inclui trabalhos ligados aos direitos humanos. Em 2001, recebeu o Prêmio Vladimir Herzog e, em 2018, o Troféu Mulher Imprensa.

Publicado em português e espanhol “Meu pai é viajante” tem preço de capa de R$ 180, segundo a autora. A edição reúne um fotolivro de 112 páginas e um volume de textos de 60 páginas.

Lançamentos em São Paulo

Livro “Meu pai é viajante” – Foto: Divulgação

O primeiro lançamento está marcado para 15 de outubro, das 17h às 21h, na Lovely House Casa de Livros, na Galeria Metrópole, no centro de São Paulo. Às 19h, haverá uma conversa com Mônica Zarattini e as editoras Luciana Molisani e Andressa Cerqueira.

Outro encontro será realizado em 28 de novembro, das 14h às 16h, no auditório do Memorial da Resistência, na região da Santa Ifigênia. O espaço tem relação direta com a história narrada no livro: o pai da autora esteve preso no local, e ela própria passou uma noite detida no antigo Dops.

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