Inquérito da PF sobre lavagem de dinheiro de Flávio Bolsonaro alcança Cláudio Castro e Ramagem

Polícia Federal apura possíveis irregularidades envolvendo o ex-governador do Rio de Janeiro e o ex-diretor da Abin, com foco nas transações de Willer Tomaz, próximo a Flávio Bolsonaro
pf-apura-possiveis-irregularidades-envolvendo-o-ex-governador-do-rio-de-janeiro-e-o-ex-diretor-da-abin-com-foco-nas-transacoes-de-willer-tomaz-proximo-a-flavio-bolsonaro-fotos-tania-rego-agencia-brasil-zeca-ribeiro-camara-reproducao
PF apura possíveis irregularidades envolvendo o ex-governador do Rio de Janeiro e o ex-diretor da Abin, com foco nas transações de Willer Tomaz, próximo a Flávio Bolsonaro. Fotos: Tania Rego/Agência Brasil/Zeca Ribeiro/Câmara/Reprodução

O inquérito da Polícia Federal (PF) que apura suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) e o advogado Willer Tomaz também investiga possíveis irregularidades relacionadas ao ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL) e ao ex-deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ). A apuração reúne suspeitas sobre movimentações financeiras, contratos ligados ao mercado de apostas e pagamentos que teriam beneficiado o ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin). Leia em TVT News.

A investigação começou a partir de transações relacionadas ao setor de apostas. Após o nome de Flávio Bolsonaro aparecer no caso, o inquérito foi encaminhado ao Supremo Tribunal Federal (STF), sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes. Willer Tomaz, apontado como amigo do senador, é o principal foco da apuração. Ele também é investigado em um inquérito sobre suspeitas de fraudes relacionadas ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

>> Siga o grupo da TVT News no WhatsApp

PF apura licitação da Loterj e relação com Cláudio Castro

A investigação examina possíveis irregularidades em uma licitação de 2022 da Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj), vencida pela Pixs Cobrança, atualmente denominada RioPag. Segundo a PF, registros de mensagens e viagens encontrados nos arquivos de Willer indicam proximidade entre o advogado e Cláudio Castro, que governou o estado de maio de 2021 a março de 2026.

Na época da licitação, a Loterj era presidida por Hazenclever Lopes, nomeado por Castro. Os investigadores apontam que Hazenclever já mantinha vínculos profissionais e pessoais com Willer antes de assumir o cargo e levantam a suspeita de que o advogado seria o proprietário de fato da empresa vencedora.

De acordo com a apuração, a Pixs ofereceu repassar à Loterj 20% de sua remuneração, enquanto a concorrente propôs 26%. A empresa rival foi desclassificada por apresentar o percentual com duas casas decimais, em vez das três exigidas pelo edital. Sem concorrência, a Pixs negociou diretamente com a autarquia e elevou a proposta para 26,455%.

Willer Tomaz afirmou que não teve acesso ao inquérito e que soube da investigação pela imprensa. Disse que sua relação com Flávio Bolsonaro é de amizade entre famílias e negou manter sócios ocultos, contas não declaradas ou patrimônio escondido. Também declarou que a exclusão da concorrente decorreu do descumprimento de exigências formais do edital, sem ordem ou intervenção direta da Polícia Federal atribuída a ele.

A assessoria de Cláudio Castro confirmou que o ex-governador conhece Willer desde 2020 e mantém uma relação de amizade com o advogado, que teria atuado em processos de sua defesa sem cobrar honorários. Castro também confirmou que fizeram viagens juntos, mas afirmou que cada um pagava suas próprias despesas e as de seus familiares.

O ex-governador negou conhecer eventual vínculo de Willer com a Pixs/RioPag na época da contratação e disse desconhecer a relação entre o advogado e Hazenclever. Afirmou ainda que não participou da licitação, da contratação da empresa nem de tratativas envolvendo os envolvidos. Segundo sua assessoria, Hazenclever foi uma indicação política do PL para a presidência da Loterj, que possui gestão própria.

Investigação inclui pagamentos de R$ 270 mil ligados a Ramagem

No caso de Alexandre Ramagem, a PF investiga três pagamentos de R$ 90 mil, que totalizam R$ 270 mil, feitos à empresa Torre Comunicação Estratégica. Os investigadores suspeitam que o beneficiário final dos recursos seria o ex-deputado, que dirigiu a Abin durante o governo Jair Bolsonaro (PL). As transferências, no entanto, não foram realizadas diretamente a Ramagem: a Torre aparece como favorecida formal dos pagamentos.

A empresa afirmou que prestou serviços de assessoria de imprensa ao escritório de Willer Tomaz e Eugênio de Aragão. Segundo a Torre, o escritório contratou planejamento estratégico, monitoramento e treinamento de mídia para Ramagem, então pré-candidato à Prefeitura do Rio de Janeiro. A empresa declarou que o trabalho durou três meses, com três pagamentos de R$ 90 mil e emissão regular de notas fiscais.

Ramagem teve o mandato de deputado cassado em dezembro de 2025, após ser condenado pelo STF a 16 anos e um mês de prisão por participação na tentativa de golpe de Estado. Segundo a reportagem do ICL Notícias, ele estava nos Estados Unidos desde setembro de 2026. A defesa do ex-deputado e a de Hazenclever Lopes foram procuradas, mas não responderam até a publicação da matéria.

Empresa de Willer pagou viagens de Flávio à Europa

A apuração também investiga viagens de caráter pessoal de Flávio Bolsonaro à Europa, em 2025, custeadas por meio de uma empresa do setor de apostas pertencente a Willer Tomaz. Segundo a investigação, a empresa atuou como intermediária na compra das passagens e teria sido utilizada para pagar deslocamentos envolvendo familiares do advogado e do senador.

A PF aponta ainda que Flávio tinha acesso operacional relevante, como usuário master, a uma conta bancária da offshore Alcazar Holding, da qual Willer é sócio. Em maio de 2025, foi solicitada a retirada do acesso do parlamentar. Os registros encontrados pelos investigadores também incluem referências a festas, encontros e reuniões entre o senador e o advogado.

Até a publicação da reportagem original, a campanha de Flávio Bolsonaro não havia se manifestado sobre os novos desdobramentos. Em manifestação anterior, afirmou que a relação entre o senador e Willer era exclusivamente de amizade.

Assuntos Relacionados