Artigo do historiador Demetrius Ricco Ávila sobre as efemérides de Abril, especial para a TVT News.
Por Demetrius Ricco Ávila*
Nesta semana dá-se o início de mais um abril. Em meio à dúzia de meses do calendário, o de número quatro salta aos olhos porquanto abarrotado de incidentes com grande significado histórico, desde o primeiro de seus trinta dias: diz-se que o “dia dos bobos”, “dos tolos”, ou “da mentira” originou-se por volta de 1582, na Europa, quando o papa Gregório XIII resolveu implantar um novo calendário (o “gregoriano”, utilizado até o presente) em substituição ao instaurado em Roma, no ano de 46 a.C., por Júlio César.
A partir de então, modificou-se a entrada de cada novo ano para janeiro, havendo a resistência dos “bobos” que, por rebeldia ou mera ignorância, seguiam celebrando a passagem de ano na chegada de abril, conforme estabelecia o obsoleto calendário juliano.
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Nos murais da História, abril se pinta sobremodo com as tintas da tragédia. Esvai-se uma vida luminar em plena luta pela construção de um sonhado amanhã de regozijo; tanto quanto aporta neste mundo o que seria a mais bisonha expressão da barbárie. Ilustram tais asserções dois fatos humana e historicamente antípodas: o assassinato de Martin Luther King – no dia 04 de abril de 1968, em Memphis – e o nascimento de Adolf Hitler – a 20 de abril de 1889, em Braunau am Inn –, respectivamente.

Em terras brasileiras, o 21 de abril marca a execução, em 1792, do alferes mineiro que ousou pensar em liberdade ao tempo que éramos (tal como hoje, à diferença do caráter oficial da condição à época) colônia de país do Hemisfério Norte. Enforcado, esquartejado e esparramado estrada afora, cabeça posta em ignomínia, Tiradentes “reviveria” mais de um século depois como herói artificial da República recém-proclamada.
Abril da resistência democrática
No que toca à nossa vida republicana, registre-se mais um trágico 21 de abril, gravado na memória coletiva como capricho de Clio, musa da História e da criatividade conforme a mitologia grega. Nesse dia, em 1985, outro mineiro ilustre, Tancredo Neves, deixou este plano eleito o 33° presidente brasileiro, todavia não empossado.
Uma das consequências de sua partida – causada por uma diverticulite encarada com surpresa, espanto e boas doses de suspeição por muita gente – foi o arranjo, muito à brasileira, de vice-presidente para substituí-lo com legitimidade no mínimo incerta, principiando-se, assim, os anos economicamente hiperinflacionários do governo José Sarney.

O trágico desaparecimento do presidente jamais empossado não enseja, necessariamente, a afirmação segura de que Tancredo Neves faria uma administração excepcionalmente pródiga. A santificação post-mortem nem sempre permite entrever ações e inações pelo menos questionáveis. Edulcorado, Tancredo assim o era tanto para os grandes operadores do sistema, nacional e internacionalmente, quanto para a classe média obscurantista que apoiara o golpe de 1964.
Leve-se em conta, ainda antes disso, a anuência do político mineiro “conciliador” em relação à manobra golpista do parlamentarismo, em 1961, que apartara João Goulart dos poderes de fato da Presidência da República, neutralizando a espetacular vitória da Campanha da Legalidade liderada por Leonel Brizola, encetada desde Porto Alegre.
Não sem razões, portanto, realizaria Tancredo uma tal “transição” sem sobressaltos, tendo sido eleito indiretamente, pela confiança dos quartéis, do patriciado e do patronato . Eleito, além do mais, por um procedimento contrário aos anseios dos milhões que haviam tomado as ruas em 1984, bradando pela aprovação da Emenda Dante de Oliveira pelo Congresso Nacional.
Fazendo correr a vista por sobre o mês de abril no calendário, pode-se divisar o dia 22, marco cronológico especialíssimo para um civismo destituído de muito rigor historiográfico, sobreposto aos bancos escolares de outrora e, quiçá, de hoje.
Abril dos indígenas
A saber: não será desprovida de intenções a prolongada omissão quanto à denúncia dos múltiplos genocídios de ordem colonial e da deculturação eclesiástica das populações originárias, iniciados a partir da ancoragem, na atual Bahia, das naus chefiadas por Pedro Álvares Cabral, em abril de 1500.
Tamanha violência, “pecado original” no que toca à fundação de nossa nacionalidade, reproduz-se através de atos desgraçadamente sem fim. A cada 19 de abril, celebra-se no Brasil o “Dia do Índio”, instituído por Getúlio Vargas através do decreto-lei 5.540, de 1943 (em tempo: também Vargas veio ao mundo no mês de abril, no ano de 1882).
Mais de meio século depois dessa instituição, o cacique Galdino Jesus dos Santos fora a Brasília, pela segunda vez, valer-se da data no intuito de reivindicar a demarcação das terras dos Pataxó Hã-hã-Hãe, ao Sul do cabralino Estado da Bahia.
Ignorado pelo poder oficial, não regressaria da viagem: cinco abastados jovens brasilienses atearam fogo a Galdino enquanto o pataxó dormia, feito desvalido, em um ponto de ônibus da Capital Federal. Tendo ao menos 95% do corpo queimado, viria a falecer em 20 de abril de 1997.
Tiradentes e Galdino, no mês de “aniversário” do Brasil, personificam dois dentre tantos mártires da brutalidade que se fez marca genésica da construção do país, desde a primeira hora. De sangue é a tinta encarnada que colore o mural da nossa História. Se acaso a crueldade para com o inconfidente e o cacique, ao juízo de quem assimilou a estupidez como norma, não sustenta a afirmação de uma bestialidade entranhada, mormente nas classes de cima da sociedade brasileira, torna-se necessário rememorar outra carnificina de abril.
Em 1996, cerca de um ano antes do assassinato do cacique pataxó, dezenove trabalhadores rurais sem-terra foram assassinados pela Polícia Militar no Sul do Pará, em um sanguinolento incidente denominado “Massacre de Eldorado dos Carajás”.

Outros dois morreriam mais tarde, em decorrência dos ferimentos produzidos a bala e cassetete. Os trabalhadores, cerca de um milhar e meio, protestavam na rodovia PA-150, no trecho conhecido como Curva do “S”. Seu ato, reedição ou continuidade da longínqua luta pela terra, chaga aberta no corpo da sociedade brasileira e mote de Palmares de Zumbi, de Canudos de Antônio Conselheiro ou do cangaço de Virgulino Ferreira da Silva, tal como nesses eventos precedentes, foi de encontro à repressão atroz por parte do braço armado da classe dominante latifundiária – no mais das vezes, disfarçado de agentes do poder público.
O pavor que a expressão “reforma agrária” suscita nos poderosos terratenentes foi um dos elementos preponderantes para a derrubada de João Goulart, em 1964. O golpe, consumado realmente a 1º de abril, e não a 31 de março, como apregoa o senso comum, impediu a criação, àquela altura já muito bem projetada por um governo composto de diversos intelectuais deveras qualificados, de dez milhões de novas propriedades rurais. Um século antes, nos Estados Unidos da América, Abraham Lincoln estava cônscio da necessidade de se criar uma estrutura fundiária sadia para fins de desenvolvimento nacional, dentro de uma perspectiva capitalista.

Os tolos do 1º de abril brasileiro, em sua paranoia anticomunista “ianquecêntrica”, por aqui reverberada pela Escola Superior de Guerra, miravam a Jango como uma “ameaça vermelha”. Miseravelmente, ainda hoje, os herdeiros e beneficiários desta estultice comemoram e se locupletam, pois, com o vermelho dos muitos litros de sangue derramado e imiscuído à terra, sangue dos que, quanto a essa mesma terra, há meio milênio clamam pelo direito a uma modesta fração para viver e trabalhar com dignidade.
Sobre o autor
* Historiador; professor do Instituto Federal Sul-rio-grandense.

