A estreia e a despedida da Acadêmicos de Niterói no Grupo Especial do carnaval do Rio ocorreram no mesmo ano. Após levar para a Marquês de Sapucaí um enredo sobre a trajetória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva — da infância no Nordeste à chegada ao Palácio do Planalto — a escola terminou a apuração em último lugar, com apenas duas notas 10, ambas no quesito samba-enredo, e acabou rebaixada à Série Ouro. Problemas na dispersão, com alegorias presas na saída da avenida, comprometeram a evolução. Leia em TVT News.
Em entrevista ao Jornal TVT News Primeira Edição, o presidente de honra da agremiação, Anderson Pipico, vereador pelo PT e sambista histórico da cidade, fez um balanço político e cultural do desfile. “Foi uma derrota na Sapucaí, mas uma grande vitória na história do nosso país”, afirmou. “A primeira vitória foi garantir o desfile. A Sapucaí sempre foi um palco de disputa, de expressão do que a sociedade sente, das lutas das minorias. Sempre foi um espaço democrático e de resistência do povo negro.”
Para Pipico, o simples fato de a escola ter conseguido levar à avenida um enredo explicitamente político, em defesa da trajetória de um líder popular, já representa um marco. “A gente pode não ter tido o resultado que aguardava, mas com certeza a Niterói entra para a história do carnaval do Brasil. Daqui a alguns anos, podem não lembrar de muitos títulos, mas vão lembrar da escola que fez essa movimentação e levou esse recado.”
A Carnaval do Rio de Janeiro deste ano marcou a estreia da Acadêmicos no Grupo Especial, após ascensão pela Série Ouro. Segundo o dirigente, o desafio de permanecer entre as principais escolas é estrutural. “Nos últimos 10 anos, a escola que sobe é a escola que é rebaixada. Existe uma dificuldade muito grande. E a disputa do samba acontece na hora do desfile. Às vezes, por ser novata e por desfilar primeiro, os jurados pesam um pouco na mão”, avaliou.
Apesar das especulações sobre eventual preconceito ou sabotagem, Pipico adotou tom institucional. “Diferente de outros setores da sociedade, a gente não vai tacar fogo no corpo, não vai questionar resultado, não vai pedir voto impresso de jurado. Vamos sacudir a poeira e preparar um belo carnaval para 2027 para voltar à Sapucaí.”
Ele ressaltou que o momento é de coesão interna. “Agora é hora de ninguém soltar a mão de ninguém. Comunidade, direção, componentes, harmonia, percussionistas, aderecistas, carnavalesco, todo mundo junto. A gente alimentou esperança, mas sabia que seria difícil.”
Sobre o futuro artístico da escola, Pipico defendeu coerência ideológica. “A escola já vinha fazendo desfiles com posicionamentos mais progressistas. Desta vez, a visibilidade foi maior por estar no Grupo Especial e por ter o presidente Lula como tema. Isso coloca a Niterói em outro patamar. Acho que esse enredo consolida uma linha de crítica e de posicionamento político. E isso é natural. Escola de samba também se posiciona.”
O dirigente também destacou os efeitos simbólicos e políticos do desfile para a cidade de Niterói, governada há décadas por forças progressistas. “Desde 1989 há alternância entre PDT, PT e outros partidos do campo democrático. Niterói tem um dos maiores IDHs do país. Em 2025, registrou zero feminicídio, fruto de política de prevenção e monitoramento”, afirmou. Segundo ele, o município foi o único da região metropolitana do Rio onde Lula venceu no primeiro e no segundo turno das eleições presidenciais.
A projeção nacional da escola é apontada como um dos principais legados do desfile. “Muita gente que nunca tinha ouvido falar da Niterói passou a torcer pela escola. Recebemos pedidos do país inteiro para desfilar. Não conseguimos atender todo mundo, mas foi uma demonstração de carinho enorme. Isso abre uma nova perspectiva.”
Pipico celebrou ainda a conquista da coirmã Unidos do Viradouro, também de Niterói, campeã do Grupo Especial neste carnaval. “A gente fica chateado com o descenso da Niterói, mas muito feliz com a vitória da Viradouro. Eu desfilei lá também. Sou sambista na política, não político no samba”, disse, lembrando sua atuação de uma década na comissão municipal de carnaval ao lado do prefeito Rodrigo Neves.
Ao encerrar a entrevista, citou o verso do samba-enredo como síntese do momento: “Lute para vencer, aceite se perder. Se o ideal valer, nunca desista.” E concluiu: “Nós nunca vamos desistir da cultura do samba e da liberdade de expressão, no samba e em qualquer parte.”
