A ofensiva militar conduzida pelos Estados Unidos contra a Venezuela, que resultou no sequestro do presidente Nicolás Maduro, também deixou um rastro de mortes entre cidadãos cubanos que atuavam no país em missões de cooperação bilateral. De acordo com informações oficiais divulgadas por Havana e confirmadas pelo governo venezuelano, ao menos 32 cubanos, entre eles militares, morreram durante os bombardeios e ações terrestres realizados no fim de semana. O episódio elevou ainda mais a tensão internacional e reacendeu o debate sobre a presença cubana na estrutura de defesa venezuelana. Leia em TVT News.
Em pronunciamento oficial, o governo de Cuba afirmou que os cidadãos mortos integravam missões de cooperação técnica e de segurança estabelecidas a partir de acordos bilaterais firmados há décadas com Caracas. Segundo Havana, a atuação cubana na Venezuela sempre ocorreu a convite do Estado venezuelano e dentro da legalidade internacional. As autoridades cubanas classificaram o ataque como uma “agressão imperialista” e responsabilizaram diretamente o governo dos Estados Unidos pelas mortes.
A presidenta interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, prestou homenagem pública aos cubanos mortos, com destaque para os militares que integravam esquemas de segurança estratégica. Em cerimônia oficial, Delcy afirmou que os combatentes cubanos “caíram defendendo a soberania venezuelana e a paz regional” e ressaltou que a relação entre Venezuela e Cuba não se limita a alianças circunstanciais, mas é fruto de um projeto histórico de integração latino-americana. “São homens que deram a vida em nome da solidariedade entre povos irmãos”, declarou.
As homenagens ocorreram em meio a um clima de forte comoção em Caracas, com atos públicos, faixas e manifestações populares em solidariedade a Cuba. Em diversas declarações, autoridades venezuelanas enfatizaram que os cubanos mortos não eram mercenários, como sugeriram setores da imprensa internacional alinhados a Washington, mas integrantes de missões oficiais de cooperação, amparadas por acordos de Estado.
A cooperação entre Venezuela e Cuba remonta ao início dos anos 2000, com a chegada de Hugo Chávez ao poder e a assinatura de tratados que envolveram áreas como saúde, educação, energia e defesa. Ao longo dos anos, milhares de médicos cubanos atuaram em bairros populares venezuelanos, enquanto técnicos e assessores participaram da formação de quadros civis e militares. No campo da segurança, a colaboração incluiu treinamento, intercâmbio de inteligência e apoio à proteção de autoridades, sempre sob comando venezuelano.
Segundo analistas, a presença de cubanos na guarda pessoal de Nicolás Maduro e em estruturas sensíveis do Estado se explica tanto pela confiança política quanto pela experiência acumulada de Cuba em defesa institucional frente a ameaças externas. Reportagens recentes destacam que essa cooperação se intensificou após sucessivas tentativas de golpe, sanções econômicas e operações clandestinas contra o governo venezuelano. Para Caracas, trata-se de uma relação estratégica, baseada na lealdade entre governos que compartilham um projeto político soberano.
O governo cubano, por sua vez, destacou que as mortes representam uma grave escalada no conflito e um precedente perigoso para a América Latina. Em nota, Havana afirmou que a operação norte-americana violou a Carta das Nações Unidas e o direito internacional humanitário, ao atingir pessoal estrangeiro presente legalmente em território venezuelano. Cuba também exigiu garantias de segurança para seus cidadãos e o fim imediato das ações militares dos Estados Unidos.
Delcy Rodríguez reforçou esse posicionamento ao denunciar o ataque como parte de uma ofensiva mais ampla para controlar recursos estratégicos da Venezuela, especialmente o petróleo. Segundo ela, os cubanos mortos “são vítimas diretas de uma política de guerra que despreza vidas latino-americanas em nome de interesses econômicos”. A presidenta interina afirmou ainda que a memória dos combatentes será preservada como símbolo da resistência anti-imperialista.
No cenário internacional, as mortes de cubanos ampliaram a pressão diplomática sobre Washington. Países da região passaram a tratar o episódio não apenas como uma agressão à Venezuela, mas como um ataque que atinge diretamente outro Estado soberano. Para especialistas em relações internacionais, o envolvimento de Cuba torna o conflito mais complexo e pode acelerar articulações em fóruns multilaterais, como a ONU e a CELAC.
Enquanto isso, em Caracas e Havana, o discurso predominante é de unidade e continuidade da cooperação. Autoridades dos dois países reiteraram que os acordos bilaterais permanecem em vigor e que a solidariedade entre Venezuela e Cuba não será abalada pela violência externa. “Eles não morreram em vão”, afirmou Delcy Rodríguez. “Morreram defendendo o direito dos nossos povos de decidir o próprio destino.”
