Às vésperas das eleições presidenciais, as informações sobre um projeto de lei que retiraria de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil ainda ganha repercussão. A entrada de setores do neopentecostalismo na política não se resume à guerra cultural com outras religiões, mas, também a um projeto de poder. Saiba mais em TVT News.
Entenda como começou polêmica
A jornalista Maria Cristina, da Globo News, fez um comentário no programa “Em Pauta” afirmando ter um movimento na Igreja Católica à reação de uma parcela de evangélicos que estava mobilizando um projeto de lei para tirar Nossa Senhora de Aparecida da condição de padroeira do Brasil.
No comentário, ela avaliou que isso poderia surtir efeito entre os católicos a favor do Lula. A fala viralizou e a GloboNews fez um comunicado para dizer que a proposta foi apresentada em 2007, mas arquivada pela Câmara dos Deputados em 2008 e, se desculpando pelo erro.
No entanto, rapidamente, levantou-se que o pastor que era autor desse projeto de lei arquivado era Victório Galli, ligado à Assembleia de Deus e aliado de Bolsonaro, fazendo inclusive, parte da equipe de campanha eleitoral. Além disso, o bispo JB Carvalho, responsável por batizar Flávio Bolsonaro, defendeu em seu livro “A Bomba: A verdade pode ser explosiva”, que Nossa Senhora deixasse de ser padroeira do Brasil.

A origem dos ataques à Nossa Senhora
O teólogo Bruno Reikdal é evangélico e coordenador da pós-graduação em Teoria Crítica da Sociedade ICL-Bicocca. Para ele, quando Flávio Bolsonaro faz a afirmação de que “O Brasil é para o senhor Jesus” ele está acenando para o grupo que compõe a maioria dos eleitores mobilizados do bolsonarismo que são os evangélicos.
“O apelo à direita, e especialmente da extrema direita, aos evangélicos foi um modo encontrado e construído nos últimos 15 anos para poder furar uma bolha que era de voto majoritário à esquerda, porque a base evangélica, majoritariamente as pessoas que são fiéis evangélicas, não as lideranças, são mulheres negras das periferias, com menor escolaridade, menor renda”.

Reikdal explica que, a partir dos anos 1980, as igrejas pentecostais, dentro do contexto da redemocratização, começaram a buscar acessos às estruturas de poder ou de algum privilégio dentro do estado. Várias pequenas igrejas, de várias denominações, especialmente das Assembleias de Deus, estavam crescendo no país. Com o processo de modernização forçado, na segunda metade do século XX, e com a chegada de pessoas nas cidades sem apoio e sem rede, as igrejas se tornaram uma espécie de suporte para os mais pobres nas periferias.
“Esse grupo cresce muito alinhado ao projeto de expansão com o regime militar, com a ditadura, porque era o modo de conseguir algum acesso nesse projeto, conseguir terreno, conseguir facilidade para aprovação de uma construção e coisas do tipo”, argumenta Reikdal.
“Quando vem o anúncio da redemocratização, as estratégias dessas lideranças precisam alterar, então, eles percebem que não dá para você fazer um alinhamento automático com o estado, porque você vai ter, potencialmente, alternância de poder. Então, o modo mais inteligente e interessante é participar desse jogo democrático”, expica o teólogo.
O anti-catolicismo nasce para convencer os fiéis a votar em representantes que lutassem ou defendessem o os interesses da instituição por meio dessa defesa da liberdade religiosa.
Ainda nos anos 1980, o jornal Mensageiro da Paz, das Assembleias de Deus, traz o artigo “Liberdade religiosa ameaçada no Brasil” do pastor Gustavo Kessler, que fala exatamente sobre a questão de ter um projeto de lei aprovado que oficializava o dia 12 de outubro, como dia de Nossa Senhora Aparecida.
“Para Kessler isso era um atentado à liberdade religiosa e um risco para os cristãos. […] isso se torna um grande mote para campanhas políticas durante os 20 anos seguidos, praticamente”, conta o teólogo.

No início dos anos 1990, na primeira Marcha para Jesus, a fala da marcha é “o Brasil é do Senhor Jesus”.
“Então, já é uma explosão, uma um ápice desse movimento que, progressivamente, deixa de ser uma defesa do estado laico, de medo de perseguição e passa a ser uma proposta de agenda. Quando o Flávio Bolsonaro faz esse aceno de reforçar esse jargão de que o Brasil será de Jesus, ele está retomando toda essa história”.
É possível rebaixar Nossa Senhora Aparecida?
O bispo diocesano de Mogi das Cruzes, Dom Pedro Luiz Stringhini, explica que o título religioso nenhum governo ou Congresso pode retirar, que a condição de padroeira vem de 1931 e foi dada pelo Papa Pio XI. “É um título dado pelo papa da época, numa época em que a população católica era mais de 90% […] esse título que foi dado pela igreja em 1931, foi reconhecido civilmente, em 1980, quando o Papa João Paulo II visitou a Basílica e fez a dedicação da Basílica à Nossa Senhora”, explica o bispo.
Na época em que a padroeira foi reconhecida por João Paulo II, o Brasil vivia uma ditadura militar e o presidente era João Batista Figueiredo. “A igreja não vai retirar, então ela continua sendo [padroeira] e os católicos continuam venerando. Embora, haja sim, pastores, este que fez o projeto de lei e outros que querem, de fato, retirar, eu penso que o governo ou o Congresso nunca vão entrar nisso porque está na alma do povo brasileiro, vai além dos católicos”, opinou o bispo.
Na internet, com a veiculação da polêmica, além dos católicos, evangélicos progressistas, religiosos de matriz africana e ateus defenderam Nossa Senhora como padroeira do Brasil. “Há tantos que não são católicos, que não tem religião nenhuma e que, no entanto, apreciam a figura de Nossa Senhora Aparecida, esse título, tudo o que ele contém de religioso, folclórico, cultural, histórico”.
Qual a origem da devoção à Nossa Senhora Aparecida
Em 1717, três pescadores teriam encontrado no rio Paraíba do Sul uma imagem de Nossa Senhora da Conceição sem cabeça e de madeira escurecida. Em seguida, a cabeça da imagem foi também encontrada. Os pescadores passaram a pescar em abundância e a imagem atraiu novos devotos.

Para a Igreja Católica,, Nossa Senhora Aparecida é a mãe de Jesus Cristo. “O Brasil metade da população é composta por negros e toda a história sofrida que tem os negros e que vieram da África como escravos e toda a história desta imagem que depois libertou um escravo das correntes. Tudo tem uma significação ou um significado além do religioso, histórico, cultural, popular para o povo”, explicou o bispo.
Ainda, segundo Stringhini a frase “O Brasil é para o senhor Jesus” é uma frase ideológica e não religiosa. “Vem dos Estados Unidos, de correntes ideológicas protestantes […] um conteúdo, inclusive, discriminatório, que os evangélicos é que comandam. Insisto, não são todos os evangélicos que pensam assim, mas há os que pensam desse jeito”.
O que diz a CNBB
A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos) divulgou uma nota, em que, nega ter participado de qualquer divulgação de informações falsas, também informou que as manifestações sobre as eleições “decorrem de sua missão pastoral e de princípios públicos expressos em seus documentos, orientados pela dignidade humana, pelo bem comum, pela democracia e pela liberdade de consciência”.
Impacto nas urnas
A 16ª rodada da pesquisa BTG Pactual/Nexus mostra que entre o eleitorado evangélico, Flávio atinge 57% da preferência ante 35% de Lula. Já a Quaest, divulgada nesta segunda-feira (28), mostra que Lula avançou entre os católicos passando no primeiro turno de 43% para 48%. Flávio Bolsonaro caiu de 29% para 27%. Já no segundo turno, Lula passou de 46% para 50%.
Lula também cresceu entre os evangélicos no primeiro turno, passando de 28% para 30%, Flávio caiu de 58% para 54%, na pesquisa Quaeset.