Características negativas estão presentes em 10 a cada 10 calçadas na cidade de São Paulo. É o que mostra o estudo “Diferenças no microambiente para atividade física no lazer e deslocamento em São Paulo”, publicado pela Revista de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP). Saiba mais em TVT News.
“Só 0,1% das calçadas avaliadas não tinham características negativas […] A gente verificou que as regiões, mais ao extremo de São Paulo, são menos desassistidas, têm piores condições de estética, condições de cobertura de árvores, de calçada, tem menor quantidade de semáforos para os pedestres, piso tátil, rampa, faixa de pedestres. Condições mínimas para que as pessoas realizem os deslocamentos”, explica a doutora em ciências pela USP e coordenadora do estudo, Elaynne de Oliveira.
Para Raquel Rolnik, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e Design da Universidade de São Paulo, é um absurdo que um espaço fundamental para as pessoas se deslocarem ser completamente negligenciado como política pública. “Na verdade, a equação que a gente tem hoje em relação às calçadas, é de que, cada proprietário é responsável pela manutenção e pela produção e gestão da calçada em frente ao seu imóvel. Então, já começa a ter um problema enorme, de não ter um projeto único, de não ter uma continuidade e muito menos uma fiscalização. De não entender que a calçada é um espaço público da maior importância”, criticou.
Rolnik destaca que o tratamento do poder público do local onde o carro passa é diferente. “É absolutamente pavimentado, repavimentado. Um dos maiores gastos da prefeitura é para os automóveis poderem circular, mas para as pessoas nada”.
Levantamento da Folha de S. Paulo feito com dados abertos do orçamento municipal mostra que a prefeitura de São Paulo, entre 2021 e 2024 destinou 15% dos seus investimentos para pavimento, o que totaliza quase R$ 7 bilhões.
O estudo mostrou que, entre os problemas, 69,7% não tinham acessibilidade, em 88% faltavam infraestrutura para pedestres e em 99% faltavam árvores e coberturas áreas.
Racismo urbano
As zonas Leste e Sul apresentam os piores índice de qualidade das vias. O entorno das residências na região Centro-Oeste apresentou os maiores escores gerais, ou seja, tem melhor condição das vias. No estudo, os indivíduos com maior escolaridade, autodeclarados brancos ou amarelos e, com 60 anos ou mais, residiam em áreas com melhores escores de estética, aspectos sociais, presença de árvores, coberturas aéreas, calçadas, cruzamentos. A pesquisa também mostrou que pessoas com menor escolaridade e autodeclaradas pretas ou pardas viviam em áreas com piores condições de vias.
“Maior escolaridade, pessoas que se autodeclaram brancas e amarelas […] elas vivem em ambientes melhores na cidade de São Paulo. Já, pessoas pretas e pardas, de menor escolaridade, vivem em ambientes piores. Geralmente, essas pessoas se concentram também nas regiões dos extremos […] ao todo, a gente avaliou mais de 11.200 trechos de calçadas, nas cinco regiões de São Paulo”, contou a coordenadora do estudo.
A professora de arquitetura da USP resgata que na cidade de São Paulo os territórios de exclusividade branca são as áreas de mais alta renda e têm uma infraestrutura de qualidade urbanística muito melhor. “Vai piorando na medida em que esses territórios vão ficando cada vez mais populares e, portanto, cada vez mais não brancos. Isso também significa uma diferenciação e uma espécie de racismo na constituição da cidade que não respeita e não promove as condições de saúde e bem-estar de forma igualitária para o conjunto da população”, ponderou.
Foi analisada uma amostra de 1434 pessoas e 1205 domicílios e do entorno dessas pessoas, durante o período de dois anos, utilizando o Google Earth, com imagens via satélite. Com os endereços do grupo, os pesquisadores fizeram um georreferenciamento do deslocamento que a pessoa faria da casa para o centro comercial mais próximo, por exemplo. Nesse percurso, a pessoa poderia fazer um deslocamento ativo, relacionado a atividade física.
Qualidade de vida

Elaynne afirma que, ao relacionar esses dados com outros indicadores de desigualdade, como o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), é possível ver que o IDH é melhor em regiões centrais e pior em regiões mais periféricas.
“Viver em cidades desordenadas ou com muitos problemas de infraestrutura, vai diminuir a chance de fazer atividade física no tempo livre, porque o bairro não apresenta tantos equipamentos como infraestrutura para ela fazer uma caminhada e, essa caminhada é no tempo de lazer e no deslocamento. Então, as pessoas são menos ativas”.
Mapa da Desigualdade de São Paulo de 2025 mostra que a maior expectativa de vida da cidade é no alto de Pinheiros, de 82 anos, enquanto, a pior, em Cidade Tiradentes, de 62 anos.
A pesquisadora também cita a estética, que não está presente em 81,3% das vias, interfere nesse contexto. “Morar em bairros que tem uma estética desagradável, isso inclui excesso de lixo, pouca sombra faz com que as pessoas não sintam prazer em estar naqueles ambientes. Elas usam aquele ambiente por necessidade, não por vontade”, argumentou.
O estudo recomenda a necessidade de formulação de políticas públicas urbanas e ações em áreas como as regiões Leste e Sul de São Paulo, e para pessoas em contexto de maior vulnerabilidade social, como a população preta e parda para contribuir para a justiça espacial.
“No que se refere especificamente às calçadas, o que a gente precisa é ter uma política clara de produção, gestão, manutenção e conservação das calçadas e dos passeios, unificada e universal, que cubra a totalidade da cidade, o que a gente não tem hoje”, concluiu Rolnik.
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