A Cannabis é usada no tratamento medicinal, no tratamento de dores crônicas, alterações neurológicas e também para casos de Transtorno do Espectro Autista (TEA). Durante o evento “Cannabis e Autismo: Informação e Inclusão”, realizado no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC (SMABC), os metalúrgicos assinaram uma carta de intenções para a instalação de uma unidade da Associação Terapêutica Flor da Vida em espaço cedido pela entidade. O objetivo é ampliar o acesso à saúde por meio de tratamentos e medicamentos à base de Cannabis para os sócios, seus dependentes e toda a sociedade. Saiba mais em TVT News.
Autismo e o uso da Cannabis
A Suzana Bonfim, é mãe do Jean de 2 anos, o pai é trabalhador na Mercedes Benz e, apesar da criança não fazer uso de nenhum medicamento, eles fizeram questão de comparecer ao evento. Os pais desconfiaram que Jean estava no espectro autista porque precisava de muito estímulo para tarefas simples. “Ele chegou a fazer fisioterapia com 4 meses para aprender a rolar e sentar e, com o tempo, a gente foi notando alguns detalhes: como andar na ponta dos pés”. Ela conta que Jean também teve regressão na fala, deixando de falar algumas palavras. “Hoje, ele não fala nenhuma palavra”, disse.
Para Suzana, iniciativas de prestar informações sobre autismo e o uso da Cannabis são importantes para conscientizar outras pessoas. “A gente encontra algumas barreiras na sociedade, de entendimento. De ver ele [Jean] como um ser humano, que não é uma birra, é uma condição, ele é neuroatípico”, afirmou.
Um dos organizadores do evento, Cristiano Rodrigues coordenador da Comissão de Pessoa com Deficiência do SMABC, acredita que a iniciativa de ceder um espaço para a instalação da associação, ajuda a mostrar para a população que o sindicato não discute apenas salário e emprego, mas também a saúde da comunidade ao redor.
“Eu sou trabalhador na Volkswagen. Tem trabalhador que eu conheço há 15 anos e vim saber recentemente que o filho é autista”. Segundo Rodrigues, se o sindicato tem condição de fazer essa ação, as empresas e as prefeituras também têm. “O que mais acontece na firma é você ver pai que [o filho] está fazendo um tratamento em alguma clínica pelo convênio e, no dia seguinte, é cancelado. Como fica a situação dessa criança? Dependendo do período que ela fica sem o tratamento tem que começar tudo de novo, do zero”, contou.
Também participou do anúncio de parceria, o presidente do sindicato, Moisés Selerges. “Esse tema está cada vez mais presente na sociedade e o sindicato precisa debatê-lo. A saúde pública voltada para essa questão é também uma responsabilidade da nossa categoria, não apenas porque os trabalhadores e trabalhadoras enfrentam essa realidade, mas porque muitas pessoas vivem essa situação”, afirmou
O dirigente também destacou o papel do sindicato na defesa dos trabalhadores para além das fábricas. “Uma das nossas principais características é representar os metalúrgicos e metalúrgicas não apenas dentro da indústria, mas fora dela. Claro que lutamos por melhores salários e condições de trabalho, mas queremos garantir qualidade de vida para todos. Por isso, esse debate é tão importante”.
Associação Terapêutica Cannabis Medicinal Flor da Vida
A Associação Terapêutica Cannabis Medicinal Flor da Vida é uma entidade sem fins lucrativos, fundada em 2019 na cidade de Franca, interior paulista. Com transparência e responsabilidade, a instituição promove saúde, bem-estar e reparação social. Atualmente, atende muitas famílias associadas em todo o país.
O presidente da Flor da Vida, Enor Machado, conheceu a Cannabis por intermédio do Eduardo, seu sobrinho, que foi diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista aos 2 anos. “Hoje, ele tem 8 anos e está muito bem, mas na época, quando a gente precisou, a gente não tinha condição financeira para arcar. E não é uma exclusividade, porque o medicamento nas farmácias importadas era a partir de R$ 1500”. Depois disso, eles travaram uma luta na justiça pelo direito de plantar e fabricar o próprio óleo.
Hoje, a instituição quer democratizar o acesso ao óleo. “A Cannabis e o remédio já estão regulamentados no Brasil para quem tem dinheiro e, tem uma maior população, que por conta da sua condição não tem acesso ao remédio e aí vem as associações e conseguem oferecer com um valor de 10% do que é oferecido”, relatou.
O ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Paulo Teixeira, esteve na mesa de discussão e lembrou o papel de associações como a Flor da Vida que enfrentaram o judiciário e a polícia pelo direito de produzir os óleos advindos da Cannabis. “Eles começaram a plantar, tratar e obtiveram resultados incríveis. Já atendem, pelo menos, 20 mil pacientes, muitas vezes gratuitamente. A instituição se expandiu para diversas cidades e, agora, chega aos Metalúrgicos do ABC. Precisamos aprovar o PL [Projeto de Lei] 399 para garantir o uso medicinal da Cannabis. Vamos unir forças, mobilizar as associações e pressionar o Congresso por essa causa essencial. Esse sindicato, que já venceu grandes batalhas, pode liderar essa luta vitoriosa também”.

Já o deputado estadual Eduardo Suplicy destacou que em São Paulo a busca por tratamento medicinal da Cannabis no SUS (Sistema Único de Saúde) cresceu 384% em cinco anos.
“Engajei-me nessa luta também por experiência própria: no fim de 2022, após exames, meu médico diagnosticou-me com uma leve doença de Parkinson. Sem conhecer bem a condição, segui a medicação prescrita. Com o tempo, descobri a Cannabis medicinal e relatos de melhora em crianças com autismo. Resolvi experimentar sob orientação médica e hoje tomo três gotas no café, três no almoço e oito no jantar. Quero ajustar a dose para me sentir melhor”.
A Comissão dos Metalúrgicos do ABC com Deficiência tem ampliado, desde fevereiro, o diálogo com o Consórcio Intermunicipal Grande ABC e a Agência de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC sobre a distribuição gratuita, via SUS (Sistema Único de Saúde), de canabidiol.
A proposta é expandir regionalmente o modelo implementado em Ribeirão Pires no último dia 19. A cidade foi a primeira do país a contar com uma clínica pública para a dispensação de medicamentos à base de canabidiol produzidos no Brasil, em parceria com a Associação Terapêutica Flor da Vida. Em 2022, o município sancionou uma lei que estabelece as diretrizes para a Política Municipal de Medicamentos formulados à base de canabidiol.