Os desfiles das escolas de samba do Grupo Especial do Carnaval 2026 de São Paulo começam na próxima sexta-feira (13) e vão até sábado (14). No meio dos diversos sambas-enredo das 14 agremiações principais, sete se destacam pelas temáticas que abordam questões sociais e de luta à homenagens a personalidades brasileiras admiráveis, indo de debates sobre reforma agrária, preservação ambiental e direitos dos povos originários a exaltação da cultura e religiosidade afro-brasileiras.
As composições da Mocidade Unida da Mooca, Dragões da Real, Acadêmicos do Tatuapé, Vai-Vai, Mocidade Alegre, Gaviões da Fiel e Camisa Verde e Branco vão levar ao Anhembi manifestações políticas, históricas e identitárias, com sambas que servem de instrumento de consciência e resistência cultural. Veja os detalhes dos sambas-enredo das sete escolas na TVT News.

Mocidade Unida da Mooca: GÈLÈDÉS – Agbara Obinrin
A Mocidade Unida da Mooca, primeira escola a desfilar na sexta-feira (13), a agremiação da Zona Leste levará para o Anhembi o enredo GÈLÈDÉS – Agbara Obinrin, uma celebração ao poder ancestral e político das mulheres negras. Após o vice-campeonato do Grupo de Acesso 1 no ano passado, a MUM mantém a linha de desfiles com viés social e transforma a avenida em um espaço de manifesto, batizado pela equipe criativa de “quilombo intelectual”.
Assinado por Lucas Donato e outros compositores, o samba-enredo combina a espiritualidade de matriz africana com discurso de resistência. Termos como Itã, Xirê e Ori aparecem ao lado de versos de enfrentamento, como “Quero ver, Casa-Grande vai tremer / No meu Quilombo é noite de Xirê!”. O refrão resgata a frase “Ninguém solta a mão de ninguém”, enfatizando a união e a sororidade como pilares da luta coletiva das mulheres negras por reconhecimento e igualdade.
A obra musical dialoga diretamente com a homenagem ao Geledés – Instituto da Mulher Negra, que completa mais de 37 anos de atuação no combate ao racismo e ao sexismo no país. A proposta, desenvolvida pelo carnavalesco Renan Ribeiro e pela enredista Thayssa Menezes, amplia o tributo para além de figuras individuais, celebrando o legado de intelectuais e ativistas como Sueli Carneiro, fundadora do Instituto; Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento, Laudelina de Campos Melo, Conceição Evaristo, Rosana Paulino e Leci Brandão. O desfile pretende apresentar essas trajetórias como parte fundamental da construção do pensamento social brasileiro.
A estética do desfile deve mesclar guelés, tecidos africanos e referências a livros, salas de aula e espaços de saber, simbolizando a ocupação intelectual e política das mulheres negras.

Dragões da Real: Guerreiras Icamiabas – Uma lendária história de força e resistência
Já a Dragões da Real vai abordar a força da ancestralidade indígena para embalar seu desfile no Carnaval de São Paulo em 2026. O samba-enredo Guerreiras Icamiabas – Uma lendária história de força e resistência conduz a narrativa da escola da Vila Anastácio com um mergulho na mitologia amazônica ao contar a saga das mulheres guerreiras que, segundo a lenda, viviam sem homens às margens do Rio Nhamundá. Com versos que exaltam a “alma da floresta em oração” e incorporam termos de línguas originárias, a obra musical se propõe a ser o fio condutor de um desfile que une tradição, identidade cultural e mensagem social.
Assinado pelos compositores Renne Campos, Márcio Biju e Alemão do Pandeiro, o samba é descrito pela direção da escola como vibrante e de fácil evolução, com uma cadência que favorece o canto forte da comunidade. A letra evoca elementos espirituais da natureza, como a lua, os rios e entidades protetoras da mata, focando no sagrado das Icamiabas. A interpretação ficará a cargo do intérprete oficial Renê Sobral, que deve imprimir emoção ao longo da avenida.
A musicalidade também será reforçada pela bateria “Ritmo que Incendeia”, comandada por Mestre Klemen Gioz, que prepara uma levada com batidas tribais e marcação intensa de surdos, simulando tambores de guerra e criando uma atmosfera de batalha e resistência. A proposta é transportar o público para o universo das guerreiras, conectando o som da bateria ao conceito de força feminina e defesa do território. A cantora Lexa, anunciada como madrinha de bateria, integra a corte e deve ajudar a amplificar a presença cênica do segmento.
A Dragões da Real vai ser a terceira escola a desfilar na sexta-feira (13).

Acadêmicos do Tatuapé: Plantar para colher e alimentar. Tem muita terra sem gente, tem muita gente sem terra
A Acadêmicos do Tatuapé ecoa o samba-enredo com uma forte crítica social para marcar sua passagem pelo Carnaval de 2026. Vice-campeã do Grupo Especial no ano passado, a escola da Zona Leste leva ao Anhembi o tema Plantar para colher e alimentar. Tem muita terra sem gente, tem muita gente sem terra, trazendo à avenida uma reflexão sobre a desigualdade agrária e a função social da terra. O samba, interpretado por Celsinho Mody e embalado pela bateria “Qualidade Especial”, sustenta a narrativa com uma melodia “valente”, pensada para traduzir a luta histórica do povo do campo.
A composição, assinada por um time numeroso de autores, alterna trechos de lirismo místico e denúncia. A letra resgata a cosmogonia indígena, evocando Tupã como criador da agricultura, antes de avançar para capítulos mais duros da história brasileira, como o latifúndio, a escravidão e os conflitos populares por terra. Versos como “Divide esse chão, pro nosso povo colher!” sintetizam o tom de reivindicação, enquanto o refrão celebra o trabalho do lavrador como ato de fé e resistência.
No desenvolvimento musical, o samba também presta homenagem direta à agricultura familiar e ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), exaltando o pequeno produtor como responsável por alimentar o país. Em contraste, critica práticas predatórias do agronegócio, associadas ao uso de venenos e ao desmatamento. A proposta é unir consciência política e clima festivo às referências ao cotidiano rural em uma “liturgia do lavrador” que transforma a colheita em celebração coletiva.
Com projeto idealizado pelo carnavalesco Wagner Santos, a Tatuapé será a quarta escola a desfilar na sexta-feira (13).

Vai-Vai: A Saga Vencedora de um povo heróico no apogeu da vedete da Pauliceia
O samba-enredo da Vai-Vai para o Carnaval de 2026 nasce como um hino de exaltação ao povo trabalhador e à memória cultural de São Paulo, trazendo cinema, história e resistência social à avenida. Com o enredo A Saga Vencedora de um Povo Heroico no Apogeu da Vedete da Pauliceia, a escola aposta em uma obra coletiva, assinada por Vagner Almeida, Danni Almeida e parceiros, pensada para ser de fácil canto e rápida adesão da comunidade.
A letra mistura referências à estética cinematográfica, como luz, câmera e cartaz, com o cotidiano de quem construiu a cidade com as próprias mãos. O operário, o imigrante, o nordestino e o povo negro do Bixiga aparecem como protagonistas da história, substituindo heróis fictícios por personagens reais. Versos como “Quem trabalha tem alma e coração / não é ferro, nem máquina da exploração” reforçam a temática do desfile, que questiona o progresso a qualquer custo e valoriza a dignidade humana como eixo central da narrativa.
A identidade da “Escola do Povo” também está marcada na obra. Termos como “Nação Alvinegra” e “Saracura” recobram o pertencimento da comunidade da Bela Vista, berço da Vai-Vai, enquanto a mensagem de resistência ecoa nas arquibancadas. A frase “Se desacreditar, vai parar geral” virou grito de guerra entre os integrantes e simboliza o espírito combativo que a agremiação pretende levar para o Anhembi.
É por meio do samba inspirado no teatro de revista e na era de ouro do cinema, que a Vai-Vai pretende reconectar passado e presente, reafirmar sua raiz popular e buscar o retorno ao topo do Carnaval paulistano.
A Vai-Vai será a sexta escola a desfilar na avenida na sexta-feira (13).

Mocidade Alegre: Malunga Léa – Rapsódia de Uma Deusa Negra
A Mocidade Alegre vai levar para o Sambódromo do Anhembi um samba-enredo que exalta a ancestralidade e o protagonismo feminino negro. Com o tema Malunga Léa – Rapsódia de uma Deusa Negra, a “Morada do Samba” prepara uma narrativa biográfica para celebrar o legado da atriz Léa Garcia, tornando sua trajetória de luta, arte e resistência em poesia cantada. Interpretado por Igor Sorriso, o samba foi concebido como um manifesto de reverência e afirmação identitária, conectando a homenageada à espiritualidade afro-brasileira e à força coletiva das comunidades negras.
Assinada por um coletivo de compositores, a obra traz referências religiosas e culturais logo nos primeiros versos, com as saudações “Laroyê”, “Mojubá” e “Arroboboi”, rememorando orixás e tradições de terreiro. A letra costura passagens da carreira de Léa, ícone do teatro e da televisão, a símbolos de resistência histórica, citando marcos como o Teatro Experimental do Negro e obras como Orfeu. No refrão, expressões como “a pele preta é armadura” e “no palco, expressão de liberdade” ressaltam o tom político e celebratório do enredo.
A proposta musical também dialoga com a estética do desfile. Sob o comando de Mestre Sombra, a bateria “Ritmo Puro” deve incorporar levadas inspiradas no Jongo e em ritmos ancestrais, criando uma batida que mistura o tradicional andamento do samba com elementos de matriz africana. A intenção é que o som amplifique a narrativa dos três atos pensados pelo carnavalesco Caio Araújo: ancestralidade, resistência e consagração, conduzindo o público por uma rapsódia emotiva que transforma dor em celebração.
A Mocidade Alegre será a terceira escola a desfilar na segunda noite do Grupo Especial, no dia 14.

Gaviões da Fiel: Vozes Ancestrais para um Novo Amanhã
A Gaviões da Fiel aposta em um samba-enredo com carga política, espiritual e identitária para o desfile de 2026. Com o enredo Vozes Ancestrais Para Um Novo Amanhã, a escola cria um manifesto em defesa dos povos originários e da preservação ambiental. A trilha é conduzida por uma obra assinada por 11 compositores, entre eles Renato do Pandeiro, Rica Leite e Luciano Rosa. A proposta é unir poesia, resistência e ancestralidade em um canto que vai além do espetáculo visual.
A letra mergulha na cosmologia indígena, incorporando termos como Yakoana, Xapiri e Omama para evocar espiritualidade, criação e conexão com a natureza. Ao mesmo tempo, o samba traz um tom de denúncia ao citar a Xawara, símbolo de doença e destruição, como ameaça que corrói a mata e os sonhos. A composição equilibra misticismo e alerta social, em uma narrativa que associa o futuro da humanidade ao respeito às florestas e aos saberes tradicionais.
O refrão principal sintetiza esse espírito combativo e coletivo: “Yandê, Yandê… vai tremer a terra / Eu sou de paz, mas tô pronto pra guerra”. O verso reforça a identidade histórica da Gaviões como a “Torcida que Samba”, conhecida por discursos firmes e engajados, agora direcionados à luta por território, dignidade e reconhecimento dos povos indígenas.
Na avenida, a obra será potencializada pela bateria Ritmão, comandada por Ciro Castilho, que promete bossas inspiradas em rituais e sons da natureza para ampliar a atmosfera sensorial do tema. A Gaviões será a quarta escola a desfilar no sábado de Carnaval (14).

Camisa Verde e Branco – Abre Caminhos
A Camisa Verde e Branco tenta encerrar o jejum de 33 anos sem títulos no Carnaval de São Paulo com o tema Abre Caminhos. A escola da Barra Funda leva para o Anhembi uma homenagem a Exu, orixá da comunicação, do movimento e da transformação, em uma proposta que une religiosidade, identidade de rua e afirmação cultural. Sétima e última agremiação a desfilar no sábado (14), o Trevo encerra a noite com um canto que funciona como manifesto contra o preconceito às religiões de matriz africana.
Assinado por compositores como Silas Augusto e Cláudio Russo, o samba traz uma letra direta e de forte apelo popular, que exalta o chamado “Exu catiço” e as entidades das encruzilhadas. Versos como “Eu sou da rua, macumbeiro, sim sinhô” assumem com orgulho a herança espiritual e territorial da escola, enquanto trechos dedicados às Pombagiras destacam o protagonismo feminino e a liberdade.
Nos ensaios técnicos, a obra mostrou grande poder de comunicação com o público. Puxado pelo intérprete Charles Silva, o carro de som ganhou reforço de uma ala musical feminina, que garantiu sustentação vocal e ajudou a manter a harmonia em alto volume do início ao fim do percurso. A tradicional “Bateria Furiosa” sustentou a cadência característica da escola, com bossas e subidas de surdo marcando os momentos-chave do samba, especialmente no verso “é olho que tudo vê”, um dos mais celebrados pela comunidade.
Com um enredo denso e um samba de forte identidade, o Camisa Verde e Branco vai na linha da mescla entre religiosidade, rua e resistência cultural para transformar emoção em pontos na competição.

