“As pessoas negras nunca saem do mesmo lugar”, afirma escritora Patricia Xavier

Autora de “Céu Azul é Tempestade”, Patrícia Xavier conta para a TVT News como foi processo de criação do livro e reflete sobre Brasil desigual e reparação histórica
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“Céu Azul é Tempestade” fala sobre reparação financeira a descendentes de pessoas que foram escravizadas. / Foto: Divulgação

“Eu estou escrevendo ‘Céu Azul é Tempestade’, há décadas”, afirma a escritora e jornalista Patricia Xavier sobre o seu novo livro. O título conta a trama de Tereza e seus filhos Cido e Juninho que serão os primeiros contemplados por uma decisão histórica: a retratação financeira pelo trabalho dos antepassados escravizados. A conquista, porém, não é aceita pelos donos das terras da pequena Águas Correntes, descendentes daqueles que escravizaram os antepassados de Tereza e de outros habitantes locais. Em uma madrugada, ela recebe uma ameaça: se aceitar a quantia de dinheiro, seus filhos morrem. Em entrevista à TVT News, Patricia Xavier conta o que a levou a escrever o “Céu Azul é Tempestade” e o porquê ele precisa ser lido em um país desigual e racista.

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“Minha motivação, para escrever essa história, veio de uma profunda indignação”, afirma autora Patricia Xavier. / Foto: Divulgação

Céu Azul é Tempestade e reparação financeira

TVT News: Patricia, conta um pouco para nós sobre a trama do livro “Céu Azul é Tempestade”.

Patricia Xavier: “Céu Azul é Tempestade” fala sobre reparação financeira a descendentes de pessoas que foram escravizadas. Eu coloquei essa trama numa cidade pequena, do interior de São Paulo. O núcleo principal é uma família, a família da Tereza, ela mora nessa cidade com dois filhos.

E a Teresa, depois de muitos anos de luta com o poder político local, conseguiu finalmente com que esse projeto de reparação passasse na câmara da cidade. A questão é, que com essa conquista, vem a resistência do poder local. As pessoas começam a se perguntar: “depois dessa reparação, essas pessoas vão querer o quê mais?”. E aí, a Tereza sofre uma ameaça. Se ela aceitar receber o dinheiro da reparação, os filhos dela podem morrer. Ela vai ser a primeira na cidade a receber esse dinheiro – porque ela tem um bisavô que respalda essa escolha, ele foi um escravizado, fugiu, fundou um quilombo.


Tereza chorava com as costas arqueadas, a pressão pra con­tinuar espremia o peito, fazia a cabeça doer e a garganta fechar. Não saía correndo porque a mente respondia ao corpo que ela não foi escolhida à toa. Sabia da responsabilidade com as mãos cheias de rugas, os olhos vazios de esperança, o cansaço acumulado em séculos de opressão.


(Céu azul é tempestade, p. 52)

TVT News: esse tema fala muito do que o Brasil é, do que o Brasil foi, de como o Brasil se construiu. O que que te levou a escrever sobre esse tema? Ser uma mulher negra também interferiu nessa escolha?

Patricia Xavier: eu estou escrevendo “Céu Azul é Tempestade”, há décadas. Eu acho que vem muito da minha experiência como uma pessoa negra no Brasil. Vem muito do que eu vi acontecer de histórias da minha família, de amigos e da própria sociedade. Quando eu decidi escrever, eu primeiro fui entender o porquê. E aí, eu entendi, que essa minha motivação para escrever essa história, veio de uma profunda indignação. Essa palavra, que é a minha motivação para escrever, é a minha indignação com a desigualdade social, com as diferenças de tratamento, de oportunidades, que afetam as pessoas negras do Brasil, sendo a maior parte da população. A gente sabe que isso é consequência desse período da escravidão e dessa reparação que não foi feita.


Nós temos muitas conquistas ao longo das décadas. Avançamos, mas lentamente. Então, o que eu vejo, em algumas partes do mundo hoje é essa discussão sobre reparação. E quando eu digo reparação, ela vem de pode vir de diferentes maneiras. Pode ser um fundo criado para educação de crianças, para elas crescerem com mais oportunidades, pode ser acesso ao crédito, a um empreendedor negro, porque a gente sabe da dificuldade da concessão de crédito. Então são várias maneiras.

No meu livro, eu falei da reparação financeira, que é uma das maneiras também postas e que tem discussão e que tem ações em algumas partes do mundo, como nos Estados Unidos, por exemplo. Então, esse dinheiro da reparação, que eu coloco no livro, porque ele é importante, porque esse movimento de reparação é importante – e como ele pode promover uma melhora na vida dessas pessoas.

Tem uma parte, tem um capítulo que eu falo dos sonhos dessas pessoas. Porque as pessoas negras, elas nunca saem do mesmo do mesmo lugar. Elas sempre saem atrás. Por vários motivos. Então, eu vejo essa questão da reparação financeira como um avanço rápido nessa distância que existe entre pessoas brancas e negras. Seria uma das formas de reparação.

TVT News: o que você falaria para incentivar as pessoas a lerem seu livro? 

Patricia Xavier: eu acho que “Céu Azul é Tempestade” é uma oportunidade das pessoas pensarem na sociedade que a gente vive.  Por que é uma sociedade tão desigual? Quais as consequências disso na vida das pessoas? Na dificuldade de obtenção de um emprego melhor, na oportunidade de estudar, de conseguir uma terra para plantar. Por que existem essas diferenças? Por que que a maior parte da população desse país vive com essa consequência desse período e, o que que a gente vai fazer para reparar isso? Eu acho que é um convite para reflexão. É um convite para discussão. Vamos falar sobre isso. Porque tem muita coisa que precisa mudar e começa pelo diálogo.

Então eu criei uma história de ficção, neste livro, porque as pessoas lendo a história da Tereza, vendo as situações que ela passa, podem entender melhor, se colocar no lugar dela e aí vem o questionamento. O que podemos fazer para essas pessoas viverem melhor? O que podemos fazer para a gente reparar esse erro do passado?

TVT News: qual é o papel da cultura  na reparação histórica para com os negros e negras do país?

Patricia Xavier: a gente tem diversas maneiras de falar sobre reparação, mas eu acho que quando você utiliza a cultura, utiliza a literatura, você atinge uma outra parte do ser humano. É uma parte que ele sente. E a partir daí, ele pode ser estimulado a reavaliar o que ele pensa, como ele age, como ele se relaciona com as pessoas. Ela te traz para uma história fictícia, mas que tem muito de realidade. Então eu acho que sempre quando a gente consegue relaxar, sabe?

Porque a literatura faz isso com a gente: eu vou pegar esse livro, eu esse mundo. Eu me desconecto da chamada realidade, eu entro nessa história que foi criada. E essa história que foi criada, sempre tem muito da gente. Tem muito do autor, tem muito do ambiente, tem muito do mundo.

Então, eu acho que é um convite para gente pensar sobre o mundo, sobre como eu trato meu vizinho, sobre qual a oportunidade que eu vou dar para um candidato ou uma candidata negra no emprego. Quando eu for pensar em questões salariais, quando eu for definir questões salariais. É uma questão da gente pensar muito em como melhorar a nossa sociedade. Eu acho que não tem maneira melhor da gente tocar as pessoas, fazer elas sentirem e pensarem com a literatura e com a cultura. Então, eu acho que é uma grande oportunidade para quem tiver aberto a conversa.

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Na trama, Tereza sofre uma ameaça: se ela aceitar receber o dinheiro da reparação, os filhos dela podem morrer. / Foto: Divulgação

FICHA TÉCNICA

Título: Céu azul é tempestade
Autora: Patricia Xavier
Editora: Caravana Grupo Editorial
ISBN: 9786552232267
Formato: 14×23 cm
Páginas: 76
Preço: R$ 60 (físico) | R$27,90 (e-book)
Onde comprar: Caravana Editorial |Amazon/ Direto com a autora no Instagram @patriciaxavierescritora_

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