Na quinta-feira (03), trabalhadores de diversas categorias iniciaram uma greve nacional no Chile para protestar contra retrocessos em questões sociais que têm impactado diretamente a qualidade de vida da população. Em Santiago, capital do país, a Central Unitária de Trabalhadores (CUT) liderou uma manifestação com o objetivo de pressionar o governo, setores industriais e comerciais a abrirem espaço para o diálogo sobre as demandas dos trabalhadores. TVT News.
As reivindicações incluem importantes mudanças estruturais que buscam garantir direitos básicos, combater desigualdades e fortalecer os sistemas públicos. Entre as principais pautas estão:
- Negociação coletiva por setor, para garantir direitos trabalhistas justos e fortalecer os sindicatos;
- Salário digno que assegure condições adequadas de vida para todas as famílias trabalhadoras;
- Aplicação imediata da jornada de 40 horas semanais no setor público;
- Fim da perseguição sindical, com proteção real para o setor público e liberdade sindical;
- Acesso à creche para os filhos dos trabalhadores;
- Redução das listas de espera na saúde pública e fortalecimento do sistema de saúde;
- Direito à moradia, com controle dos preços dos aluguéis e medidas contra a especulação imobiliária;
- Segurança nas comunidades, com combate ao crime organizado e ao narcotráfico;
- Estatização de serviços básicos, como água, eletricidade e transporte público, além de medidas urgentes contra aumentos nas contas de energia elétrica;
- Imposto sobre os super-ricos para financiar uma pensão universal digna;
- Reformulação do sistema previdenciário, com a criação de um ente estatal para administrar os fundos;
- Combate ao negacionismo e à impunidade das violações de direitos humanos ocorridas durante a revolta popular de 2019;
- Proteção contra ajustes orçamentários que penalizam trabalhadores e usuários do sistema público;
- Lei de incentivo à aposentadoria, Lei de estrutura de cargos e Lei de segurança externa.
Sistema Previdenciário do Chile: um legado de desigualdade
Um dos pontos centrais da mobilização é a reforma do sistema previdenciário, marcado pelo modelo de capitalização implementado em 1981 durante o regime ditatorial de Augusto Pinochet. Nesse sistema, cada contribuinte é responsável por sua própria aposentadoria, sem aportes de empregadores ou do governo. Essa estrutura tem sido amplamente criticada por promover desigualdade e fragilizar os serviços públicos.
Para se ter uma ideia, o modelo de previdência vigente no país perpetua desigualdades estruturais, especialmente no que diz respeito à disparidade de gênero. As mulheres, embora vivam mais tempo, contribuem por períodos mais curtos ao longo da vida, devido a fatores como interrupções na carreira para cuidar de filhos ou familiares. Como consequência, acabam recebendo aposentadorias bem menores. Esse sistema também reduz o acesso a uma aposentadoria equivalente ao salário mínimo, reduzindo drasticamente o poder de compra e comprometendo a capacidade de viver com dignidade durante a velhice.
Além disso, mesmo diante da realidade de aposentadorias precárias para grande parte da população, as administradoras responsáveis pelos planos privados de previdência acumulam lucros exorbitantes. Esse cenário agrava ainda mais a desigualdade social, já que os recursos destinados à previdência são distribuídos de maneira desigual, privilegiando os intermediários financeiros em detrimento dos trabalhadores, que enfrentam dificuldades crescentes para manter condições mínimas de subsistência após décadas de contribuição.
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Em 2019, grandes manifestações exigiram não apenas a revisão do sistema previdenciário, mas também a elaboração de uma nova Constituição por meio de uma assembleia constituinte cidadã. No entanto, após dois plebiscitos que rejeitaram propostas para redigir uma nova Carta Magna, o debate foi interrompido, deixando muitas demandas sem solução.
Outra bandeira importante da greve é a redução imediata da jornada de trabalho para 40 horas semanais. Apesar de uma lei aprovada há um ano estabelecer um cronograma de implementação gradual, a carga horária só deve chegar a 40 horas apenas em 2028. Para os trabalhadores, esse ritmo lento reflete a resistência do governo e dos setores empresariais em priorizar os direitos trabalhistas.
A greve conta com a adesão de 16 organizações filiadas à CUT, incluindo a Associação de Funcionários Municipais, o Colégio Nacional de Professores e representantes do setor de saúde. Os educadores, em particular, denunciam condições precárias de trabalho, como sobrecarga e violência nas salas de aula. Mesmo assim, garantem que as atividades pedagógicas não serão prejudicadas, pois os estudantes estão participando ativamente por meio de marchas, assembleias e outras atividades educativas.

Além disso, os manifestantes cobram o cumprimento da Lei Karin, aprovada em 2023, que tipifica o assédio psicológico, sexual e de gênero como condutas graves no ambiente de trabalho. Apesar da legislação, sua implementação enfrenta resistências.
Para a CUT, o espaço democrático para debates e transformações sociais no Chile tem sido. Por isso, a greve representa mais do que uma paralisação: é um chamado urgente para que o governo e os setores empresariais reconheçam as demandas dos trabalhadores e tomem medidas concretas para melhorar as condições de vida e trabalho no país.
A mobilização evidencia que, diante de retrocessos sociais e econômicos, os trabalhadores chilenos continuam firmes na luta por justiça social, direitos básicos e um futuro mais igualitário.