O planejamento econômico da China, estruturado em planos quinquenais e orientado pelo Estado, está redesenhando o equilíbrio global de poder e abrindo uma janela de oportunidades — e riscos — para o Brasil. Essa foi a avaliação de especialistas que participaram do Jornal TVT News Primeira Edição, ao analisarem os impactos da estratégia chinesa sobre a economia internacional. Saiba mais em TVT News.
Para o professor Feliciano de Sá Guimarães, da USP, o plano chinês não é apenas doméstico: ele projeta efeitos diretos na geopolítica. “É tanto uma reorganização interna quanto algo com consequências internacionais muito importantes”, afirmou. Entre os principais pontos, ele destacou o investimento contínuo em inteligência artificial e a aproximação estratégica com a Rússia, evidenciada por projetos como novos gasodutos.
Segundo ele, a parceria sino-russa consolida uma mudança estrutural: “Essa associação veio para ficar e tem implicações geopolíticas de toda ordem”. O cenário, acrescenta, aponta para uma ordem internacional em transição. “Estamos numa ordem multipolar em construção, mas ainda muito desequilibrada, o que aumenta o risco de conflitos.”
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O economista José Kobori ressaltou que o planejamento chinês busca superar a chamada “armadilha da renda média”, combinando inovação tecnológica com ampliação do consumo interno. “Se a maioria da população tem renda e poder de consumo, você cria um mercado interno poderosíssimo”, explicou. Com 1,4 bilhão de habitantes, esse mercado funciona como “amortecedor de choques externos” e amplia o poder de barganha da China no cenário global.
Na prática, esse modelo fortalece não apenas o país asiático, mas também abre espaço para o chamado Sul Global. “O desenvolvimento da China vai ajudar outros países a se desenvolverem para atender esse mercado”, disse Kobori.
A subsecretária de Acompanhamento Macroeconômico e Políticas Comerciais do Ministério da Fazenda, Julia Braga, destacou que, apesar de uma desaceleração aparente, a economia chinesa segue como motor global. “Um crescimento de 4,5% com população praticamente estável significa um avanço expressivo em renda per capita”, afirmou.
Brasil e China
Ela avalia que a relação entre Brasil e China é marcada pela complementaridade. “O Brasil é superavitário com a China e tem ganhos expressivos do ponto de vista macroeconômico”, disse, citando o saldo positivo de cerca de US$ 30 bilhões. Nesse contexto, o país ocupa posição estratégica ao fornecer energia e alimentos — itens centrais na agenda de “segurança econômica” chinesa.
O petróleo, por exemplo, ganhou peso recente nas exportações brasileiras, assim como soja e minério. Ao mesmo tempo, o Brasil importa bens de maior valor agregado. “Máquinas e equipamentos importados já embutem tecnologia e elevam a produtividade”, explicou Braga.
A cooperação vai além do comércio e inclui áreas como infraestrutura, energia limpa, inovação, inteligência artificial e veículos elétricos. “A relação com a China é estratégica e está em aprofundamento em múltiplas frentes”, afirmou.
Apesar das oportunidades, os especialistas alertam para um problema estrutural: o risco de o Brasil permanecer como fornecedor de commodities. Kobori foi direto: “O Brasil não pode continuar sendo a periferia do capitalismo”. Para ele, a saída passa necessariamente por investimento em tecnologia e inovação. “Não existe outro caminho para elevar produtividade e renda.”
O debate ganha ainda mais relevância no contexto dos minerais críticos e das terras raras, essenciais para tecnologias avançadas e defesa. O Brasil possui grandes reservas, mas ainda carece de capacidade de processamento. “Hoje, cerca de 90% dessas terras raras são processadas pela China, o que dá uma vantagem estratégica enorme ao país”, afirmou Kobori.
Feliciano reforçou que há uma disputa global por esses recursos e que o Brasil precisa definir sua estratégia. “Depende de nós decidir se vamos apenas exportar matéria-prima ou avançar na cadeia produtiva com investimento e tecnologia”, disse.
No campo militar, a China também avança. Já é o segundo maior orçamento de defesa do mundo e busca ampliar sua presença no mercado internacional de armas. Ainda assim, os Estados Unidos mantêm ampla superioridade tecnológica e industrial.
Para o professor, o futuro da ordem global dependerá de dois fatores centrais: “as mudanças climáticas e a rivalidade entre China e Estados Unidos”. O desfecho dessa disputa será decisivo para o sistema internacional.
Ao final, os participantes convergiram em um diagnóstico: o Brasil tem espaço nesse “xadrez econômico”, mas precisa agir com estratégia. Isso inclui planejamento de longo prazo, coordenação entre Estado e setor produtivo e aposta consistente em inovação.
Como resumiu Julia Braga, há aprendizado mútuo possível entre os países. “O ideal seria sermos um pouco mais como os chineses em inovação, e eles um pouco mais como o Brasil em bem-estar social.” Sem esse equilíbrio, alertam os especialistas, o país corre o risco de assistir à reconfiguração global sem protagonismo.

