Após o anúncio oficial feito na terça-feira (2) pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre a imposição de tarifas comerciais mais altas contra diversos países, o mercado global iniciou uma reorganização para se adaptar às novas medidas. Apesar do Brasil estar entre os países menos impactados, com uma tarifa geral de 10% — inferior à aplicada a muitos outros parceiros comerciais dos EUA —, setores da economia nacional ainda podem sentir os efeitos negativos das mudanças. Confira mais em TVT News.
Na quinta-feira (3), o dólar e as bolsas de valores globais abriram em queda. No Brasil, entretanto, o cenário foi diferente: o dólar operava em baixa, negociado a R$ 5,60, enquanto o Ibovespa registrava alta, contrariando a tendência mundial. Mas será que isso significa otimismo? Não necessariamente. Produtores brasileiros estão preocupados, já que as exportações para os EUA passaram a enfrentar tarifas cinco vezes maiores do que as anteriores, que giravam em torno de 2%.
Além disso, desde fevereiro, o Brasil já está submetido a tarifas de 25% sobre as exportações de aço e alumínio para os Estados Unidos — um dos principais mercados para esses produtos. Para Elaini Silva, doutora em Direito Internacional pela USP e professora da PUC-SP, esse é o maior desafio no atual cenário. “O alumínio, o aço e até mesmo os automóveis continuarão sujeitos às tarifas já existentes, superiores a 25%, e não serão reduzidos aos 10% anunciados por Trump”, explica.

Impacto nas Exportações Brasileiras
Os setores mais afetados pelas novas tarifas incluem:
- Café
- Papel
- Celulose
- Madeira
- Carne
- Suco de laranja
- Etanol

O agronegócio, em particular, deve sofrer impactos ainda maiores. No entanto, segundo Elaini Silva, essa situação também pode ser vista como uma oportunidade para o governo brasileiro repensar sua pauta exportadora. “A indústria mais afetada será a das grandes commodities de exportação, o que abre espaço para questionar escolhas políticas e econômicas, além de reconsiderar estratégias diplomáticas para proteger setores prioritários que atendam ao interesse maior do povo brasileiro”, avalia.
Reflexos nos preços e economia
Para a população brasileira, o impacto direto das novas tarifas deve ser limitado. De acordo com Elaini Silva, o aumento dos preços não deve chegar ao consumidor final no Brasil. “Não vamos sentir no país o impacto de aumentos de preços decorrentes dessas tarifas, porque os produtos brasileiros exportados aos EUA terão apenas sobretaxas adicionais, resultando em preços mais altos lá, e não aqui”, esclarece.
Por outro lado, nos Estados Unidos, o “tarifaço” pode gerar consequências indesejadas. Em nome de proteger seu mercado interno, os norte-americanos podem enfrentar pressões inflacionárias. “A expectativa é de que essas sobretarifas causem inflação e possam agravar o risco de recessão nos EUA, mas não no Brasil”, alerta Silva.
Resposta do Governo Brasileiro
Antes mesmo do anúncio oficial de Trump, o governo brasileiro já havia respondido com a aprovação acelerada da Lei de Reciprocidade Econômica no Senado. O Ministério das Relações Exteriores também criticou duramente a tarifa geral de 10% aplicada sobre todas as exportações brasileiras, classificando como unilateral, injusta e desequilibrada em nota divulgada na terça-feira (2).
No entanto, para Elaini Silva, alterações na legislação, como o projeto de lei aprovado essa semana no Senado, que prevê reciprocidade na aplicação de tarifas, não garantem equilíbrio nas relações comerciais. “A legislação não é o caminho adequado para responder a essas medidas, e ela provavelmente não será reconhecida como válida nas relações internacionais. A forma correta de agir é recorrer à OMC (Organização Mundial do Comércio), que prevê mecanismos específicos para lidar com questões de segurança nacional”, destaca. “Vários países já iniciaram ações na OMC contra as medidas adotadas por Trump.” Completou.
Embora o Brasil tenha sido relativamente poupado em comparação a outros parceiros comerciais dos EUA, os impactos do “tarifaço” de Trump ainda são motivo de preocupação, especialmente para setores como o agronegócio e as exportações de commodities. Enquanto isso, os próprios Estados Unidos podem enfrentar consequências indesejadas, como inflação e desaceleração econômica. Para o Brasil, além de buscar soluções diplomáticas, o momento exige reflexão sobre estratégias de diversificação comercial e fortalecimento de mercados alternativos.