No Conselho de Segurança da ONU, EUA dizem que não estão em guerra contra Venezuela

Brasil, Rússia e China condenam ataque; EUA disse que não estão em guerra contra a Venezuela
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Visão geral da reunião do Conselho de Segurança da ONU. Foto: ONU/Manuel Elias

Acompanhe como foi a reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU, que discutiu a situação na Venezuela, com a TVT News.

O Brasil participou do encontro juntamente com Argentina, Chile, Cuba, Eritreia, Irã, México, Nicarágua, Paraguai, África do Sul, Espanha, Trinidad e Tobago e Uganda. 

A sociedade civil teve dois representantes: o economista e acadêmico americano Jeffrey Sachs e Merchy Freitas, da Transparência Venezuela.

Direto da ONU: veja como foi a reunião do Conselho de Segurança

EUA dizem no Conselho de Segurança da ONU que “não há guerra contra a Venezuela ou seu povo”

O representante dos Estados Unidos, Michael Waltz, iniciou sua intervenção afirmando que o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro é “um narcoterrorista foragido”, responsável por ataques contra a população norte-americana, por desestabilizar o hemisfério ocidental e por “reprimir ilegitimamente o povo venezuelano”.

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O representante dos EUA na ONU, Michael Waltz, justificou as ações norte-americanas dizendo que não há guerra contra a Venezuela ou seu povo”, mas uma “operação cirúrgica de aplicação da lei para prender dois fugitivos indiciados”. Foto: ONU

Ele disse que Maduro não era um chefe de Estado, pois manipulou, por anos, as eleições venezuelanas para se manter no poder e que 50 países rejeitaram a legitimidade da reeleição de 2024. 

Waltz descreveu a ação militar do dia 3 como uma “operação cirúrgica de aplicação da lei” para prender dois fugitivos indiciados. O embaxador enfatizou que “não há guerra contra a Venezuela ou seu povo” e comparou a ação à prisão do ex-líder do Panamá, Manuel Noriega, em 1989.

O embaixador dos EUA disse que o país não vai permitir que o hemisfário ocidental “seja usado como base de operações para nações adversárias, concorrentes e rivais”. Segundo ele, a Venezuela não pode se tornar um hub de operações do Irã, do Hazzbollah, de gangues, de agentes da inteligência cubana, e outros atores malignos”.  

Waltz disse ainda que “as maiores reservas de energia do mundo não podem continuar sob controle de adversários dos Estados Unidos e líderes ilegítimos”.

Brasil rechaça ataques e alerta para erosão do multilateralismo

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O representante do Brasil, Sérgio França Danese, afirmou que o país rechaça de maneira categórica a intervenção armada na Venezuela, classificando-a como uma “violação flagrante da Carta das Nações Unidas e do direito internacional”.

Danese enfatizou que “a América do Sul é uma zona de paz” e  alertou que os bombardeios em território venezuelano e a captura de seu presidente “ultrapassam uma linha inaceitável”. Ele afirmou que as normas internacionais não admitem exceções baseadas em interesses ou ideologias. 

Para o embaixador, “aceitar ações dessa natureza levaria inevitavelmente a um cenário marcado pela violência, pela desordem e pela erosão do multilateralismo”.

Danese afirmou que os efeitos deste enfraquecimento da governança global já podem ser percebidos no número recorde de conflitos, nas crescentes necessidades humanitárias e nos gastos militares que se aproximam de US$ 2,7 trilhões.

Venezuela afirma que agressão dos Estados Unidos é motivada pela ganância por recursos naturais

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O representsante da Venezuela, Samuel Moncada, afirmou que não só a soberania de seu país está em jogo, mas também “a credibilidade do direito internacional” e a autoridade das Nações Unidas.

Ele disse que a Venezuela foi submetida a um “ataque armado ilegítimo” pelos Estados Unidos em 3 de janeiro, sem qualquer justificativa legal e constituindo uma violação flagrante da Carta da ONU, das Convenções de Genebra e do princípio da igualdade soberana.

O embaixador advertiu que tolerar o “sequestro de um chefe de Estado” e ataques a civis sinalizaria que “a lei é opcional”. Ele argumentou que a agressão é motivada pelos recursos naturais da Venezuela e por sua posição geopolítica.

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(Da esquerda para a direita) O vice-embaixador do Reino Unido nas Nações Unidas, James Kariuki, conversa com o embaixador dos EUA nas Nações Unidas, Michael Waltz, durante reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU, em 5 de janeiro de 2026, em Nova York, para discutir as recentes ações dos EUA na Venezuela. Nicolás Maduro, de 63 anos, enfrenta acusações de narcotráfico, assim como sua esposa, que também foi detida e retirada de Caracas no ataque surpresa dos EUA em 3 de janeiro, que envolveu comandos, bombardeios aéreos e força naval na costa da Venezuela. (Foto de John Lamparski / AFP)

Para o Reino Unido, “a reivindicação de poder de Maduro foi fraudulenta”

O representante do Reino Unido, James Kariuki, afirmou que as ações de Maduro criaram níveis extremos de pobreza, repressão violenta e colapso dos serviços básicos, precipitando uma crise de deslocamento que afeta toda a região.

Ele afirmou que “a reivindicação de poder de Maduro foi fraudulenta” e defendeu uma transição segura e pacífica para um governo legítimo que reflita a vontade do povo venezuelano.

Kariuki também reafirmou o compromisso do Reino Unido com o direito internacional e os princípios consagrados na Carta das Nações Unidas. 

Ele afirmou que “esses fundamentos são essenciais para a manutenção da paz, da segurança e do Estado de direito em nível global”.

França alerta para “proliferação de violações da Carta das Nações Unidas”

O representante da França disse que as eleições de 2024 na Venezuela foram marcadas por irregularidades e seguidas por detenções arbitrárias de opositores, práticas que chamou de inaceitáveis.

Ele adicionou que a operação militar que culminou na captura de Nicolás Maduro contraria o principio da resolução pacífica de conflitos e de não uso da força. Para a França, a proliferação de violações da Carta das Nações Unidas abalam a fundação da ordem internacional. 

Segundo o embaixador, o país continua comprometido com o respeito à vontade do povo venezuelano e defendeu uma transição pacífica e democrática, liderada pelos venezuelanos.

Na ONU, Colômbia defende solução diplomática na Venezuela

A Colombia foi o primeiro país a se pronunciar. A representante da nação sul-americana, Leonor Zalabata Torres, condenou de maneira categórica os ataques de 3 de janeiro e os bombardeios em Caracas e outras áreas militares e civis, que classificou de “violação evidente da soberania, independência política e integridade territorial venezuelana”.

Ela enfatizou que as diferenças entre Estados devem ser resolvidas de forma pacífica pela via do diálogo e negociação. 

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Leonor Zalabata Torres condenou de maneira os ataques de 3 de janeiro e os bombardeios em Caracas. Foto: ONU

A representante colombiana disse que a situação da Venezuela tem implicações para a paz e segurança internacionais, pois estabelece precedentes “profundamente preocupantes”, contradizendo a Carta das Nações Unidas. 

Ela declarou que a Venezuela “merece viver em paz, democracia, prosperidade e dignidade, com um governo soberanamente definido por ninguém mais além de seu próprio povo e suas instituições”. A Colômbia se colocou à disposição para encontrar uma solução diplomática para a crise no país vizinho.

Rússia condena retorno do imperialismo norte-americano

A Rússia condenou de forma firme o “ato de agressão armada” contra a Venezuela e a detenção do presidente Nicolás Maduro e sua esposa. O representante russo, Vassily A. Nebenzia, pediu a libertação imediata de ambos. 

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O representante russo na ONU, Vassily A. Nebenzia, pediu a libertação de Maduro e esposa. Foto: ONU

Ele afirmou que o ataque contra o presidente da Venezuela tem sido encarado como um retorno a “uma era de dominação dos Estados Unidos pela força, caos e ilegalidade”.  O embaixador enfatizou que não há justificativa para os “crimes cinicamente” perpetrados pelos forças norte-americanas em Caracas.

O representante da Rússia afirmou que Washington está criando novas condições para o colonialismo e o imperialismo, modelos que foram amplamente rechaçados e pelos povos da América-Latina. 

Ele disse que é extremamente importante que a comunidade internacional se una e rejeite “os métodos e ferramentas da política externa militar dos Estados Unidos”, que foram demonstrados no caso da Venezuela. 

China se diz chocada com “atos ilegais e unilaterais de bullying”

A China se disse chocada com os ataques dos Estados Unidos contra a Venezuela, que chamou de atos unilaterais e ilegais de bullying. 

O representante do país afirmou que o uso indiscriminado da força só vai criar crises ainda maiores e que “nenhuma nação pode agir como polícia do mundo ou presumir ser um juiz internacional”.

O embaixador chines demandou que os Estados Unidos mudem de rumo, pare o bullying e práticas coercivas e desenvolva relações em cooperação com países da região na base do respeito mútuo, equidade e não interferência em assuntos internacionais.

A China se disse pronta para garantir a paz e estabilidade na América Latina e no Caribe.

Dinamarca: “a inviolabilidade das fronteiras não é negociável”

A representante da Dinamarca expressou profunda preocupação com a drástica escalada das tensões na Venezuela. Ela disse que as ações do dia 3 de janeiro representam um perigoso precedente de uso da força contra a integridade territorial e independência política. 

A embaixadora dinamarquesa ressaltou que “a inviolabilidade das fronteiras não é negociável, é um princípio sacrossanto e universal da lei internacional que se aplica em todos os lugares”.

A Dinamarca pediu o fim das tensões por meios pacíficos e pediu que todas as partes se envolvam por meio do diálogo e negociações. Segunda a embaixadora, o combate o narcotráfico deve estar alinhado com os princípios da Carta das Nações Unidas.

Ela disse que o país nórdico não reconhece Maduro como líder legítimo da Venezuela por causa da falta de transparência das eleições de 2024 e declarou que as vítimas na Venezuela devem ser ouvidas. 

Na reunião do Conselho de Segurança, Jeffrey Sachs pede respeito ao Direito Internacional

O diretor do Centro para o Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Columbia, Jeffrey Sachs, disse que no ano de 2025 os Estados Unidos bombardearam diversos países sem autorização do Conselho de Segurança, incluindo Irã, Iraque, Somália, Nigéria, Síria, Iêmen.

Sachs também afirmou que, no mês passado, o presidente norte-americano fez ameaças diretas a 6 Estados-membros da ONU: Colombia, Dinamarca, México, Irã, Nigeria e Venezuela.

Para o pesquisador, a reunião não é para julgar o líder venezuelano, Nicolás Maduro, ou o efeito das ações dos Estados Unidos no país, e sim para defender o direito internacional e a Carta da ONU.

Ele sugeriu fim das ameaças e uso da força dos Estados Unidos contra a Venezuela e outras medidas coercitivas que não são autorizadas pelo Conselho de Segurança. Ele pediu também a nomeação de um enviado especial da ONU que apresente recomendações em 40 dias para o Conselho. 

Guterres pede respeito à independência dos países em reunião sobre Venezuela na ONU

Na abertura da reunião, a subsecretária-geral da ONU para Assuntos Políticos e de Consolidação da Paz, Rosemary DiCarlo, transmitiu a mensagem do secretário-geral, António Guterres, ressaltando a incerteza a respeito do “futuro imediato da Venezuela”.

O líder da ONU declarou estar “profundamente preocupado” com a possível intensificação da instabilidade no país, o impacto potencial na região e “o precedente que isso pode criar para a forma como as relações entre os Estados são conduzidas”.

Segundo Guterres, a situação na Venezuela tem sido motivo de preocupação regional e internacional há muitos anos, principalmente após “as eleições presidenciais contestadas em julho de 2024”. A ONU tem insistido na necessidade de total transparência e na publicação completa dos resultados do pleito.

Sobre a ação militar norte-americana em 3 de janeiro, o secretário-geral destacou preocupação com o fato de as normas do direito internacional não terem sido respeitadas. A mensagem transmitida por DiCarlo ressalta que a Carta da ONU consagra a proibição da ameaça ou do uso da força contra a integridade territorial ou a independência política de qualquer Estado.

O líder da ONU enfatizou que a manutenção da paz e da segurança internacionais depende do compromisso contínuo de todos os Estados-membros em cumprir todas as disposições da Carta.

Com informações da ONU

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