A popularidade do presidente da Argentina, Javier Milei, enfrenta um dos momentos mais delicados desde o início de seu mandato. Levantamentos recentes apontam que a desaprovação ao governo já atinge cerca de 60%, impulsionada por denúncias de corrupção, crises políticas e, sobretudo, pela deterioração das condições econômicas da população. As informações são do jornal O Globo. Leia em TVT News.
O cenário de insatisfação se reflete no cotidiano de famílias argentinas, especialmente da classe média. A dificuldade crescente para arcar com despesas básicas, somada ao aumento do custo de vida, tem pressionado a percepção sobre o governo. Segundo analistas ouvidos pela reportagem, esse quadro ajuda a explicar a queda consistente na aprovação presidencial, que hoje varia entre 38% e 48%, enquanto a rejeição supera os 60% em algumas pesquisas.
Dados da Universidade de San Andrés reforçam o diagnóstico de desgaste: apenas 33% dos argentinos se dizem satisfeitos com a situação do país, uma queda de sete pontos percentuais em relação ao fim do ano passado. Na mesma sondagem, 38% afirmaram aprovar o governo, contra 59% que o desaprovam.
>> Siga o grupo da TVT News no WhatsApp
Para a analista política Ana Iparraguirre, o governo atravessa seu momento mais frágil até agora, ainda que não se trate de um colapso completo. “Milei está em seu pior momento, mas não é uma catástrofe. O presidente está, a esta altura de seu mandato, melhor do que estavam Mauricio Macri e Alberto Fernández. Agora, nenhum dos dois se reelegeu”, afirmou ao O Globo.
A principal razão para o desgaste, segundo especialistas, é a economia. Embora indicadores apontem crescimento, ele é percebido como desigual e incapaz de melhorar a renda da maioria da população. Em regiões centrais como Buenos Aires e sua área metropolitana, os salários não acompanham a inflação, o que alimenta a sensação de empobrecimento. Pesquisas indicam que 46% dos argentinos acreditam que estarão em situação pior dentro de um ano.
Além da crise econômica, escândalos políticos têm agravado o quadro. Um dos episódios mais recentes envolve o chefe de Gabinete, Manuel Adorni, alvo de críticas após a revelação de que sua esposa o acompanhou em viagem oficial a Nova York no avião presidencial. O caso gerou forte repercussão negativa e questionamentos sobre uso de recursos públicos.
Também avançam investigações sobre a suposta participação de Milei na promoção da criptomoeda Libra, que, segundo versões divulgadas pela imprensa local, teria rendido cerca de US$ 5 milhões ao presidente. Embora ainda sob apuração, o episódio contribui para alimentar a percepção de falta de transparência no governo.
Outra pesquisa, realizada pela consultoria Hugo Haime e Associados, aponta números ainda mais desfavoráveis: apenas 37% apoiam a gestão, enquanto 61% têm imagem negativa do presidente. Entre os principais problemas apontados pelos entrevistados estão os baixos salários (36%) e a corrupção (28%). Para 64%, a responsabilidade pela crise é do governo atual, contra 28% que atribuem a situação a administrações anteriores.
O cientista político Ignacio Labaqui avalia que a deterioração do mercado de trabalho tem impacto direto na base social do governo. “A falta de emprego e os salários atrasados prejudicam principalmente os que moram na capital e na Grande Buenos Aires. São setores que antes foram favorecidos por subsídios que Milei eliminou”, disse ao O Globo.
Já para Santiago Giorgetta, os escândalos amplificam os efeitos negativos da economia. “Os escândalos estão magnificando os problemas econômicos. O problema é a economia, e os escândalos agravam um panorama ruim para o governo. Milei vive um momento de fraqueza”, afirmou.
O desgaste também começa a atingir segmentos que antes sustentavam o presidente, como homens jovens, grupo que ajudava a compensar a menor adesão entre mulheres. Ao mesmo tempo, cresce o descontentamento nas redes sociais e até entre setores da imprensa antes alinhados ao governo.
Apesar do cenário adverso, analistas apontam que Milei ainda se beneficia da ausência de uma oposição forte e consolidada. Esse fator, por ora, impede que a queda de popularidade se traduza automaticamente em risco político imediato.
Ainda assim, o avanço da desaprovação e o agravamento das tensões sociais indicam um ambiente de crescente pressão sobre a Casa Rosada. Sem melhora concreta na economia, a tendência, segundo especialistas, é de aprofundamento do desgaste nos próximos meses.

