Desmatamento é quatro vezes menor onde há povos indígenas e comunidades tradicionais

Estudo mapeou refúgios bioculturais em região do Brasil onde ocorre o encontro de três biomas: Cerrado, Mata Atlântica e Caatinga
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Brigada de incêndio da Prevfogo composta com membros da comunidade quilombola Kalunga, durante simulação de combate ao fogo no cerrado no Engenho II, em Cavalcante (GO). Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

Na região entre os estados de Minas Gerais, Bahia e Espírito Santo ocorre o encontro de três biomas: o Cerrado, a Mata Atlântica e a Caatinga. Essa é uma das regiões de maior biodiversidade do mundo e também uma das regiões com maior diversidade de línguas e culturas no país. Nos locais onde ainda existem florestas nativas, vivem indígenas, quilombolas e outras comunidades tradicionais. Segundo o pesquisador Rodrigo Martins dos Santos, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, essa confluência de biomas e povos, chamada de “Refúgio Biocultural”, é responsável por manter o desmatamento na região quatro vezes menor do que em outras áreas.

Rodrigo abordou esse tema em sua tese de doutorado, intitulada Refúgios Bioculturais no Centro-Leste do Brasil: Paisagens e Territorialidades da Sociobiodiversidade. Sob orientação da professora Sueli Angelo Furlan, o pesquisador defendeu a tese em 2024 no âmbito do programa de pós-graduação em Geografia Física da FFLCH.

A ideia da tese foi mostrar que tanto a vida natural quanto a cultura possuem uma relação direta. Essa visão faz parte do ponto de vista da Antropogeografia, uma área que estuda a distribuição da espécie humana no ambiente. Para ela, não existe dissociação entre os seres humanos e a biodiversidade.

O conceito da sociobiodiversidade, presente no título da tese, apareceu para Rodrigo quando esteve a trabalho na Organização das Nações Unidas (ONU) e conheceu um livro sobre diversidade biocultural, que trata do contato entre biodiversidade e diversidade de culturas.

Território como refúgio

O pesquisador iniciou a pesquisa com um levantamento de territórios etnolinguísticos do país. Como base, tomou os mapas criados na década de 1940 pelo etnólogo alemão Curt Nimendajú, que havia registrado 106 etnias na época. Em sua tese, finalizada em 2024, foram documentadas 186 etnias. De acordo com Rodrigo, o aumento se deve ao avanço das tecnologias e instituições de pesquisa de dados na atualidade. “Nós conseguimos preencher algumas lacunas deixadas pelo mapa de Nimendajú. Durante a minha banca, disse aos professores que ele estaria feliz com isso”, comenta o pesquisador.

O trabalho resultou em 82 mapas, 10 quadros e 9 tabelas que analisaram etnias, línguas, ocupações europeias e retração dos domínios de natureza ao longo dos séculos e a existência dos refúgios bioculturais. “O refúgio biocultural é o local onde as culturas se refugiaram [após o avanço da desnaturação]. São locais que abrigaram os indígenas e outros povos tradicionais, onde eles encontraram espaço para resistir”, completa Rodrigo.

Das 186 etnias descobertas que existiam antes da chegada dos europeus, foram documentados 34 refúgios de povos indígenas atuais e 14 de outras comunidades tradicionais. Segundo Rodrigo, a redução histórica coincide com a perda da biodiversidade e, onde estão os refúgios, a taxa de desmatamento é quatro vezes inferior à média regional. Para o pesquisador, isso reforça a tese de que os povos e comunidades tradicionais contribuem com a preservação da biodiversidade no país.

Mapa da desnaturação ao longo dos séculos. Em azul, os refúgios bioculturais; em verde, redutos de biodiversidade; em bege e em vermelho, regiões progressivamente desnaturadas – Foto: Reprodução/Tese/ Rodrigo Martins dos Santos

Um País multiétnico

A pesquisa também contribuiu para a área de linguística. Durante a busca, descobriu-se que determinadas línguas eram exclusivas de um único ambiente. As línguas da família Puri, que não possuem povos remanescentes hoje em dia, e as línguas Borum, dos atuais Krenak, são faladas apenas no domínio da Mata Atlântica. Já as línguas da família Kariri são particulares do ambiente da Caatinga. A família Jê está mais situada no meio Cerrado.

Porém, quando observaram as línguas da família Maxakali, dos Pataxós, estas são faladas tanto na Mata Atlântica quanto no Cerrado. O mesmo ocorre com a família de línguas Kamakãs, presentes na Caatinga e Mata Atlântica. O destaque foi para a família Tupi Guarani, a mais versátil de todas, falada em todos os ambientes, levantando a hipótese de, por esse motivo, ter sido o idioma selecionado pelos europeus, séculos atrás, para se tornar língua franca do país, além de ter sido base para o desenvolvimento do Nheengatu.

Na avaliação de Rodrigo, a tese ajuda a compreender mais o próprio país e avança nos estudos etnográficos e etnolinguísticos. “O Brasil tem que se reconhecer mais, em suas origens, diversidades e se estudar mais. Isto está previsto em lei. Merecemos nos entender mais como um país multiétnico”, concluiu o autor.

Territórios etnolinguísticos no século 16 – Foto: Reprodução/Tese/ Rodrigo Martins dos Santos

Por Pedro Seno, no Jornal da USP

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